Martin, jovem diagnosticado com sete condições severas, apenas quer sentir-se normal, ou lá como isso se define. Sonha com um Honda Civic e, em conjunto com o seu amigo Casper, também partilhando as mesmas condições, partem em busca de carros, entre paixões e muitas confissões ao volante. Falamos de uma espécie de “Top Gear”, adequado à amizade de ambos e, com isso, aos seus desejos de “normalidade”.

Emil Langballe filmou Martin e o seu companheiro, estrada fora e estrada dentro, num filme intimista, frontal, sem se olharem nos olhos. São os “Petrolheads”, como gostam de ser apelidados, e como o filme apropria o carinho para título. Estreado no último Festival de Locarno, o Cinematograficamente Falando… falou com o realizador sobre esta road trip feita de desabafos, lamentos e muito “petróleo na mona”.

Como chegaste ao Martin e ao Casper? Por onde começa tudo isto?

O Martin é o meu irmão adoptivo (a minha família foi buscá-lo a um orfanato na Dinamarca quando tinha quatro meses), crescemos juntos, e quando ele tinha três ou quatro anos começámos a perceber que era diferente. Aos dez foi diagnosticado com autismo, síndrome de hiperflexibilidade e perturbação de vinculação (ou perturbação do apego). Sempre tive dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo, mas sempre o achei uma pessoa extraordinária. Sabia que havia um filme ali, só não sabia como entrar.

Foi quando ele me falou do Casper que me apercebi dessa abertura. Os dois tinham criado um blog sobre carros: andavam pela Dinamarca a fazer test drives e a escrever sobre eles. 

Uma espécie de “Top Gear” [risos]?

Sim [risos], bem visto. Voltando … o Martin perguntou-me: por que não filmas isso? Tinha-se falado em fazer um filme juntos há algum tempo, mas nunca tinha conseguido ver como. Quando ele me contou, apareceu-me um universo. Mostraram-me os sítios que frequentavam: concessionárias velhas, ferros-velhos, um mundo que desconhecia, com algo de muito cinemático, e a amizade entre os dois era fascinante. Tinham uma simbiose estranha, quase conseguiam acabar as frases um do outro, e tinham conversas muito profundas e honestas sobre a sensação de exclusão. O Casper lida com questões semelhantes às do Martin. E foi assim que tudo começou.

Emil Langballe / Foto.: Andreas Omvik

O filme tem uma narrativa muito definida: começa como uma espécie de Top Gear alternativo (mais uma vez a referência [risos]) e vai mudando: o carro, a amizade, os problemas, a redenção, temas que vão passando como arcos narrativos. Como foi construir isso?

Quando embarquei nisto, não sabia o que ia acontecer. Sabia sim, que a amizade entre eles era o centro, e que por vezes chocavam e depois se reencontravam. O que percebi desde o início foi o carro como metáfora: eles dizem que só atrás do volante se sentem normais. 

O carro tornou-se a metáfora da aceitação, do sentimento de pertença a algo. É também o único espaço onde conseguem ter conversas verdadeiramente profundas, ambos têm autismo e evitam o contacto visual, e num carro, podes olhar pela janela e falar de tudo. Achava isso muito bonito. Depois, à medida que o Martin começou a ter problemas com a toxicodependência, a narrativa mudou. Há um ponto em que mudamos de perspectiva e passamos a seguir o Casper, a ver pelo seu lado o do amigo a desaparecer. Foi uma decisão por dois motivos. 

Primeiro, era impossível filmar o Martin naquele período: estava a ser explorado por pessoas que não queriam câmaras. Segundo, identificava-me completamente com o Casper. Também sentia o meu irmão a desaparecer, que se estava a perder para as drogas. Pôr-me no lugar do Casper era uma forma de incluir a minha própria dor no filme.

Recordo que existe uma determinada cena em que o Casper diz que o contacto visual é sobrevalorizado. Acho que é uma das frases mais fortes do filme.

Fiquei muito surpreendido quando ele disse isso, adoro essa frase, porque diz muito sobre a forma como ambos se apropriam da própria condição. Não deixam que ela os defina negativamente. Tomam posse da sua vida. É uma expressão de quem aprendeu a gerir a sua situação em vez de a sofrer, e deu-me também problemas de montagem: quando editas, precisas do contacto visual para os cortes fazerem sentido. Eles nunca se olham quando falam. Desafia todas as convenções da cobertura de uma cena.

