A visão romântica trazida na parentalidade, amenizando a mentira das suas nuances, neste caso, “ser pai”, viver na espirituosidade de um “modelo ideal” [“role model”], numa ambição partilhada que, por vezes, acaba destruída pelas partidas do destino. Dario (Riccardo Scamarcio) virou pai de uma criança deficiente, cuja condição determinará toda a sua vida, e esse “fardo” irá pesar na estabilidade do casal e sobre a própria construção de um vínculo afectivo com o filho. Contudo, os seus desejos parentais mantêm-se vivos através do sobrinho, vendo nele o filho que nunca teve, assumindo esse papel de forma prioritária.
“I figli della scimmia” (cujo título remete para uma fábula de Esopo sobre um macaco com duas crias, mas que dá atenção apenas a uma) é um filme com tudo para roçar a manipulação emocional ou o melodrama telenovelesco. Porém, fiquemos pela subtileza e pela discrição, enquanto Tommaso Landucci (depois de sair das suas, literais, cavernas cinematográficas) descreve um drama arranjado no seu realismo, sem histrionismos ou miserabilidade. Há um gesto, há um olhar, uma atitude que, sem o devido foco de um realizador que deseja controlar o olhar do espectador, vão-nos trilhando aquilo que a obra pretende dialogar: essa paternidade amputada, com moralismos tímidos, ou solucionando-se através do conformismo (em jeito de impotência, consolidando-se num estado de utopia derrotista). Ai, vida ingrata, “dando cerejas a quem não consegue separar o carnudo fruto do seu caroço”!
Os actores camuflam-se no quotidiano e no mundano. Riccardo Scamarcio, actor com um pé em Itália e outro em Hollywood, de “Caravaggio” a némesis de “John Wick”, revela-se despido de qualquer gula de galanteador. É um homem comum, corroído pelas circunstâncias da vida e incapaz de respirar dentro dessa ideia romantizada de paternidade. Daí esta produção sorrateira, a recordar o método de cinema social que o francês Stéphane Brizé encaminhava em tempos como discurso ao proletariado e aos novos mecanismos laborais, embora “I figli della scimmia” procure outro conto: uma história contra as normas da família dita funcional e contra a própria romantização da instituição familiar, mas sem a necessidade de alarido no meio.

Deixe um comentário