Não avançaremos nas géneses que entrelaçam os sonhos de Francis Ford Coppola na condução da sua ambição “megalopolitana”, “Megalopolis”, esse filme, produção-desavença que caiu que nem um estrondo entre nós: para uns, objecto inclassificável; para outros, produto de vaidade; e outros ainda, um filme acima do seu tempo (ou fora dele, conforme o quadrante em que se inserem). Mas, dentro dessas opiniões diversas, algo talvez consensualizado em tudo isto é o facto de ser fruto de uma inabalável determinação, vaidade dirão alguns, idealização dirão aqueles, o romantismo vivo do cinema enquanto fábrica dos sonhos mais febris e deslocados. Para isso, Coppola teve de se livrar de parte do seu património, auto-financiar o seu quixotesco projecto contra tudo e contra todos, o veterano novamente em acção, marcando-se na teimosia de capturar um processo há muito dado por vencido.

Para tal, pediu a Mike Figgis (“Leaving Las Vegas”, “Hotel”) para registar todo esse processo, daí que este, aceitando o desafio, antecipasse uma rodagem complicada, adversa e, quem sabe, conflituosa, como a comunicação social não tardou em pintar, isto a contragosto de Adam Driver, o protagonista, que responde: “Já estive em muitas rodagens complicadas e esta não é uma delas.

Megadoc”, making of, documento de uma filmagem de um mastodonte, de uma visão resistente a todos os elementos exteriores (e interiores), é um filme de Figgis, obviamente, que tenta desprender-se desse formato de apêndice; é um projecto à parte e igualmente associado, uma perspectiva sobre o sopro obstinado de um velho da indústria, abandonado, só que não derrotado, e igualmente uma tentativa (talvez esperada, tendo em conta o historial de Coppola em “filmes complicados”) de se encostar espiritualmente a um outro documentário do universo do realizador, “Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse” (Eleanor Coppola, George Hickenlooper, Fax Bahr, 1991), sobre o making do “Apocalypse Now” (1979). 

Esse ponto de curiosidade prende-se nessa resiliência, do homem que ainda se vê num mundo passado, que trata a sua equipa como parte dessa indústria imaginada, mas a “traição” acontece, como César apunhalado vinte e três vezes – “Et tu, Brute?” -, Coppola é desprezado pelo meio, decidido a não corroborar com as suas fantasias; pelos actores, muitos deles renegados do próprio sistema, afrontando-o com as suas próprias visões, entre eles, notoriamente, Shia LaBeouf (“o actor mais difícil com quem trabalhei”, sugere Coppola); até às ditas “divergências artísticas” que geram despedimentos ou mais algumas adversidades para a ‘caderneta’. A juntar a isso, Mike Figgis não sai impune, como muitas vezes reclama – tornando o documento não apenas na rodagem de “Megalopolis”, como também o processo do seu documentário, a inviabilidade das estrelas principais – , mesmo que Adam Driver ceda um one-to-one para enriquecer a metragem.

Portanto, se esperam um making of daqueles encomendados para extra de DVD (que saudades!), sairão defraudados (ou talvez não!); o que têm à mercê é um testemunho da criação de um dos filmes do século XXI (o exagero é da minha parte, take it) e, no seu núcleo, a jornada heroica e hercúlea de uma lenda no seu pós-lenda, Francis Ford Coppola, o realizador celebrado em tempos, esquecido na sua contemporaneidade, no choque de entender que a sua querida Hollywood já não corresponde à sua visão. O projecto de anos e anos é o teste definitivo para contemplar essas agrestes transformações.

Mike Figgis estabelece esse ponto, e bem, já que ele próprio nunca se encaixou nessa ideia de indústria cinematográfica estagnada e vergada à convencionalidade.

Disponível no catálogo FILMIN Portugal, aqui

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