O consumismo ditou a engrenagem da nossa existência, mas, perante a chamada nova precariedade, cada vez mais acentuada, o materialismo tornou-se, em si mesmo, um privilégio. Para muitos, aqueles que vivem abaixo do zénite, os objectos e as matérias adquiriram um valor sentimental, fruto do infortúnio ou do sacrifício necessário para chegarem às suas mãos. Já não são peças descartáveis, transformaram-se em ricos depósitos de memórias ou no testemunho da nossa perseverança em continuar neste movimento sem fim. Seja a saudade de um tempo evocada pelas paredes de um quarto arrendado; seja o caixote de cartão que guarda fragmentos da nossa alma; seja o automóvel, símbolo da emancipação, que, sobre quatro rodas, nos conduz pelos pontos altos, baixos e até escapistas de uma vida em permanente aceleração.
Dotado de uma forte carga emocional (a mesma que permite descarregar a tristeza dos nossos dias numa viatura prestes a ser descartada), “Carro Ultra Passado” chega-nos na simplicidade do seu tema e na complexidade dos seus significados. Tom (Luke Eberl) vê-se obrigado a vender o seu carro, a baptizou de “Stella”, como próximo passo da sua vida. Porém, a melancolia instala-se: a ideia de perder a viatura que o acompanhou nos mais variados momentos entristece-o.
João Salgado, que anteriormente costurou o fato de mergulho com desconstruções da masculinidade em “Wetsuit” (curta-metragem vencedora da categoria de estudante nos Indie Shorts Awards Cannes), avança agora para uma obra sobre esse acto de emancipação e o valor sentimental de que nos tornamos dependentes, ou o desejo de deambular estrada fora. Numa perspectiva confinada ao interior do carro, a dita “Stella” transforma-se na verdadeira protagonista: uma personagem material, inanimada, mas igualmente humanizada.
O realizador falou com o Cinematograficamente Falando… sobre este projecto, estreia absoluta no Festival Triste Para Sempre (onde acabaria por ser distinguido com uma menção honrosa). Na véspera da sessão inaugural iniciou-se essa conversa sob o signo da brevidade. Um curto diálogo, mas mesmo assim feito de nuances, significados e mais perguntas do que respostas, tal como a curta-metragem. Um carro do passado, ou melhor, ultra passado.
Gostaria de começar, digamos, pelo início … de onde surgiu a ideia para este filme?
A ideia nasce da história de um amigo, mas vamos ao tal início: quando vim para Portugal pela primeira vez (aos 21 anos, sozinho), descobri a cidade [Lisboa] e encontrei aqui qualquer coisa que senti como minha: uma casa, uma língua, uma cultura. Ao mesmo tempo, sentia-me sempre um outsider. Foi nessa altura que descobri o cinema e acabei por voltar a Londres para estudar.
O único amigo que fiz durante os três anos em que vivi lá mudou-se entretanto para Portugal. Viveu seis anos, teve relações, casas, carros, construiu uma vida. A certa altura, com a Covid, perdeu o emprego, a relação terminou e ficou sem casa. Era surfista e o carro representava algo muito importante para ele. Acabou por ter de o vender e estava em minha casa, tristíssimo, mergulhado numa melancolia muito profunda, a dizer ‘coisas’ como: “Dei a minha vida a este país, a esta cidade. Dos 20 aos 26, dei seis anos e tudo o que tenho agora é o meu carro.”

