Estrany Riu

Tendo estado presente na secção “Orizontti” do Festival de Veneza de 2025, aguardava-se com alguma expectativa esta obra de Jaume Claret Muxart que nos vinha descrita lá de fora como um “Call Me By Your Name” catalão. Ora, desse filme, vemos apenas em comum uma personagem adolescente à procura de um primeiro amor no meio da Europa (neste caso, perto do Danúbio na Alemanha)…
Às vezes – se não quase sempre, os filmes mais desapontantes são os que tentam apontar às estrelas. Muxart parte de uma narrativa clássica de transição para a vida adulta para se recusar em qualquer esquina em dar o óbvio – e nisso e só nesse prisma, poderia entender quem olha para este filme como algo refrescante no panorama.
Só que esse adiamento do prazer imediato não traz qualquer benefício à apreciação: a narrativa bem aguada, fazendo-nos questionar qual o ponto de certas e determinadas cenas, dilui até a aguarela de imagens bonitas e ‘instagramáveis’, até espetar com o ponto do filme na linha de diálogo mais artificial da obra (e que me fez rir quando devia fazer pensar). A família aqui retratada é inócua mesmo quando está a discutir; não há o mínimo de elemento de tensão, conflito interno, ou descoberta de verdades e está tudo bem mesmo quando não está. Se o protagonista está, em última análise, perdido, também muitos espectadores terão saído da sala assim. Talvez seja uma questão de sensibilidade, mas para mim está encontrada a grande banhada da seleção.
Competição Oficial – Longas Metragens
London

Alegadamente o primeiro filme criado por pessoas queer com deficiência sobre a sua própria existência queer com deficiência, “London” usa essa carta de representatividade bem próxima do coração.
Na história, Victor Di Marco — protagonista, co-argumentista e co-realizador (com Márcio Picoli) — encena o que aparenta ser uma versão muito próxima da sua experiência pessoal: um jovem adulto com deficiência que ganha autonomia através do seu desejo sexual, trabalhando num clube fetichista. Quando a sua condição física se começa a debilitar e a família entra em cena, “London” prefere ser deixado em paz a encarar um diagnóstico que, para todos os efeitos, pode baralhar a persona que conquistou ao longo do tempo.
Sendo essencialmente um estudo de personagem com um toque de docudrama, pontuado por momentos ternos e humorísticos para alternar com a escuridão da condição aqui detalhada, o que é certo é que “London” acaba por ser um marco histórico mais pelo que mostra do que por como exatamente o mostra. Excluindo o fator central, não há nada aqui que seja particularmente diferenciador de outros trabalhos dramatúrgicos. Dito isto, e a avaliar pela reação do público, ou me engano muito, ou a dupla pode já preparar o discurso para receber o Prémio do Público deste certame.
Competição Oficial – Longas Metragens
Outerlands

Num terceiro retrato de juventude perdida num mundo que não é tão estimulante como o que desejariam, “Outerlands” de Elena Oxman parece partilhar do conceito explorado por Jane Schoenbrun (nomeadamente em “I Saw the TV Glow“): a forma como a cultura pop nos molda e se torna um refúgio para os traumas vividos na realidade.
Aqui, a personagem principal, Cass, regressa a um jogo que lhe marcou a infância — o “Outerlands” do título — quando se vê encalhada com outra criança perdida para cuidar. Isso obriga-a a mexer na arrecadação e a reviver uma perda pessoal que afetou também o seu processo de construção de identidade não-normativa.
Oxman tenta, na primeira metade, imprimir um toque paranóico certeiro, mas a viagem acaba por cansar. Culpa também de uma banda sonora coral que tenta demasiado elevar algo que já é bastante dramático por si, de algumas conveniências de argumento (a introdução da funcionária bancária que calha ter feito parte de um grupo de reabilitação com Cass sendo talvez o exemplo maior) e de tiques típicos de filme de Sundance. E é particularmente frustrante porque, tirando a identidade de género de Cass, esta podia ser eu: gaymer (sobretudo na infância e juventude), neurodivergente, com personalidade aditiva, sentindo-me negligenciado pelos meus pais. Às vezes os espelhos não garantem amor — pelo contrário.
Panorama

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