Em “Little Trouble Girls”, nos ensaios de um coro feminino, adolescentes que se descobrem no decorrer desses mesmos treinos, temos Lucia, menina vinda de famílias reprimidas (e opressivas) que num ambiente adverso à novidade que é a de um convento, depara-se com a sua liberdade, o desejo sexual, o libido captado através dos corpos dos trolhas na obra ao lado ou das picardias da sua amiga. Provocações que a encostam-na à parede, contra a sua natureza, familiar e até a uma sucinta devoção pelo divino, e por esse caminho, a castidade, a repreensão como solução. É um coming of age sem dúvida, mas mais que isso é a exploração de uma transformação, externa e interna, desta jovem “menina  de coro”.

Dirigido por Urška Djukić (já detentora de outras vidas íntimas e sexuais, em forma de animação – “Granny’s Sexual Life”), “Little Trouble Girls” funciona no seu propósito, não apenas pela sensibilidade trazida pela sua autora, como também pela sua protagonista, a nossa Lucia, Jara Sofija Ostan, em estreia absoluta.

O Cinematograficamente Falando … falou com a jovem sobre o desafiante papel com abertura para abordar o seu futuro enquanto actriz de método naturalista, uma promessa eslovena com muito “valor sentimental”. 

Esta é a tua primeira longa-metragem enquanto protagonista. Tinhas feito alguma coisa antes deste filme?

Fiz aulas de teatro e ainda faço parte de um grupo de teatro amador, onde representei Shakespeare, mas esta foi a primeira vez que representei para uma câmara (diria que é um ofício completamente diferente). Foi uma experiência nova para mim em todos os sentidos.

E como descreverias essa experiência, estar nesse ambiente pela primeira vez?

Foi uma experiência que me mudou a vida. Passei de não saber nada sobre cinema (como funciona um plateau, uma rodagem, ou o que significa representar para a câmara, algo muito diferente daquilo que fazia no teatro) para, ao longo de um processo também ele muito longo, perceber que era algo de que gostava verdadeiramente e onde me via para o resto da vida.

Fazer filmes, integrar esta indústria, tornou-se a minha paixão, e fiquei particularmente feliz durante a rodagem, quando comecei a perceber as suas dinâmicas, a forma como tudo se articula… foi aí que pensei: “isto é mesmo muito bom, gosto mesmo disto!”.

Foi desafiante, mas mudou-me como pessoa. Cresci, tanto a nível pessoal como artístico, ao fazer este filme.

E depois deste filme? Tenho conhecimento que fizeste uma curta-metragem entretanto [“Nekaj rdecega”].

Sim, fiz algumas coisas diferentes. O primeiro projecto depois deste filme foi uma curta-metragem realizada com amigos meus que precisavam de um filme para se candidatarem a diferentes universidades. Um deles perguntou-me se queria participar, mostrou-me o argumento e aceitei… Garanto que foi uma experiência muito divertida.

Depois fiz outro projecto, produzido pela Elephant Film, uma produtora que funciona sem financiamento estatal e angaria os seus próprios recursos. Participei também em duas longas-metragens eslovenas, embora com papéis muito pequenos. Fiz mais trabalhos depois deste filme, mas nenhum com a mesma dimensão: não eram papéis principais, nem processos tão longos.

Vamos então falar de “Little Trouble Girls”. Li uma entrevista da realizadora em que ela disse ter feito casting a mais de 60 raparigas até te encontrar e dizer: é esta a nossa protagonista. Queria a tua versão de como chegaste a este projecto?

Estávamos numa viagem de carro para a Holanda com a minha família quando a minha mãe me enviou um anúncio do Facebook sobre um casting para um filme. Era algo completamente aleatório; não sabíamos do que se tratava e acho que nem sequer conhecíamos a realizadora, mas ela sabia que queria muito fazer cinema e sugeriu que tentasse.

