Vestimos a “camisola azul ciano”, preparamos o pacote de lenços de papel para qualquer eventualidade, unimo-nos sob o slogan «Somos Tristes para Sempre!». Porque o Cinema São Jorge receberá lágrimas várias, melancolias para esgotar lotações e tristeza suficiente para fazer “chorar as pedras da calçada”.
Trata-se do Festival Triste Para Sempre: três dias de “filmes tristes”, sem recorrer à desgraça alheia ou à miserabilidade, ao contrário do formato “tear jerker”, antes encostando-se à sensibilidade de cada espectador. São vários os caminhos pelos quais a tristeza se torna cinematográfica: a derrota, a ausência, o “coração partido” ou a família, seio de todas as tragédias do Mundo ali, com consanguinidade.
A sexta edição arranca, com a missão de transformar este quente Verão num espaço e tempo para aquela lágrima há muito guardada. E quem melhor para apresentar o evento do que os seus fundadores? Carolina Serranito e António Simão aceitaram o desafio do Cinematograficamente Falando… e aqui convertidos numa só voz, falam do festival para o mundo e de como este projecto lhes é profundamente pessoal. Coisas da alma, portanto.

Seis edições … com muita tristeza pelo caminho!
Conhecemo-nos através de voluntariado em muitos festivais de cinema. Fomos vendo filmes juntos e discutindo-os quase sempre, concordando muito poucas vezes, mas, no meio de todas essas diferenças, percebemos que havia um território onde acabávamos sempre por nos encontrar: os “filmes tristes”. Foi aí que tudo começou.
Durante algum tempo, a ideia de fazer um festival ficou apenas a pairar. Existia, mas ainda não tinha forma, até que, numa certa chamada telefónica, de conteúdo emocionalmente dramático, percebemos que aquilo fazia sentido. “Somos Tristes Para Sempre” deixou de ser apenas uma frase e passou a ser um nome, e, pouco depois, um festival.
Começámos em 2019, sem imaginarmos o que estava prestes a acontecer ao mundo. Um ano depois chegava a pandemia e, como aconteceu a tantos outros projectos, também nós tivemos de decidir o que queríamos fazer. Em 2021 percebemos que havia duas opções: ou levávamos este festival verdadeiramente a sério, ou desmontávamo-lo enquanto ainda era simples. Escolhemos a primeira, e desde então, fomos afinando a programação, tornando-a mais coesa, mais pensada e consciente da conversa que queríamos criar entre os filmes e do tema a desenvolver em cada edição.
O Cinema São Jorge esteve sempre no horizonte. Nunca como um sonho distante, mas como um objectivo que sabíamos que exigia outra responsabilidade. Percebemos que, para lá chegar, também nós tínhamos de nos tornar uma instituição. Portanto, criámos uma associação. Aprendemos a fazer orçamentos, a assinar contratos, a lidar com tudo aquilo que ninguém imagina quando pensa num festival de cinema [risos].
Se soubéssemos, desde o início, tudo o que era preciso fazer, provavelmente nem teríamos começado [risos]. Felizmente não sabíamos e talvez tenha sido precisamente isso que nos trouxe até aqui. Chegamos à sexta edição, no São Jorge, com a sensação de que o compromisso que assumimos connosco próprios foi cumprido.

A tristeza não é uma brincadeira …
Há uma pergunta que nos fazem vezes sem conta: como é que um festival dedicado à tristeza consegue não ser deprimente? A resposta está na forma como o fazemos. Na maneira como pensamos a programação e como aborda-la. Tentamos que a comunicação seja leve, a ideia de um convite, para aproximar as pessoas de um lugar para onde, à partida, ninguém quer olhar. Nunca quisemos transformar a tristeza numa piada, nunca foi esse o objectivo. O que nos interessa é perceber o que existe de belo, de profundamente humano e de fascinante numa emoção que todos conhecemos e que, tantas vezes, preferimos evitar.
Também nunca começamos uma edição por categorias ou secções fechadas. Começamos pelos filmes. Vemo-los, deixamo-nos afectar por eles e tentamos perceber que conversa estão a ter entre si. Procuramos os pontos de contacto, as emoções que partilham, os caminhos que se cruzam. Só depois surge um tema agregador que dá identidade à edição.
Este ano encontrámo-lo nas tradições portuguesas, no artesanato e na preservação. A partir daí, as sessões vão-se desenhando quase naturalmente. Porque a tristeza nunca é uma coisa só. Pode manifestar-se no luto, na perda, na ausência, na memória, ou até na nossa transformação. O nosso trabalho é continuar a perguntar: afinal, de que é que estes filmes estão realmente a falar? E encontrar o fio invisível que os une.
É esse desafio que nos move. Desafiarmo-nos a nós próprios fazer parte da identidade do festival. Não queremos repetir fórmulas nem regressar sempre aos mesmos lugares. Queremos, sim, descobrir novos olhares, novos autores e novos filmes. Queremos continuar a surpreender-nos.

