Prega-se a narrativa de que, se este filme tivesse sido “descoberto” (a palavra entra aqui num foro américo-eurocêntrico) a tempo, poderia ter mudado o curso do cinema nos anos 60. Diz-se também que a sua aclamação partiu de Martin Scorsese e de Francis Ford Coppola, quando o viram pela primeira vez nos anos 90, tendo ambos contribuído posteriormente para a sua restauração e divulgação. “Soy Cuba” encontra-se hoje “condenado” a essa profecia não concretizada, tal como, puxando para o panorama português, teria acontecido com “Xavier”, de Manuel Mozos, se os imbróglios e atrasos de produção não o tivessem transformado numa obra tardia, envolta por uma aura quase mística. O realizador desmente essas lendas e mitos, mas isso é outra história.
Voltando a Cuba sob a lente de Mikhail Kalatozov, poderemos encontrar aqui uma história alternativa do cinema? Talvez sim, talvez não. Nunca o saberemos. Sabemos, isso sim, que a sua redescoberta revelou um portento, fosse ou não uma “obra de propaganda”: um elo perdido do cinema soviético, órfão, aos poucos, dos seus “pais fundadores”, e simultaneamente indomado na narrativa clássica e na emocionalidade, concentrando um dos mais poderosos retratos anticoloniais de que há memória.
Mikhail Kalatozov, das cegonhas às canas de açúcar

Georgiano de gema e ao serviço do regime, Kalatozov trabalhou em panfletos estalinistas até à morte de Estaline, em 1953. Quatro anos depois estreava aquele que, para muitos, seria o seu magnum opus: “The Cranes Are Flying”, o único filme soviético a vencer a Palma de Ouro em Cannes, um enorme sucesso no seu país e além-fronteiras.
É uma elegia de um Estado que, nas mãos do realizador, simbolizava o renascimento do cinema soviético após a queda de Estaline, período durante o qual a produção se encontrava estagnada pela limitação imposta pela figura-culto. Hoje, porém, mais do que narrativas e representações, as cegonhas aqui envolvidas (apesar de “cranes” dos títulos originais ser especificado de outra ave, também pernalta, o grou, mais adequado às paisagens russas) é a sua magistralidade técnica, os contra-picados de cortar a respiração, o trabalho mágico do director de fotografia e operador de câmara Sergei Urusevsky, parceiro de Kalatozov também nas paisagens tropicais e nos ritmos quentes de Cuba.
“Soy Cuba…” Uma voz que atravessa continuamente o território, um fantasma, talvez uma mãe-ilha, dialogando com o espectador sobre as suas dores, as suas crónicas milenares e contemporâneas.
Soy Cuba… e, com isto, uma boîte

Chegamos a Cuba. A Voz de Cuba fala-nos. É a ilha que maravilhou Colombo, que o recebeu de braços abertos, como se assistisse à chegada de entidades divinas, sem perceber o mal entranhado naquelas naus prestes a desembarcar. Mas a Voz mantém-se distante: é a Cuba dos cubanos, de Havana, das paisagens, dos casinos e dos colonizadores.
Essa Cuba corporiza-se em Luz María Collazo, Maria para o vendedor de fruta, Betty na boîte, transformada em atracção para os “gringos” devotos da religião capitalista, como é o caso de Jim (Jean Bouise), que começa com uma limonada e acaba embriagado pelo exotismo projectado sobre esta jovem cubana.
“Soy Cuba” … como contos quase canterburianos … americano confronta-se com a verdadeira Cuba: a dos despojos, da pobreza, da miséria, talvez da porno-miséria, distante do brilho de Havana, da Havana de Fulgencio Batista, do canto e dos encantos destinados aos turistas. Primeiro relato, primeira história da nossa voz cubana. Compreendemos para onde vamos. Compreendemos de onde viemos.
Começamos a deambular pela costa da ilha, instalamo-nos na boîte e nas favelas à volta de Havana, tudo arquitectado através de travellings que desafiam a própria lógica de humanidade, ângulos largos e câmaras periscópios. Um filme sem sedentarismo, sempre em movimento, irrequieto, até mesmo “mentalmente”. Olhamos para Cuba não através dos olhos dos mortais, mas como se fôssemos esse espírito que sussurra as suas narrativas em busca de uma moral.
A moral é epifânica neste primeiro conto, mas a agressividade, preparem-se, tornar-se-á ainda mais feroz. Kalatozov e Urusevsky têm uma missão: olhar para uma revolução, para uma comunidade insular, apelar à luta, sempre com o zénite na mente, procurando a imortalidade, talvez através de um ideal bolchevique, certamente anticolonial. Esquerda, palavra maldita para algumas franjas, caída do céu, do divino, da ordem do além, prescrição escrita apenas pelos deuses. Propaganda? Talvez. É assim que funciona: infiltra-se como um dever, nunca como uma escolha.
Terra trabalhada, terra minha