Foi dessa história que nasceu a ideia de escrever sobre um homem prestes a vender o seu veículo, ligando esse gesto a uma melancolia profunda e ao sentido de deslocamento que sempre senti. Na Suíça [onde o realizador nasceu] era o estrangeiro. Aqui sou o imigrante. Estás sempre nesse in-between space, e o carro também é isso: nunca pára, está sempre em movimento, tem paredes que não te deixam ouvir nem tocar o mundo lá fora. Tentei trabalhar muito o som, esse isolamento de quem não percebe uma língua, equivalente a estar em silêncio. Entreguei-me à ideia de usar o carro como um dispositivo do corpo que habitamos.
A personagem do Edgar Morais também carrega essa divisão, a sua vida inteira está dentro de caixas de cartão.
Sim. O Edgar está a receber as coisas do amigo, mas há nele uma melancolia, a sensação de que algo está a mudar. O filme é sobre largar tudo e olhar para os pertences, perguntando: será que isto é quem eu sou? Como é que traduzo a minha vida num carro, numa caixa, numa carta, numa planta?
Antes desta curta tinha feito o “Wetsuit” (2023), e também aí estava esta questão: o que é que vestimos da nossa masculinidade? O que é que nos apresenta de uma determinada forma? O que é que isso está a dizer, ou é apenas uma fachada para performar? Passei essa pergunta para o carro. O carro é esse escudo: quando és miúdo, já vais brincar com carros. Quis pegar nele como esse abrigo de masculinidade, e estes dois homens a falarem de carros estão, na verdade, a falar de uma mudança muito mais profunda, quase uma saudade.
Li o filme também como uma questão sobre o materialismo e a posse. A propriedade tornou-se um privilégio, e damos valor sentimental às coisas exactamente porque as estamos a perder.
É isso! O carro é totalmente o valor sentimental onde o Tom projecta todos estes sentimentos. Mas o que me interessa cavar é o porquê? Porquê é que ele diz à rapariga “fica com o carro” sem conseguir exprimir nada do que sente? Porquê damos valor sentimental a estas coisas? Será que devemos largar esse sentimento de posse? Tinha muitas perguntas enquanto estava a escrever e não tenho a certeza de que o filme consiga responder a todas, mas era daí que vinham.
E a escolha do protagonista, o facto de ele não ser português, também reflecte um pouco esse sentimento de pertença.
Sim, acho que é isso, sem dúvida. Queria que o filme fosse sobre estas pessoas. Nessa altura também tinham começado os protestos do direito à habitação, como é que se chamava? Havia um movimento na Almirante Reis e aconteceu um dos protestos.
Vida Justa.
Sim. Num desses protestos vi alguém a ser verbalmente violento para com pessoas que passavam, claramente não identificáveis como residentes, dizendo-lhes qualquer ‘coisa’ como: “Vai para a tua casa” ou “Isto não é a tua cidade.” Fiquei chocado. É desumanista olhar para uma pessoa e apontar: “Tu não pertences aqui.”
Queria mostrar alguém que, na minha cabeça, pertence a 100% a esta cidade, mas que também está a ser rejeitado por ela. Tal como todos nós, portugueses da nossa geração, que nos vemos obrigados a sair, a ir para o interior, a emigrar. Há muitas pessoas que vieram para Lisboa não por privilégio, mas porque a vida acabou por as trazer para cá, entre culturas. Vivem desta fragmentação cultural: pertencem a um lugar, mas também são de outro. Tendo crescido assim, tenho esse interesse e acho que isso cria uma melancolia permanente. Não tens uma casa onde possas dizer: “Está aqui a minha avó, a minha quinta, o meu jardim.”, e, ao mesmo tempo, estás aqui, contribuis para a cidade, mas sentes-te expulso. Quis humanizar o imigrante.
Há também o arquétipo masculino do carro, a personagem de Tónan Quito pretende comprar o carro do protagonista, como um regressar a tempos passados. Algo nostálgico nessa posse.
Ele encontrou o carro no OLX e foi lá, mas não para comprar. Vai para sentir essa saudade: “quando tinha este carro, era o campeão”. Agora está quase sozinho, a sexualizar um objecto numa conversa desconfortável. Isso interessava-me muito: agarramo-nos a essas conquistas materiais como prova da grandeza que tivemos e, quando o material desaparece, continuamos com o mesmo desejo. É tipo: temos de ser melhores, mais livres de posses. Tenho pena de não ter conseguido dar mais àquela personagem. Hoje olho para o filme e penso que podia ter dado mais espaço àquela conversa, levá-la para um sítio menos literal. É uma das coisas que fica em aberto para mim.

E quanto ao nome do carro, Stella, é uma referência ao Tennessee Williams?
Tem. Chegámos a ter uma cena no filme em que os dois amigos gritavam “Stella!“, mas cortei-a, pareceu-me desnecessária, demasiado óbvia. O nome surgiu de outra forma: na altura em que estava a escrever o filme, estava a tentar comprar o meu primeiro carro e tive interacções muito estranhas, carros sem motor por cinco mil euros, “mas pode pagar mais dois mil e a gente trata disso“. Enquanto procurava, andava no carro de um amigo do meu colega de casa, um Toyota Starlet. De Starlet, Starlet, Starlet... veio Stella. Durante muito tempo, o título do filme foi “Stella ou Homens que Dão Nomes a Carros”.
O que me fez ficar mais em paz com o nome foi que, quando anunciámos a estreia, o dono do carro real, um senhor que vive perto da Ericeira, ligou-me a dizer que ainda lhe chama de Stella, ao fim de treze anos. Já o baptizaram. Queria muito ter trazido o carro para a estreia [Festival Triste para Sempre 2026], mas estava em França.
Para terminar: já contas com duas curtas, haverá uma longa em preparação?
Estou a financiar uma longa-metragem chamada “Sinergia Tropical”, com a produtora Wonder Maria. Ganhámos apoio ao desenvolvimento no ICA e estamos agora à procura de financiamento. Vem do mesmo mundo da primeira curta, do “Wetsuit”, mas com adolescentes. É a história de dois amigos à procura de um terceiro, que desapareceu na costa de Santiago. Acho que tenho qualquer coisa com a partida, com a despedida. Os meus filmes andam todos à volta disso, e normalmente os coming of ages são basicamente sobre a despedida de algo.
Penso que o termo coming of age está a entardecer cada vez mais, deixou de ser algo exclusivo aos adolescentes para jovens adultos.
Sim, é verdade, já começamos a ver coming of ages com personagens de 27 anos.

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