O aparelho analógico revela um saudoso ensaio nostálgico, contudo, o feito de saudade, relembrado com agrado, é uma mentira pegada, até porque “Familia Teme Enfrentar Una Nueva Noche De Terror” foca-se no centro da televisão, na mimetização de uma série televisiva de poucos recursos, de uma casa assombrada e de uma família atormentada (o normal …) o já lugar-comum desta tipologia do género de terror. Só que Cristian Ponce não quer somente fazer do filme uma mera lembrança, a estética, como também a referência óbvia ao final dos anos 80, é uma condução ao seu período e daí à importância televisiva nesse igual espaço de tempo.
“Familia Teme Enfrentar Una Nueva Noche De Terror” requer um entendimento da Argentina, palco de um conservadorismo que arranha, alastra-se e auto-protege (trata-se da transição para a democracia, e a vinda da hiper-inflação e de mudança de regime, porém a ditadura sempre à espreita). Obviamente que há mais vicissitudes políticas acima dessa, mas, por enquanto, esse elemento é fulcral para resumir a lógica de uma família que não quer abandonar o seu lar, mesmo que o assombro seja evidência e bem o saibam. Só que o “satanismo” impede-as de avançar, quando a própria consciência, acorrentada a essa conformação, falha. Satanás é o rei, mas não é esse diabrete que estão a pensar. As forças manifestam-se em subtis mensagens em singles metaleiros, são influências à juventude, mas nada de infernal lhes é atribuído. A política, os políticos, as ideologias que não anseiam morrer, viram-se para os novos, a geração em frente, os futuros espectadores do lixo televisivo.
Pois bem, há uma sensação de a televisão ser apenas um instrumento… sensação não, facto (fisicamente, contrai-se até virar uma entidade castrador e repressora). Portanto, o cenicamente pobre, com as costuras à vista de todos, mas cujas personagens aludem a essa própria ilusão, o cenário a trinta paus é a casa onde juram a pés juntos viver há anos a fio. As forças sobrenaturais não são mais do que esse engenho criativo que mexe e remexe os episódios da hipotética série do medo. O patriarca da família refere vizinhos do outro lado do espelho, vão-no trocar! Por quem?

O mais entusiasmante de “Familia Teme Enfrentar Una Nueva Noche De Terror” não é o comentário político, mas a forma como essa propaganda se vira contra ela própria, neste caso citando o pós-moderno, com as personagens, em atitudes beckettianas, a revoltarem-se contra a sua própria ficção, e isto, quase epifanicamente, através de uma outra personagem iluminada, fora do seio familiar, auto-consciencializar-se de estar dentro da sua natureza: são personagens, meras criações de outrem.
O que fazer quando uma personagem apercebe-se de ser uma personagem? Como podem contrariar o seu propósito proto-vivente? Aí, o artifício não é mais artifício, o cenário não é mais do que um cenário, a família arranjada não é mais do que um elenco. O terror não passa de uma manipulação, e a televisão tem culpas no cartório quanto a esse tema.
Um pertinente exercício, não de estilo, mas conceptual de um terror transversal a todas as suas plataformas e ideias.

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