No filme, o Martin e o Casper referem-se a si próprios como ‘retardados’. A familiaridade com que usam essa palavra é ao mesmo tempo incómoda e muito tocante.

Para mim, o núcleo do filme está exactamente ali. Quando o Martin me disse, no início dos vintes, que estava devastado por perceber que não conseguiria ter uma vida normal, fiquei em choque. Quando conheci o Casper, senti o mesmo nele: o mesmo desejo de normalidade, a mesma dor por ser diferente. O Casper disse-me uma vez: “Emil, se um estranho na rua me pedisse para trocar de vida, fazia-o sem pensar. Deixava para trás toda a gente de quem gosto, só para ser normal.” 

É uma realidade muito dolorosa. O blog de carros, os test drives, o facto de se chamarem jornalistas automóveis, tudo isso é uma forma de criarem para si um papel no mundo, de aliviarem essa dor. De existirem.

O Honda Civic é o símbolo central dessa vontade da normalidade. Porque sejamos claros, Martin não deseja um Ferrari, um Jaguar ou uma raridade que só os excêntricos conseguem, e sim um Civic. Acho isso poético de alguma maneira.

Claramente! O Martin fala nesse carro desde os vinte anos, tem de ser de ‘93 ou ‘94. A primeira vez que ouvi falar nele imaginei qualquer coisa extravagante, porque não percebo de carros. Quando o vi, era o carro mais comum do mundo, um pouco enferrujado até, mas para ele era a maior conquista possível, e o facto de terem ido buscá-lo à Alemanha (os dois sozinhos) e conduzido de volta à Dinamarca era para ele épico. Infelizmente, o carro está agora parado na garagem da instituição onde vive, à espera que ele recupere a carta de condução.

Durante os tempos mais difíceis do Martin, houve resistência em ser filmado?

Nunca. O mais extraordinário é que, por muito caótica que a sua vida estivesse, nunca quis desistir do filme. Era importante para ambos ver o projecto realizado. Acabou por funcionar como uma espécie de espaço seguro: quando se encontravam comigo e com o director de fotografia, desligavam os telefones e filmávamos o dia inteiro. Havia algum alívio naquilo, mesmo que o stress continuasse. Houve vezes em que filmámos apenas uma cena, ou em que tivemos de abortar completamente porque ele estava em síndrome de abstinência e precisava de ficar na cama. A vontade estava sempre lá. Para mim foi um privilégio enorme: ter uma razão para estar com ele quase todas as semanas, mesmo nos momentos mais difíceis. O filme foi isso também.

O Martin viu o filme antes da estreia?

Sim. Viu dois cortes antes de fecharmos a montagem, primeiro com o Casper e depois comigo, podendo pausar e comentar tudo. Havia uma cena sobre a qual lhe tinha dado controlo: a cena em que ele está “coquinado”. Quando a filmámos, sabia que ele estava sob o efeito da droga, perguntei-lhe directamente, ele confirmou, e logo de seguida se devíamos filmar aquilo. Disse que sim, mas que ele poderia retirar se quisesse. Quando viu o corte final, quis manter. Era muito claro para ele: o filme tinha de ser uma representação honesta da sua vida e das suas lutas. Esconder aquilo seria falso. Estava muito determinado com isso.

E de onde vem o título “Petrolheads”?

É como eles se vêem [risos]. Um “petrolhead” [“cabeça de petróleo”, tradução literal] é um fanático por carros, e era exactamente assim que queriam ser identificados. Na estreia dinamarquesa, foram à televisão e perguntaram-lhes como queriam ser chamados. Disseram que preferiram “petrolheads”, é claro! Tem também uma dupla leitura, que alguém me apontou: o petróleo é um dos solventes usados no processo de produção da cocaína. Não foi intencional, mas não é de todo inapropriado.

E pensa continuar a filmar o Martin no futuro?

Não está descartado. Tenho ainda um arquivo de imagens dele desde os quinze anos, quando o filmei pela primeira vez. Talvez haja ali algo mais tarde. Neste momento tenho um novo projecto em desenvolvimento, ainda confidencial, mas de um modo ou de outro, não acho que o Martin desapareça do meu trabalho.

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