Quarenta duas lágrimas!!
Nesta sexta edição reunimos 39 curtas-metragens, organizadas em sessões temáticas, e três longas-metragens em competição nacional. É uma programação profundamente portuguesa, não apenas pela presença de cinema nacional, mas pelo olhar, pelas referências e pelas questões que escolhemos explorar. Ao mesmo tempo, continuamos a abrir espaço a filmes internacionais que dialogam naturalmente com esse universo. Este ano, de forma quase inesperada, acolhemos também três estreias mundiais.
As sessões desta edição organizam-se em torno de quatro grandes eixos: “Terra Devastada”, “Para Onde Foi a Mãe?”, “O Corpo Estranho” e “Corações Partidos”. São quatro formas de olhar para a tristeza e para as suas muitas manifestações. Entre elas, a maternidade acaba por ocupar um lugar particularmente forte, mas nunca como uma ideia única ou fechada. Encontramos a mãe que não deseja ser mãe, a filha que cresce sem mãe, a mãe ausente, e, à volta dessas histórias, surgem também famílias marcadas pela migração, corpos que procuram reconhecer-se e territórios que se transformam ou desaparecem.
Na competição nacional de longas-metragens apresentamos “Somos Dois Abismos”, de Kopal Joshy, “Deuses de Pedra”, de Iván Castiñeras Gallego, e “Terra Vil”, de Luís Campos, três filmes muito diferentes entre si, só que unidos por um olhar atento sobre a ruralidade, os papéis tradicionais de género e as várias formas de isolamento que continuam a marcar o nosso tempo. A abertura do festival será também um momento de encontro entre o cinema e a música, com uma actuação do Grupo Coral Os Rama Verde, é uma colaboração que começou ainda antes desta edição, no spot promocional do festival.

Cianotipia, bordado madeirense e merchandising artesanal, o Triste para Sempre fora das telas!
Este ano quisemos que o tema das tradições portuguesas, do artesanato e da preservação não estivesse apenas nos filmes, e que atravessasse toda a identidade do festival, da imagem às actividades que acontecem para lá da sala de cinema. O cartaz desta edição foi desenvolvido manualmente, recorrendo à aguarela e à cianotipia (uma técnica de impressão fotográfica que surgiu praticamente ao mesmo tempo que a fotografia, no século XIX, que ao invés gelatina de prata, utiliza um pigmento que reage à luz deixando uma impressão azul), numa colaboração com o estúdio Sud Sud.
Porque acreditamos que um festival também pode ser um lugar de aprendizagem e de encontro, organizamos igualmente um workshop de cianotipia, onde será possível experimentar esta técnica, perceber o seu processo e criar as próprias impressões, num ambiente pensado para a descoberta e para a partilha. No dia 11 de Julho convidamos ainda o público para uma Oficina de Bordado Madeirense, em formato de piquenique, no Jardim da Estrela. Chamámos-lhe “Borda o teu Lenço de Despedida” porque nos interessava resgatar o lenço enquanto objecto arquetípico da saudade e do adeus, redescoberto aqui como acto terapêutico e ritualístico. A oficina será orientada por David Oliveira, da Bailha.
Até o merchandising desta edição segue essa mesma lógica. As tote bags, t-shirts, lenços, brincos, pins e stickers foram pensados para prolongar o universo do festival para lá destes dias, sempre com uma forte inspiração artesanal e em diálogo com a identidade visual e a curadoria que construímos para esta edição.

Nesta nova “casa” … uma choradeira!
O festival acontece na base do voluntariado e de “amor à camisola”. É assim desde o início! O Triste Para Sempre existe porque há pessoas que acreditam nele, que lhe dão tempo, energia e dedicação muito para lá daquilo que seria razoável pedir. Mas chegar ao Cinema São Jorge significou entrar noutra dimensão. O Forum Lisboa, onde decorreu em edições anteriores, oferecia toda a flexibilidade: sem contratos de percentagem de bilheteira, sem imposições institucionais. O São Jorge é outra coisa … uma sala maior, uma organização mais exigente em todos os sentidos.
Sabíamos que, se queríamos chegar aqui, também nós tínhamos de crescer. Não bastava a boa vontade, tínhamos que aprender a fazer funcionar um festival com o profissionalismo que uma sala como a do São Jorge exige. Criar uma estrutura sólida, assumir responsabilidades, responder a novas exigências e mostrar que este projecto podia estar à altura do lugar onde sempre sonhámos apresentá-lo. É precisamente por isso que esta sexta edição tem um significado especial para nós. Não representa apenas uma mudança de sala; representa a maturidade de um projecto que foi encontrando o seu caminho sem nunca perder aquilo que o fez nascer.
Toda a programação poderá ser consultada aqui


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