Em várias entrevistas, enquanto o filme percorria as salas comerciais numa digressão nacional (depois da sua estreia no Doclisboa 2025, tendo sido distinguido com o Prémio do Público), Diogo Varela Silva revelou que, nas suas saídas do Johnny Guitar, extinto bar lisboeta gerido por Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, e Alex Cortez, dos Rádio Macau, seguia para uns últimos petiscos e as derradeiras ‘molhadelas de bicos’ na tasca “O Truque”, sob a alçada de Orlando Jesus.
Quem era Orlando Jesus? Perguntam vocês, e muito bem! Um dos maiores nomes do boxe português, 72 anos, sessenta deles passados na modalidade: foi campeão, árbitro, treinador e formador de gerações inteiras. Diogo Varela Silva, por sua vez, tem vindo a construir uma filmografia marcada por figuras da cultura popular lisboeta, da música aos bairros, do fado às memórias de uma cidade em permanente transformação. Deste encontro nasceu “Soco a Soco”, um documentário sobre esta figura tipicamente lisboeta e, ao mesmo tempo, uma porta de entrada para uma Lisboa entretanto desaparecida.
Contudo, passamos ao presente: foi na atmosfera m, espaço cultural da Montepio Associação Mutualista, em Lisboa, pouco antes de uma sessão especial do filme, que nos encontrámos para uma breve conversa. Quase tudo já tinha sido perguntado a Varela Silva sobre o processo de realização deste projecto, e muito se sabe sobre o pugilista, até porque o próprio filme o assim revela, ainda assim, esta era uma oportunidade para desafiar a ordem sagrada das respostas feitas, talvez tentar a sorte de encontrar algo para além do selling. Diogo Varela Silva voltou a reforçar a sua Lisboa, enquanto Orlando Jesus reafirmava a sua história, dignamente, como se a batesse no peito ao contá-la.
Durante a conversa, falou-se de cinema, de memória e da relação entre o boxe e o fado, mas também de algo mais raro: da forma como um documentário pode preservar gestos, vozes e lugares antes de desaparecerem. Entre um realizador que encontrou um filme numa amizade e um pugilista que encontrou uma vida inteira dentro do ringue, esta entrevista acaba por ser também um retrato de uma cidade contada soco a soco. Um aperitivo à fantasmagoria que a capital preserva …
Sei que, a esta altura do campeonato, esta questão se tornou ainda mais irrelevante, sobretudo pelas várias vezes que foi abordada pela imprensa na altura da estreia do filme, mas pergunto na mesma: como chegou ao Orlando?
Diogo Varela Silva: Conheço o Orlando há alguns anos, mas a nossa relação tornou-se mais próxima quando comecei a treinar com ele, há cerca de dez anos. Fomos-nos conhecendo, criou-se uma amizade, e fui descobrindo a história dele até perceber que dali podia nascer um filme. Aliás, podiam nascer vários filmes, isto é apenas uma parte muito pequena do que foi a vida do Orlando. São muitos capítulos! Poderia dar uma série inteira. Foram dez anos de convívio, de troca de conhecimento e de uma confiança que foi crescendo entre nós.

