A viver uma fase de transição comercial com a euforia popular em volta da comédia “Minha Melhor Amiga”, vista por 1 milhão de pagantes em cerca de uma semana, o Brasil sofreu com o desalento de suas plateias de Janeiro até o nascer de Setembro, com bilheteiras minguadas e salas vazias. A mudança atual, com o firme desempenho de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli a nos fazer rir evoca saudades de tempos de mais euforia lucrativa… e de tempos de criação radical, com apostas em estéticas de risco. Pensa-se primeiramente em Glauber Rocha (1939-1981) e em Rogério Sganzerla (1946-2004) nessa seara. Há, contudo, o transgressor profissional Júlio Bressane, que segue vivo e ativo, vide sua escalação para a abertura da última Mostra de Tiradentes, em Janeiro, com o curta-metragem “O Fantasma da Ópera”). Esse evento realizado desde a década de 1990 em Minas Gerais acende velas para o Cinema de Invenção, uma vertente histórica do audiovisual sul-americano representado por pérolas do quilate de “O Gerente” (2011), que pode ser visto hoje no YouTube, em sua íntegra.
Lá se vão 15 anos desde a sessão de gala, em Tiradentes, dessa longa-metragem, que foi o canto de cisne do carioca Paulo Cezar Saraceni (1932-2012) – reconhecido entre as inspirações de Bressane. Sem pedir licença à nossa saudade, Saraceni morreu há 14 anos, deixando em seu legado cults como “O Desafio” (1965) e “A Casa Assassinada” (1970), que escreveram seu nome no panteão de excelência de nossa produção cinematográfica. Apesar disso, seu trabalho de despedida limitou-se a passar pela maratona das Gerais e por cinematecas, sem jamais encontrar lar no circuito exibidor.

Em 2023, o Festival de Petrópolis, prestou uma homenagem póstuma ao realizador, exibindo “O Viajante” (1998), “Arraial do Cabo”, de 1959 (curta que foi laureado com o Prêmio Henri Langlois da Cinemateca Francesa), e “Ao Sul do Meu Corpo”, que foi exibido na Berlinale em 1983. Berlim se encantou com essa versão lúdica do conto “Duas Vezes Com Helena”, escrito pelo crítico Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), no livro “Três Mulheres de Três Pppês”.
A iniciativa de prestigiar Saraceni e rever sua obra magistral celebrizou a programação de Petrópolis tal como Tiradentes ampliou seu prestígio cinéfilo ao apresentar “O Gerente” em tela grande. É um seminal exercício de fricção do cinema com a poesia.
Estrela nos gramados nos anos 1950, quando jogava pela escrete juvenil do Fluminense (time apelidado de “tricolor”, pelo uso do verde, do branco e do grená em suas vestes), Saraceni injetou lirismo nas veias do Cinema Novo. Passeou por Cannes em 1969, com “Capitu”, e esteve por lá de novo em 1988 com “Natal da Portela”, na Quinzena de Cineastas. “Só na liberdade é possível fazer um cinema diferente”, dizia o artesão autoral tricolor de coração.
No auge de sua performance futebolística, Saraceni resolveu virar cineasta após ter assistido a uma sessão de “Greed” (“Ouro e Maldição” no Brasil), de Erich von Stroheim. Entre 1962, quando rodou seu primeiro longa (“Porto das Caixas”), e 2011, ano de “O Gerente”, derradeiro trabalho de sua vida, o diretor dedicou-se a filmar produções pautadas pelo lirismo. Uma das mais tocantes é o documentário “Banda de Ipanema — Folia de Albino” (2003). Na Retomada, Saraceni só teve chance de emplacar uma ficção: o já citado “O Viajante”, que lhe rendeu uma menção especial da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) no Festival de Moscou, em 1999.
Recentemente, a loja virtual Amazon incluiu em seu catálogo o livro “Por Dentro do Cinema Novo”, em que Saraceno passa em revista as lembranças da construção da narrativa moderna nos sets deste país. Criou polêmica com seu texto mordaz, mas assegurou à nossa literatura memorialista uma pérola na recriação do Brasil dos anos 1960.

Com recorrência, o nome de Saraceni reabre uma controvérsia histórica em torno da frase “Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça”. Embora seja atribuída a Glauber Rocha (1939-1981), ela teria sido cunhada por Paulo Cezar. Mas o que de fato importava entre eles era a amizade, como ele disse ao Globo, em 2010, num dia de jogo da Copa do Mundo. “A morte do Glauber me dói todo dia. Pouco antes de morrer, em 1980, Glauber foi ao cinema comigo, ver ‘Gigolô Americano’, do Paul Schrader, com Richard Gere. Quando a sessão acabou, ele virou para mim e perguntou: ‘Paulo Cezar, você sabe fazer isso aí? Sabe filmar como os americanos estão filmando?’ E eu: ‘Não.’ Aí ele disse: ‘Então, Paulo Cezar, você está fodido’. Acho que ele estava certo”.
No início dos anos 2000, a distribuidora Versátil prensou em DVD seu magistral épico existencialista “Anchieta, José do Brasil” (1977), que arranca de Ney Latorraca (1944-2024) uma das atuações mais radicais de nosso cinema. Ovacionado em Tiradentes, “O Gerente” tem o já citado Latorraca numa trama baseada em Carlos Drumond de Andrade (1902-1987). O Bardo de Itabira era um dos vetores líricos de Paulo Cezar, assim como o compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974). “O segredo de se filmar o amor é a dignidade”, dizia Saraceni. “Rossellini ensinou o cinema a ser digno”.
Falar do Brasil, por uma vertente cinéfila estética, é clamar Saraceni e seu saber. E sua doçura.

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