Depois da demonstração que lhe valeu ouro, chegam-lhe orçamentos mais chorudos! Damian McCarthy está em grande, agora com a distribuidora/produtora à sua medida: a Neon Unrated decidiu apostar numa das pequenas gemas do terror. Os códigos ,segundo promete, mantêm-se: espaços fechados e acontecimentos inexplicáveis, “Hokum” é o desafio da bitola (estará o irlandês preparado para outras andanças?).
Cá vai: mais arquitectado, nomeadamente nos jumpscares, a terceira longa-metragem do irlandês acompanha a história de um escritor americano (Adam Scott) que atravessa o Oceano Atlântico rumo à Irlanda, instalando-se num hotel rural, um quase albergue de caça. No decorrer da estadia, atingido pela sua própria tragédia, decide enforcar-se, acto que se revela falhado quando uma das funcionárias do hotel se apercebe a tempo e lhe salva a vida. Após semanas de recuperação, regressa ao estabelecimento para agradecer à sua improvável heroína … Fiona (Florence Ordesh), sendo esse o seu nome. Contudo, desapareceu misteriosamente e as poucas pistas conduzem-no até uma suíte nupcial assombrada onde, reza a “lenda dos corredores”, uma bruxa permanece aprisionada no seu interior.
É Stephen King, claramente, mas apenas de espírito, porque McCarthy assume a caneta, mas endereça-se ao estilo: escritores malfadados, hotéis inexplicáveis… “The Shining”, ouviu-se do outro lado, “1408” chora-se no fundo do hall. Há até quartos encerrados à anos, uma banheira suja e o cadáver de uma mulher. Pois é: depois de “Oddity” (vencedor do MOTELx 2024), com efeitos a vergar para a mitologia do Golem, “Hokum” representa um outro salto (mais ambicioso, mais introspectivo) e, mesmo quando aparenta inteligência na forma como constrói o medo, soa-se despropositado, relaxado no seu próprio ego. No fim de contas, parece a perdição e o congelamento de um estilo: a perversão e o fetiche do susto e da ambiência, mas também a sua estagnação.
Num tempo em que o terror se quer transgressivo, por vezes politizado, noutras frentes espicaçado por ‘novas’ linguagens (basta olhar para os sucessos cardíacos de “Obsession” ou “Backrooms”, condensados por gerações de youtubers) “Hokum”, por mais lúdico que seja no seu jogo sobrenatural de gato e rato e na sua “boa estética” (validando o seu apurado bom gosto nesse campo), não nos leva a lado nenhum. É jumpscare prolongado… bons jumpscares, lê-se nas entrelinhas, mas, fora isso, escapa-se e cede-se ao escapismo.

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