Em changana (tsonga), “ku handza” descreve o gesto de uma galinha a ciscar o chão em busca de alimento, o que se traduz no quotidiano moçambicano numa imagem de sobrevivência. Já o filme que se apropria de tal termo como seu título, “Ku Handza” procura em Maputo e nos seus arredores, esse movimento contínuo, seja procurar, negociar ou resistir … sobreviver, é o que mais alude. Três histórias / vidas, essas que André Guiomar regista não como parte de uma tese, mas na captação de verdadeiros super-heróis sociais. São humanos acima das suas possibilidades, tentando com isso, sem ceder à miserabilidade, dignificar-se em gestos aparentemente pequenos, mas de árdua força. Benjamin, Eulália e Filimone, não estão nas covers da banda desenhada, nem usam capa, mas as suas vidas revelam esses actos heróicos e quase ‘sobre-humanos’, se confrontarmos com o conformismo ocidental.

Ku Handza”, documentário nascido de quinze anos de regressos entre Portugal e Maputo, observa estas vidas sem urgência nem exotismo, procurando antes o ritmo interno de quem habita as margens das decisões económicas, políticas e militares.

O filme estreou esta semana nos cinemas portugueses e, para o Cinematograficamente Falando …, o realizador fala-nos desse longo processo de aproximação, das fronteiras entre presença e representação e da responsabilidade de filmar um país que, antes de ser cenário, teve primeiro de o deixar entrar.

Já te conhecemos pelo premiado trabalho no bairro do Aleixo, Porto (“A Nossa Terra, O Nosso Altar”), agora o seguimos para Maputo. Do Aleixo para Moçambique, pergunto se a abordagem manteve-se ou houve alterações no processo?

A nível artístico manteve-se, não deixa de ser um ‘filme-puzzle’, feito por peças, onde três histórias principais nos dão um olhar caleidoscópico sobre um território. Nesse formato é a mesma abordagem. A grande diferença é que no Aleixo tive sete anos para filmar, sem orçamento, o que me dava muita liberdade para ir quando me apetecia e ficar o tempo que me apetecia. Aqui é uma produção cinematográfica com limites temporais (uma média de uma semana por personagem), e isso muda a forma como construímos as narrativas. Tive de ser mais imediato, perceber na vida de cada um o que ia acontecer naquela semana para poder acompanhar e construir uma história em conjunto.

E como encontraste estas histórias específicas?

Há quinze anos mudei para Moçambique, vivi três anos e pouco seguidos, e nos últimos dez tenho ido dois ou três meses por ano. Nesses primeiros anos conheci quase todas estas histórias. Durante os fins de semana andava na rua a fotografar e a entrevistar pessoas para conhecer histórias para futuros documentários. Desses anos resultaram quatro filmes, dois estão agora a terminar a pós-produção. O “Pele de Luz”, uma curta de 2018, foi o primeiro resultado dessas histórias encontradas na rua. O “Ku Handza” é uma reunião de três’ que senti que se tocavam tematicamente, modos de vida similares sobre a mesma forma de sobrevivência e de esgravatar-se no dia-a-dia, embora cada uma com os seus sub-temas específicos.

O Benjamim tenta organizar um aniversário para o filho com quem tem uma distância emocional, tenta com isso conquistá-lo emocionalmente com essa mesma festa. Mas as oscilações cambiais naquela fronteira são estratosféricas e isso determina se ele consegue ou não ter margem para uma coisa tão simples como uma festa de aniversário. É uma fronteira chocante no sentido territorial: num país seco, sem agricultura, com muita miséria, e no metro a seguir, ao entrar na África do Sul, são laranjais, verdes, com industrialização enorme. Não é só um problema territorial, é também um problema de soberania e de formas de fazer as coisas.

André Guiomar

O mundo de Eulália tem muito daquilo que nós enquanto sociedade decidimos o que é lixo, e que para outros é apenas o básico da sua sobrevivência, enfrentado com muita dignidade como oportunidade de negócio. Enquanto isso, alimenta seis bocas. Existe nessa história esse lado cuidador de que nunca abandona, nem em casa nem na lixeira, onde alimenta toda a gente que ali trabalha. A Eulália tinha acabado de dar à luz uma prematura de seis meses e meio, e a vontade dela era voltar ao trabalho e enfrentar o dia-a-dia com a cabeça no ar. Estas histórias têm muita dignidade na forma como são filmadas, apesar de, ou talvez através da, dureza das circunstâncias.

São sempre inspirações. Aprendo muito no meu dia-a-dia pensando em como estas pessoas arranjam mecanismos para combater o quotidiano. Muitas vezes estou com problemas e penso na Eulália: se ela enfrenta o que enfrenta todos os dias, quem sou eu para achar que este problema é assim tão grave? Aprendes a relativizar. Acho que as histórias têm sempre que ter este lado de inspiração, se não aprender com elas, se não achar que são heróis de alguma maneira, perco o interesse. O mesmo com o Benjamim e o Filimone: sendo homens educados mais do lado do provedor do que do lado emocional, aprendo com isso também, agora que sou pai, a tentar não cometer alguns desses erros no desligamento emocional.

E como foi a recepção deles? Chegaste ao pé deles e disseste que querias fazer um filme sobre as suas vidas e pronto … “toca a filmar”?

