A pergunta permanece como sinal, ora do crítico, ora do colaboracionismo. A estratégia apolítica, proclamada por Wim Wenders, num passo em falso, naquele infame conferência do Festival de Berlim, é o encosto ao último ponto. Enfim, Hollywood, refém do poder estabelecido, de Trump e do trumpismo, e de todos os algoritmos envoltos nesse regime, eventualmente da tecnocracia enquanto instalação, poderá ainda reservar lugar, nos tempos que correm, para um realizador de velha guarda e de sonhos cinéfilos preservados no coração de muitos?

Ao ver “Disclosure Day”, apontado por alguns como sequela espiritual de “Encounter of Third Kind” (1977), encontramos um exemplo dessa inaptidão, de raciocínio ou de reacção, de Spielberg perante as façanhas e acelerações do mundo pós-moderno que aqui evidenciamos. Nele, centra-se a história de extraterrestres infiltrados nas nossas comunidades, cuja existência parece permanecer segredo de Estado. Contudo, por meio de perseguições e intrigas emprestadas à fórmula da espionagem, Steven Spielberg tenta desenhar um mundo de semióticas contemporâneas, onde a civilização se encontra em plena crise, com factores tão reconhecíveis como a guerra permanente (não interessa qual!) ou a destruição ambiental (ambientalismo segredado na sua denominação, não vá os “conservadores” pirarem). Este cenário, pontuado pela urgência da trama, conduz-nos ao passo seguinte: como resolvê-lo? O Cinema nunca foi propício a dar respostas; é melhor “perguntador” do que decretador de soluções, no entanto, Hollywood adora posicionar-se numa espécie de cinema industrial propagandista, e Spielberg responde aos estímulos porque, por dentro desse mundo em cacos, manifesta as resoluções tidas por acertadas.

Perante isto, a solução encontrada é o abraço de uma nova religião, um culto quase envolvido na figura de Emily Blunt (a “mensageira”, a profeta ou o velcro dos caminhos divinos), num momento em que a sua personagem, uma aspirante a pivô “abalroada” pelo desígnio, pela premonição, é confrontada com a sua missão na Terra e com a devoção demonstrada pelos seus “seguidores”, nega qualquer adoração da sua parte. Ainda assim, o filme entra nos seus versículos e desemboca num final completamente incoerente para com os tempos correntes, onde os “media tradicionais” trazem a revelação, a nossa anagnórise por via de imagens de ficheiros secretos sobre a existência de formas de vida sapientes vindas de outras galáxias, desvendadas diante dos nossos olhos, bem transmitido pela estupefacção de uma das âncoras (Courtney Grace), pontuando os momentos pela sua expressividade.

Este registo não é inédito em Hollywood: M. Night Shyamalan já o tentara com “Glass” (2019), cujo final, através da revelação em telejornais e da subsequente viralidade online da existência de seres sobre-humanos, suscitava uma ambiguidade capaz de expor alguma ingenuidade perante a proliferação das fake news. Naquele tempo, porém, a manipulação da imagem requeria outras ferramentas e outros ritmos; em “Disclosure Day”, tudo isto ressoa na ascensão da AI, conduzindo-nos a dilemas constantes sobre o valor das imagens e a sua credibilidade.

Quanto aos extraterrestres, a religião ali formada e içada sobre os pilares de uma nova Igreja (cheira a Cientologia, culto de natureza hollywoodesco), “Encounter of Third Kind” movimentava tais deslumbres através de uma plateia improvisada, mas havia, acima de tudo, esse deslumbramento, o encanto pela novidade. No novo take de “Disclosure Day”, para além da procura de encantar no desencanto, há a lição, a reprimenda dos aliens a uma Humanidade mal-comportada, a mensagem da nossa prosperidade numa língua ainda oculta destes seres cinzentos. “The Day the Earth Stood Still” (Robert Wise, 1951) já apresentava um discurso semelhante, logrado como manifesto politizado, onde a Paz era alcançável por via da ameaça; nessa altura, num pós-Segunda Guerra (onde criou-se a ideia do uso da força maior, quase aliada, para inversão das eventuais adversidades), solicitava-se uma espécie de autoridade imparcial no conflito entre blocos.

Spielberg deixa no ar a natureza da sua mensagem, num cliffhanger para o espectador interpretar conforme a sua sensibilidade e perspectiva. “Listen”, dirige-nos Emily Blunt antes de ser interrompida pelos créditos finais. As luzes da sala acendem-se, todos saem, seguem corredor fora a comentar a experiência de mais de duas horas. “Gostaram?”, a inquisição começou, mas será que alguém fará as perguntas certas? “Havia necessidade de o realizador ‘querido’ de gerações aprontar mais uma história de UFOs e extraterrestres para dela extrair absolutamente nada?”, ou melhor: “Estará Spielberg obsoleto, ou imóvel, em tempos dominados por Trump e seus apêndices?”.

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