Para a primeira fase tínhamos de gravar um pequeno vídeo de apresentação (dizer o nome, a idade e falar um pouco sobre os nossos interesses). Filmei-o numa pequena cidade alemã, Tübingen, no Airbnb onde estávamos hospedados, e enviei-o. Cerca de um mês ( ou talvez três semanas, já não tenho a certeza) depois, recebi uma chamada da equipa de casting a convidar-me para a primeira ronda de audições. Foi muito bom. Éramos dez ou doze raparigas e fizemos uma audição muito aberta, baseada em improvisações, sempre em grupos diferentes. A Urška chamava, por exemplo, duas raparigas, dava-lhes uma ou duas situações e deixava-nos improvisar. A primeira ronda foi só isso.

Depois veio a segunda, já com menos participantes. Passámos lá praticamente um dia inteiro, enquanto as raparigas se iam revezando. Lembro-me de pensar: “se calhar isto significa alguma coisa… talvez tenha o papel”. Nunca mo disseram directamente, mas a Urška começou a fazer-me perguntas como: “Tens mesmo a certeza de que queres fazer isto?”. E foi assim… acabei por entrar no filme.

Como afirmaste esta experiência mudou-te a vida, mas devemos salientar que para estreia é um filme particularmente sensível — muita intimidade, sexualidade. Só uma questão breve antes de avançar … tiveram coordenador de intimidade na rodagem?

Não tivemos. Na altura, penso que essa função ainda não existia na Eslovénia. Hoje já há uma coordenadora de intimidade a trabalhar no país… não tenho a certeza, mas julgo que é húngara, embora também trabalhe na Eslovénia. É uma área que só começou a desenvolver-se mais recentemente. Mas, na altura em que filmámos, não havia ninguém a desempenhar essa função.

Então como foi esse processo de trabalho em temáticas tão sensíveis?

Falámos muito sobre o assunto, sobretudo sobre a forma de criar um espaço onde todos se sentissem confortáveis e sobre a melhor maneira de comunicar. Não ensaiámos especificamente essas cenas, mas mantínhamos sempre o plateau fechado.

Na cena da casa de banho [masturbação], por exemplo, montavam a câmara e depois toda a gente saía; eu ficava sozinha. Na altura pensei: “bom, mas toda a gente vai ver isto de qualquer forma. Não sei bem o que é que isso muda” [risos]. Ainda assim, percebo que esse procedimento ajudava a criar um ambiente mais confortável. Talvez não me sentisse da mesma forma se houvesse muita gente ali, a olhar ou a ouvir. O plateau estava sempre fechado e perguntavam-me constantemente: “Estás bem?”. Havia uma comunicação permanente.

Este filme pode ser visto, de uma forma metafórica, como um retrato da nossa sociedade actual: a tua personagem vive o dilema entre a abertura sexual e a repressão, como a mãe ou como a freira como tutoras desse último ponto. Há aqui qualquer ‘coisa’ representativa ao mundo hoje polarizado, principalmente em relação à sexualidade.

Sem dúvida. Acho que foi um filme especial, sobretudo por abordar o prazer feminino, a sexualidade e o despertar sexual, temas de que ainda se fala muito pouco. No caso dos homens, por exemplo, até o prazer solitário é encarado como algo perfeitamente normal. Já para uma mulher, falar de prazer ainda vem com vergonha e culpa, muito por causa da forma como isso foi visto durante décadas. Mesmo agora, apesar de se estar a tornar mais normalizado, continua a não se falar o suficiente sobre o assunto. É daí que nasce essa vergonha interiorizada: nem sequer sabes bem porque a sentes, quando, na verdade, se trata de algo perfeitamente natural.

