Estantes cheias de, ora merchandising, ora livros ou DVDs, sempre acompanhadas por uma ou duas plantas (o verdinho irriga um contraste agradável ao olhar), são o cenário, mas o que interessa está em primeiro plano: normalmente agarram o minúsculo microfone entre os dedos, são energéticos, seja para o bem ou para o mal, e assim operam a favor do algoritmo, falam de recomendações com imediatismo, fácil percepção e sem engodos; os engasgos esses são suprimidos por via de edição, operam ao serviço de um marketing. São os influencers, cada vez mais confundidos com o papel da crítica de cinema. Só que não tentemos chamá-los disso: a sua função está longe de fazer-nos pensar e, sim, de consumir. Vejam o filme X ou Y na plataforma igualmente X ou Y. Gostaram do livro tal e coiso? Então porque não ver a adaptação que, por “coincidência”, chegou às salas ou aos pequenos ecrãs?

Eles não são mais do que fruto do tempo, do desespero ou da estratégia, daquilo que muitos proclamados críticos tentaram fazer, com palavras vazias e ao mando das suas distribuidoras, nada mais: “fazer as pessoas voltar ao cinema”. Assumiram essa função como o braço estendido das campanhas de marketing, abraçaram o estilo americanizado do “it’s fine and fun”, das resenhas reduzidas a superlativos e a adjectivos sem alicerces, fomentaram esse caminho e agora, eis o adversário… o tal influencer.

Os críticos perdem o seu lugar nessa hierarquia, nesse estatuto de privilégio, porque alguém ocupou o seu lugar à mesa. São mais facilmente domesticáveis, de maleável ‘opinião’, como pegas [a ave, se faz favor, nada de eufemismos] atraídas pelo brilho reluzente do latão. Agora que ficam para trás, será que ainda podemos acreditar na reconquista? Não parece. A confiança está quebrada, os críticos perderam a sua voz entre as audiências e, hipocritamente, é nesses influenciadores digitais que dançam por via de likes e engagement que mais acreditam!

Portanto, o romantismo, aquilo que defendo sempre nesse exercício da crítica, poderá ser a solução, como alternativa e, como se tem visto em maioria, não a conversão: os críticos viraram também eles influencers.

E os influencers destroem filmes? Claro que sim. Por vezes existe neles uma ignorância, não das santas que certa vez Rui Alves de Sousa especificou neste texto, mas de uma entendida como “todo o saber”; pouco se prezam a experimentalidades e a sensibilidade artística de muitos está ao nível do seu conteúdo. Por isso é fácil perceber porque Christopher Nolan recusou exibir a sua muito antecipada “The Odyssey” aos influencers antes da crítica; o oposto tem sido o costume das estratégias de marketing das majors, essa constante criação de burburinho digital. Por mais críticas que se dirija ao cineasta (da minha parte não são poucas, e penso que sabem-no bem) algo de que nunca o poderemos acusar é da sua falta de perseverança na experiência da sala de cinema  [texto de Samuel Andrade sobre essa determinação] e, com isso, também da sua resistência no medium e nos media tradicionais.

Christopher Nolan na rodagem de “The Odyssey” (2026) / Foto.: Melinda Sue Gordon—Universal Pictures

Contudo, a crítica há muito largou a exclusividade do papel, transferiu-se para diferentes plataformas, da escrita online até ao vídeo, e pode (sim, não entendam o contrário) encontrar o seu lugar na dita social media. Só que crítica que é crítica, a das ideias, não encoraja algoritmos nem “leituras” rápidas naquele regresso a casa em transportes empilhados, depois de oito horas de trabalho (ou mais). Os reels / tik toks detêm esse elemento viciante de serem de baixa duração e sem complexidades: mensagens pragmáticas, simplistas e sem margens de dúvida.

Em Portugal, porém, muitas produtoras, distribuidoras e outros painéis já começaram a adoptar o influencer como seu “animal de estimação”; o crítico, poucos e cada vez menos, está à mercê dessa domesticação. Conseguirão ser relevantes como outrora? Claro que não … mas convenhamos: viver dela continua a ser para tolos e, mais uma vez apregoo, o romantismo para com esta arte. Deixemos os influencers a serem aquilo que são: meras imagens de marca. Não os levemos a sério.

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