O capitalismo é um sonho caído na ganância dos homens. Talvez não funcione, se seguirmos a lógica de “Soy Cuba”. O filme, como a sua Voz, conduz-nos precisamente a essa conclusão: uma ideologia diabólica onde apenas as elites se apropriam de tudo em nome do negócio e do progresso, enquanto o resto luta pelas migalhas.
Na segunda história, encontramos a conquista da terra pelos cubanos: terra para trabalhar, família para criar, prosperidade imaginada para gerações futuras. Mas o latifundiário avisa-os sem rodeios: é preciso abandonar tudo. As terras foram vendidas a uma companhia americana. Neste momento, “Soy Cuba” aproxima-se mais de Pudovkin do que de Eisenstein. São histórias extraordinárias de indivíduos empurrados para a luta como única alternativa às suas vidas reféns dos soberanos, mais do que uma exaltação abstracta da massa.
Aqui reina a destruição. O fogo substitui o verde inicial, destrói, mas também purifica intenções. “Soy Cuba” transforma o desespero em metáfora, elevando as labaredas a uma beleza cinematográfica assombrosa. Já disse que a propaganda é assim? Estetizada. Continuamos com Cuba.
A criação do mártir

Da luta estudantil nasce um símbolo da guerrilha, enquanto Fidel permanece uma palavra inscrita em panfletos clandestinos. Estamos na Havana urbana e modernizada, onde as autoridades reprimem estudantes inconformados com a ordem estabelecida. “Querem mudanças!” Fidel promete outra Cuba, sedutora para quem encontra nos livros vermelhos de Lenine um ideal. Em vez dos guetos, dos salões de dança e dos campos de cana-de-açúcar, surgem os arranha-céus, as praças, o trânsito, a câmara torna-se acrobata, hercúlea, retirando-nos o fôlego. Estamos em 1964, antes dos drones (e a sua saturação) e dos dispositivos contemporâneos. São travellings alpinistas que atravessam janelas, acompanham figurantes num funeral multitudinário, percorrem praças e ruas.
Não morre apenas um estudante. Nasce um mártir. A resistência transforma-se em comunhão. “Batista fora!”, entram os amanhãs que cantam. Já vos disse que a propaganda é isto? A força das imagens ao serviço de uma ideia. Vamos para a selva.
Um fuzil para quem tem direito à luta

A guerrilha instala-se no mato. A resistência alimenta-se da esperança. Camponeses, injustiçados, juntam-se à luta, deixam as famílias e abraçam a promessa de um futuro diferente. Educação, saúde, condições, as nossas terras. “Soy Cuba” volta a plantar-se nas encostas da Cuba Libre, nas primaveras da revolução. Vemos a nova Cuba ao longe, para lá dos pelotões improvisados, dos fuzis roubados, dos conselhos de guerra.
Cuba libertada. Cuba idealizada. Sentimos o fervor desta revolta que se aproxima do triunfo. A Voz de Cuba junta-se à frente, e nós, espectadores, também. Já vos falei dos filmes de propaganda? Este é o exemplo máximo: agitação, exaltação de um tempo, arquitectura técnica de requinte. Vemos Cuba e, ao mesmo tempo, não a vemos. Sentimos que Cuba é uma miragem. Hoje, sessenta anos depois, é o sonho dissipado, o sonho não concretizado, a desilusão, o sono febril.
É difícil imaginar que um filme propagandístico como este pudesse ter alterado o curso do cinema. Talvez as lendas sejam verdadeiras. Talvez a cortina que então se adensava, a Guerra Fria, tenha impedido que estes panfletos soviéticos circulassem livremente no Ocidente. Bastava a propaganda yankee, contra o comunismo, em nome do capital e do seu “ismo”.
O que resta de Cuba, e a sua primeira pessoa do singular…

“Soy Cuba” começou a ser preparado em 1959 (em 1960 Kalatozov estreava “Letter Never Sent”), no início da Revolução Cubana. Quando chegou às salas, o lançamento esteve longe de ser consensual. Dois anos depois da Crise dos Mísseis, as reacções, mesmo nas exibições em Cuba, foram duras: acusavam-no de perpetuar estereótipos e de ser ingénuo perante a própria luta revolucionária. Tornou-se uma produção deslocada do seu tempo, uma espécie de ratoeira para um realizador premiado, que cinco anos depois assinava “The Red Tent”, uma obra “comunitária” com Sean Connery e Peter Finch, nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, o qual seria o seu derradeiro filme. Kalatozov morreria em 1973, vítima de um ataque cardíaco. Já Urusevsky, paralelamente pintor, inaugurou-se numa carreira de realizador emancipado, duas obras contabilizam-se: “Goodbye, Gyulsary!”, em 1969, e “Sing a Song, Poet”, em 1973, estreado postumamente.
Olhemos, então, para Cuba com tristeza, alegria, melancolia ou celebração. Viajamos pelas suas paisagens e pelas suas muitas faces, enquanto essa voz doce, espectral, de uma mãe-Cuba nos traz as boas novas de um tempo de desencanto. Cuba, hoje, amaldiçoada para uns, terra maldita para outros, ameaçada por ventos e marés, deu em tempos à luz um filme de propaganda por direito próprio, que nos chega às encostas de um mundo polarizado, onde as extremidades falam cada vez mais alto.
Negar “Soy Cuba” é negar a possibilidade semiótica da forma, da técnica quase sobre-humana, e deixar de acreditar no cinema como superação da sua própria arte. Propaganda ou não, é desta propaganda, desta estética em permanente estudo, que sentimos saudades. Basta olhar para a propaganda produzida hoje. O que se perdeu? O encantamento, talvez. Ou terá o espectador perdido a capacidade de ler um poema, visual ou não, substituída pelo imediatismo? Ver “Soy Cuba” hoje é um teste à nossa resistência e à nossa disponibilidade como espectadores, acima dos de passagem, dos cães de Pavlov e dos ”pés de barro”.

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