Sheila lembrava-se da pintura de Ellesmere feita durante a Revolução Francesa e, num fim de tarde sem sol no Ártico, ele parecia-lhe um jacobino insuflado discursando para o monástico Svalbard, que fumava seu cachimbo imaginário na grande sala de reuniões do castelo de Murckle. O vampiro de Wrangler pareceu ler os pensamentos dela e disse: só falta o lenço tricolor. “E isso porque viu American Psycho 20 anos depois de toda a gente“, disse cinicamente Wrangler. “As palavras nunca morrem”, disse Sheila. “Hoje em dia facilmente se perdem, por isso é bom que retornem“. “Raio da miúda que o Ellesmere arranjou“, pensou Wrangler. “Tem sempre umas frases destas“.
Ellesmere estava a ser particularmente ríspido com Svalbard: “O problema é que o senhor é um esteta monástico e não suporta ver aquilo que uma estátua poderia desmistificar. “American Psycho” é melhor do que “The Wolf of Wall Street“. Scorsese sempre se deixou seduzir por tipos que vencem na vida, independente das coisas que fizeram para não serem considerados um “schmuck“. “Sim, lembras-te bem da última frase do “Goodfellas“: o Henry deixa de ser um bandido bacana para ser igual ao borrão que 99% do resto da humanidade é aos olhos dele (e de Scorsese?).
“As tuas insinuações maléficas mostram um Scorsese como uma espécie de padre sem ética. Faz o sacerdócio, mas não acredita nele.”, responde um ponto acima da indiferença Svalbard. “Ele não está defendendo Henry nem Belfort; mas talvez não esteja defendendo o conformismo“, disse Svalbard.
“Conformismo? Não trapaceies com as palavras. “American Psycho” diz exatamente o que há para dizer: aquela ralé de Wall Street como gente sem personalidade, repetindo-se uns aos outros, confundindo-se uns com os outros porque são todas, como diz aquela música do Gabriel Pensador, “monte de merda da mesma privada”. E o final ambíguo é perfeito; em “Goodfellas” a história de Henry encontra redenção numa questão pragmática: tem de delatar os ex-camaradas para sobreviver. Em “American Psycho” esse truque não é necessário: se Bateman projetou o seu ódio e nada daquilo aconteceu, o seu vazio não é absolvido; se fez aquelas atrocidades todas e não foi punido, essa é simplesmente a mecânica do sistema“.
Sheila entrou com umas tostas de olhos sangrentos gratinados, como que para arrefecer os ânimos. Ficou a olhar sorridente para Svalbard, a primeira “vítima”. “Está delicioso”, resmungou, lembrando de um programa do Travel Channel onde um britânico teve de comer olhos de carneiro numas pastagens na Geórgia. Às tantas olha para a câmara aflito e diz: “não desceee...”…

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