Para mim, foi uma história muito importante. Muitas mulheres, sobretudo na casa dos quarenta, cinquenta ou sessenta anos (que talvez não tenham tido essa abertura quando eram jovens), vieram dizer-me que o filme curou qualquer coisa nelas. Nunca lhes tinham apresentado este tema daquela forma. Conseguiam ver-se na Lúcia, uma rapariga de quem se esperava que fosse educada, simpática, calada e obediente, sempre à altura das expectativas da regente do coro, da mãe e da família.

Por isso, acho importante falar sobre isto. É uma experiência que todos atravessam, cada um à sua maneira. Fiquei muito feliz por as pessoas terem percebido essa dimensão do filme e por se terem revisto na história.

Pode parecer uma pergunta tola [risos], mas vou fazê-la na mesma: o facto de este filme ser realizado por uma mulher deu-te mais espaço para trabalhar esta personagem? Se fosse um homem a realizar, o resultado (e até a tua interpretação) teria sido diferente?

Sem dúvida. Penso que, por vezes, quando vemos um filme sobre o despertar sexual de uma rapariga e depois descobrimos que foi realizado por um homem mais velho, isso pode causar alguma estranheza. Nem sempre acontece, claro, mas há casos em que surge essa sensação, porque se está a contar uma experiência que talvez não tenha sido vivida na primeira pessoa, ou a construir uma realidade que pode não corresponder à experiência de quem a vive. Claro que toda a gente tem liberdade para contar as histórias que quiser, e isso também faz parte do Cinema. Mas, para mim, foi muito importante trabalhar com a Urška. Era a história dela, um filme verdadeiramente pensado a partir de uma perspectiva feminina e, por isso, fazia sentido haver uma mulher a liderar todo o processo.

Provavelmente, ela também estava a partir muito da sua própria experiência, da forma como cresceu, das sensações e emoções que viveu. Acho que é precisamente isso que torna a história tão vivida e tão genuína.

E foi te dado espaço para improvisar, ou era tudo muito marcado?

Tivemos muito espaço, sim. Mesmo quando a Urška queria manter as falas tal como estavam escritas, por vezes dizia, no final: “Agora vamos experimentar. Façam o que quiserem, digam o que sentem.” Fazia isso de vez em quando e, durante os ensaios, improvisávamos constantemente. Dava-nos a cena, o contexto e as diferentes emoções em jogo, e dizia: “Agora tentem. Digam o que sentirem, vamos simplesmente fazer.” Em alguns casos, o texto final acabava mesmo por nascer dessas improvisações. Talvez seja por isso que tudo parece tão natural, tão verdadeiro. Nunca foi forçado.

Para fechar: novos projectos, e gostaria que me falasses também dos teus desejos neste início de carreira, como, por exemplo, se queres explorar a comédia ou um outro registo? E já agora, se existe algum realizador corrente com quem gostarias de trabalhar?

Para ser sincera, gostava de continuar a fazer este tipo de cinema. Não necessariamente pelos temas, mas pelo método, pelo estilo, pela forma de trabalhar e de representar, pela verdade e naturalidade que sinto quando vejo o resultado final. É isso que gostaria de preservar. Não sou particularmente apaixonada por comédias românticas, embora talvez um dia experimente. Neste momento, é difícil imaginar-me a fazer esse tipo de projecto.

Já participei em trabalhos muito diferentes entre si e, para mim, o mais importante é gostar do argumento e dar-me bem com o realizador. A relação entre actor e realizador é muito sensível, frágil e especial; exige confiança de parte a parte. É isso que procuro agora: identificar-me com o argumento e entender-me com quem realiza… De resto, sinto-me muito livre para o que vier. Estou sempre aberta a conversar com as pessoas. Adoro quando me enviam mensagens ou argumentos para ler.

Quanto aos realizadores com quem adoraria trabalhar… diria o Joachim Trier. Sempre gostei muito do trabalho dele, especialmente depois de “Sentimental Value”, e é provavelmente o primeiro nome que me surge quando penso em realizadores europeus. Mas há muitos outros que adoraria conhecer e com quem gostaria de partilhar essa experiência.

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