“Honestino” proclama um lugar de luta numa época em que a memória é vista somente como um algoritmo ou, por outras essências, uma verdade parcial, acredite quem quiser… a democracia do pensamento abriu portas para uma igual desinformação e, nesse patamar, coloca facto e opinião na mesma bandeja, ao mesmo nível, sem a sua hierarquização. Mas passemos à frente: do que se trata o filme mesmo? 

Fora do território brasileiro, Honestino Monteiro Guimarães é um desconhecido, mas, dentro dessa mesma nação, foi um líder estudantil, morto pela ditadura militar aos 26 anos, com o corpo ainda por encontrar. Contudo, lidando com a possibilidade de comentários negacionistas sobre a ditadura, seja pelo saudosismo, seja pela amenização instrumentalizada para fins políticos, um português como eu, ao comentar casos destes, corre sempre o risco de esbarrar no pavloviano e numa espécie de restrição histórico-política. Só que fazer crítica também é um acto político, porque a nossa existência, seja amorfa ou não perante esses ideais, revela um gesto (in)voluntariamente político. Decisão vossa: vivem como querem ou como podem!

Agora, evitando esses clichés, é no documentário de Aurélio Michiles (que também assinou documentários sobre nomes-chaves ao cinema brasileiro como Glauber Rocha ou Cosme Alves Netto) que nos debruçamos para entender o seu acto político, claro: o de descortinar estas histórias, reavivar a memória da Ditadura perante a instrumentalização que se avizinha e colocar personalidades como Honestino acima do “fiz a minha pesquisa”.

Enfim, como Cinema, seja no seu jeito formal, e com isto também político, é difícil fugir à ‘mesmice’. Talking heads, imagens de arquivo e até ficcionalização em modo palanque de recitação, com Bruno Gagliasso a pintar esse fantasma ‘honestiano’. Até que ponto “Honestino” é realmente um filme honesto? Ou melhor, será a sua existência cinematográfica suficiente para o validar como tal? É um beliscão após a saída da sala, para se invocar em debates, discussões, celebrações ou homenagens, criando assim um documento para a actualidade, e não, dito isto, para o futuro. Até porque se revela sem ousadia de transgressão, nem manifestação do realizador como parte da sua estética.

“Honestino” vive no agora, mas não será um filme do amanhã. Enquanto isso, a luta continua… Avante contra as limpezas memorialísticas.

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