E dessa confiança nasceu o convite para fazer um filme sobre a sua vida?
DVS: Sim! A história do Orlando tem tudo aquilo que interessa numa história de cinema (as várias voltas, os vários ganchos, as coisas que nos prendem). Há tudo isso aqui.
O boxe é possivelmente o desporto mais adaptável ao cinema, possui tragédia, romantismo, esperança e inconfundivelmente um arco … e relembro que um dos filmes centrais da nossa cinematografia é também sobre um pugilista: o “Belarmino” de Fernando Lopes. Há algum paralelismo entre esse filme e o “Soco a Soco”?
DVS: O que tem fascinado o cinema no boxe são, normalmente, as histórias de superação. Quando mencionaste o outro filme, o “Belarmino”, o que existe em paralelo entre os dois é precisamente o facto de ambos falarem de uma Lisboa, de uma cidade, que já não existe. No caso de “Belarmino”, tudo é mais cru: fala da miséria em que se vivia, da falta de saídas, de um país mergulhado na ditadura, e igualmente isso reflecte na figura desse pugilista, um retrato derrotista. Mas saliento, o une Belarmino e Orlando, para além do boxe, é que é possível através deles reconhecer uma certa Lisboa inexistente nos dias de hoje.
[Virando para Orlando] talvez queira acrescentar algo?
Orlando Jesus: Sim, sobre o filme posso dizer alguma coisa … o Diogo e eu fomos-nos conhecendo ao longo de todos estes anos. Um dia propôs-me: “A tua vida até hoje, já com 71 anos, dava um filme. Vamos fazer um?” Olhei para ele e disse: “Vamos!” Como sempre confiei no Diogo, aceitei de imediato. Depois foi conduzindo o filme, dizendo-me o que devia fazer, e consegui fazer tudo, na realidade. Conseguimos realizar este filmezinho. Há muito mais histórias para contar, mas este pedaço que fizemos, com muita seriedade e muito trabalho, está aí para as pessoas verem.
Sessenta anos no boxe, não é verdade? Como é que encara o boxe na sua vida?
OJ: O boxe foi a minha vida até hoje e continua a ser. Comecei aos 13 anos, entrei para o Clube Rio de Janeiro, na Rua da Atalaia [Bairro Alto, Lisboa], e nunca mais saí. Fazem, como bem disseste e muito bem, agora 60 anos desde esse início.
O boxe foi tudo para mim. Deu-me tudo: disciplina, educação, formação. Quem me formou? Fui formado no boxe. Deu-me aquilo que não tinha … eram outros tempos: ninguém ensinava nada a ninguém, tudo era escondido, tudo vivido com medo. Fui aprendendo com os mais velhos, dedicando-me cada vez mais. Hoje procuro transmitir aos mais novos aquilo que recebi, sobretudo o que aprendi de positivo. É uma das modalidades que exige mais aperfeiçoamento, mais dedicação e mais disciplina, somos apenas duas pessoas frente a frente, mas por trás existe muito trabalho feito pelos nossos formadores, por um conjunto de pessoas que nos acompanha e nos chama à atenção quando estamos mal. Foi assim que cresci na modalidade e acho que aprendi bem.
Formei muitos rapazes e continuo a formar. Vários campeões passaram por nós. A sorte procura-se, e procura-se com trabalho. A sorte dá muito trabalho, sabes?
Desculpem-me o aparte, mas recordo-me de um mestre, num ginásio de pugilismo, me ter dito que o boxe não é, ao contrário do que muitos pensam, apenas “porrada”. É um desporto de combate limitado aos golpes e ao espaço do recinto, o que faz dele uma luta mais cerebral do que física.
OJ: É um jogo de xadrez. O boxe nasce da cabeça. É para os inteligentes! Quem não for inteligente a jogar boxe não vai longe. A brutalidade entra, sim, mas desaparece rapidamente. O boxe joga-se com a cabeça.
A transferência da mente para as mãos e para as pernas faz dele um baile. É um bailado, um jogo, estamos a jogar, a pintar, a esgrimir com as pernas e com os braços. Tudo parte do cérebro: o movimento das pernas, dos braços, a colocação dos golpes. É técnica, é jogo. Quem entra no boxe de olhos fechados não vai longe.
Está sempre a jogar na antecipação. A ‘gente’ já está a estudar o que vai acontecer “à frente”.

É muito curioso, porque o cinema tem representado os pugilistas na ficção quase sempre como uma ‘coisa’ de brutos feito por brutos sem grande intelecto, e o Orlando diz-me exactamente o oposto.
OJ: O boxe é o oposto de tudo isso. É aquela modalidade em que ou gostas, tens o “bichinho”, aprendes e segues em frente, ou fazes um combate ou dois e dizes: “Já não quero mais nada disto, isto não é para mim.” Não há problema nenhum nisso. Há quem queira praticar, mas não seja do boxe e há quem entre, descubra uma paixão e faça dele uma forma de vida, como aconteceu comigo.
Nunca deixei ninguém para trás. Formei médicos, advogados, contabilistas, deputados da Assembleia [risos]. Forma as pessoas em todos os sentidos. Quem tem disciplina vai longe. Quem não tem, bem, fica pelo caminho.
[Virando-se para Diogo Silva Varela] Através do Orlando, como bem disse, o filme acabou por captar uma certa Lisboa, e nessa cidade também entrou o fado (sabendo que é neto de Celeste Rodrigues e que já fez um filme sobre ela, em 2015). Em algumas intervenções revelou que o Orlando tinha uma tasca chamada “O Truque”, onde ia depois de sair do Johnny Guitar, bar pertencente a Zé Pedro (sobre quem também realizou um filme em 2019). Ou seja, grande parte da sua filmografia preserva uma espécie de constelação, um universo muito próprio, essa Lisboa hoje desaparecida ou em vias de desaparecer.
DVS: O fado está ligado a Lisboa de uma forma que tornava impossível não estar presente. Naquela altura, era fado vezes três. Era impossível falar da noite sem falar do fado e há histórias desse tempo que ainda hoje permanecem. É um retrato daquela época.
OJ: O boxe está ligado a tudo. À noite, ao fado, aos bairros. Era o estilo do antigamente. A vida era muito complicada: havia quem tivesse e quem não tivesse. O mundo foi-se desenvolvendo, Lisboa foi-se transformando. Veio o 25 de Abril … e ainda bem! … e as nossas vidas melhoraram. Mas também há situações que nos deixam admirados por ainda acontecerem 53 anos depois.
DVS: O fado sempre teve uma ligação muito forte ao boxe. O meu tio-avô, irmão da minha avó, foi um grande campeão da época, o Filipe Rebordão …
OJ: O Rebordão fechou o Parque Mayer em 1953 e eu reabri-o em 1975, 22 anos depois! Fui inaugurar o Parque Mayer. Ele encerrou-o com o último combate que lá fez. O Parque Mayer era a catedral das lutas. Vinham caminhonetas de fora, dez, vinte, “carregadas de gente” para assistir às peças, às revistas. Antes de entrar para a revista, ou depois de sair, iam ver o boxe. Estava sempre cheio. O Parque Mayer educou muita gente, fez muita gente feliz. De lá saíram grandes nomes. Era o lugar onde paravam os grandes actores. É o passado das pessoas!

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