Já os conheço há muitos anos. O Filimone e o Vicente (o irmão mais velho, que é o director de arte dos meus filmes) conheci-os na rua. O Benjamim é a pessoa com quem sempre trocámos dinheiro na fronteira ao longo de anos. Havia relações de há muito tempo e sempre tinha lhes dito que um dia iria filmar as suas histórias. Essa criação em conjunto é essencial, o de não impor nada; a vida é deles, a roupa é deles, a casa é deles. Apresento a ideia e debatemos para que eles sintam que é a vida deles representada, é uma forma de dar voz a invisíveis: alguém que não sente que tem nada para mostrar e de repente vê um filme e sente-se quase como um super-herói (é fazê-los acreditar que têm algo para contar).

Do ponto de vista técnico, a equipa foi reduzida ao máximo (uma questão de espaço, de empatia, de amizade). É impossível que esqueçam que ali está um tripé, uma câmara e um microfone, isso é óbvio, mas pode haver uma habituação a esse equipamento, a essa forma de trabalhar e aos seus símbolos. Eles vão aprendendo como gosto que se movam, como falam, que improvisam, e cabe-me depois manipular esse material através da montagem para contar a história. O objectivo é sempre humanizar ao máximo, com o lado de crítica social, política, económica como fundo, só que nunca como propósito primeiro.

O filme foi rodado em 2023, antes dos tumultos de Moçambique [2024]. Mas a “personagem” do Filimone já menciona Cabo Delgado. Como vês o que está a acontecer ali?

Rodei outros projectos em Moçambique no ano passado, um dos quais tem a ver directamente com a guerra (as tropas especiais a ser preparadas para serem enviadas para o Norte), não fala directamente dos tumultos de 2024, e sim dessa antecipação, sempre com o lado de humanizar essas tropas: quem está a ser enviado para lá não são números, são pessoas com famílias, com dúvidas, com hesitações, com forças e fraquezas diferentes. É o que me interessa, não o momento da guerra em si, mas o antes e o depois, e o que implica nas famílias e nas vidas pessoais. 

Cabo Delgado está muito militarizado, com forças externas a auxiliar. Contudo, é uma guerra muito estranha, meio em segredo, meio escondida, tanto para fora como para dentro. A informação não passa, não se percebe o que acontece nem quais são as motivações reais. As explicações oficiais têm muito a ver com influências religiosas vindas da Tanzânia. Há muitas outras teorias que apontam para o valor dos minérios e dos terrenos a norte (que é muito barato estabilizar uma região, fazer três milhões de pessoas moverem-se, e de repente baixar o valor daqueles terrenos). São poderes muito grandes. Como diz o ditado moçambicano: quando lutam os elefantes, quem sofre é o capim.

Não posso deixar de fazer esta questão, mas como bem sabe existe uma crítica que é sempre dirigida a quem filma África sendo branco e europeu. Como te posicionas em relação a ela?

É uma pergunta legítima, e percebo-a. Mas a minha resposta passa pela questão do território, não pela questão da cor. Não filmei Moçambique no primeiro dia em que lá cheguei. O primeiro filme que fiz em Moçambique foi no final dos três anos em que lá vivi ( na última semana do meu contrato de trabalho). Só a partir daí senti que o território me tinha deixado entrar o suficiente, que as famílias me tinham acolhido, a maneira de ser, e que me sentia parte daquilo para poder ter algo para dizer. Essa inquietação narrativa e artística não aparece no início … no início há sempre o fascínio pelo diferente (os lugares, a natureza, os animais, a forma de ser), mas tal esgota-se depressa. É muito superficial.

Só quando tivemos o privilégio de entrar com intimidade dentro das narrativas (e o cinema tem esse privilégio) é que começa a aparecer aquilo que interessa. A partir daí, para mim, deixa de importar a cor e passa a importar se trabalhei, se conheço, se tenho conhecimento suficiente, se me sinto parte do território, aprendi língua tsonga (algumas frases … porque é importante que eles sintam que também estamos a aprender o que têm para nos ensina). Não filmaria em Cabo Delgado agora (não conheço Cabo Delgado), mas conheço Maputo o suficiente, onde vivi, tomei café, fui ao supermercado, paguei a luz, durante anos. Essa presença, essa troca constante de cultura, de conhecimento, de aprendizagens mútuas, é isso que faz cair a fragilidade do fascínio inicial e passar a ver as coisas integrado num sítio. 

Se calhar não me fazias a pergunta se tivesse ido filmar à Galiza. Mas se fosse à Galiza, perceberia zero.

E agora a inevitável questão: novos projectos?

Tenho dois que terminei de filmar em agosto do ano passado (quis filmá-los antes do nascimento da minha filha Alice). Um é uma curta de ficção sobre a desmobilização das tropas nos anos 90, depois dos Acordos de Paz em Moçambique. Sempre me fascinaram as imagens daquela época (de como organizavam os campos, quem queria voltar para casa, quem preferia entrar para o novo exército porque já não se reconhecia na aldeia nem na família). Escrevi um argumento a partir disso, chama-se “Cabeça de Martelo”, que é um pássaro daquela região.

O outro é um documentário sobre as Forças Especiais a ser preparadas para o Norte, centrado numa personagem extraordinária chamada Niu Shang. É um moçambicano que há 36 anos, fugindo da Guerra Civil, foi levado para a China por um casal de patrões chineses dos pais. Colocaram-no num templo Shaolin, a aprender Kung-Fu. O aprendeu por mais de vinte anos, depois voltou para Moçambique como turista, sem falar português, e ao perceber o estado das forças de segurança, corruptas e fragilizadas, decidiu ficar para as ajudar. Aprendeu entretanto português e changana, e tornou-se treinador das Forças Especiais. É uma história absolutamente estonteante! Estamos a terminar a pós-produção e espero ter boas novidades em breve. 

No final do ano, início do próximo, conto começar a minha primeira longa de ficção … já financiada! É uma adaptação do livro “Autismo”, de Valério Romão.

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