Ingrid Caven, actriz de longa experiência no cinema de Fassbinder, é o ponto central de um concerto no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris, no qual percorre dezasseis momentos da sua vida através de palavras soltas, divorciadas, sem ritmo, nem vocação de grande diva de palco. É uma espécie de performismo, fazer da música um embalo para quem nela se deita sem a mínima noção de musicalidade. Uma hora e vinte disto, sem grandes anseios por mais do que um concerto filmado. Fascina pela proximidade com um talento à la Yoko Ono, disruptivo na forma como desafia a noção de “boa voz” ou de “boa cantoria”. A música deixa de ser uma melodia suave ou agitada na nossa mente para se tornar uma agressão, e nisso reside o espanto: quem pagou para ver este espectáculo, este monólogo disfarçado de canção?

Cinco faixas depois, com músicos de grande fôlego por detrás, a musicalidade sobrevive apesar das consequências, a nossa ‘Florence Foster Jenkins’ transforma-se numa personagem que se adequa coerentemente ao cinema do seu maestro, neste caso Albert Serra, cineasta que chegou até nós através da névoa do desconhecido, da arte dos “não-actores” e da sua canastrice. O profissionalismo entrou-lhe pela porta dentro com Jean-Pierre Léaud, também numa performance de morte, o rei Luís XIV do extraordinário “La Mort de Louis XIV”, ainda hoje a sua obra-prima. Alguns dos seus rasgos pareciam anunciar uma espécie de sequela espiritual em “Liberté”, a liberdade libertina no mato, entre bondage e outras perversidades, o seu Salò de “metro e meio”. Depois vieram as touradas, num ambíguo e discutido “Tardes de Soledad”, mas antes disso regressara à força do actor profissional com Benoît Magimel em “Pacifiction”, um Gauguin moderno contra as narrativas convencionais, apenas o nada e aí prolonga a evidencia de um filme-miragem.

Já “Seize moments de ma vie” joga nessa matriz original, ou talvez no seu espelho invertido. Faz de uma actriz profissional uma não-actriz, despe-a dos traços de qualquer profissionalismo e atira-a para um palco rodeado de músicos e cantautores. Num gesto brusco, transforma-a numa amadora canhestra de outra arte. Se seguirmos esta lógica, encontramos, num filme-concerto onde a presença do realizador (artista, leia-se nas entrelinhas) não é de todo manifestada, um lado profundamente serriano: a genialidade dos canastrões.

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