Sim, é Antonin Peretjatko, o próprio, o tresloucado, com rasgos de Godard à moda salteada de “Pierrot le Fou”, aquele que nos deu brilharetes cómicos como “La Fille du 14 juillet” e “La Loi de la Jungle”. Sim, o tal. Contudo, nesta curta documental torna-se ainda mais tresloucado. E porquê? Porque foge da própria loucura com que tem tratado longas e curtas, filmes avessos e avulsos, e em “Quelque part dans un pays libre”, procura essa “loucura” num país em guerra.
Comecemos pela praça Maidan, desviamo-nos das imagens captadas por [Sergei] Loznitsa, tão acarinhadas pela cinefilia, ou do contexto da Crimeia, até chegarmos ao ponto de ebulição. É a Ucrânia em pé de guerra, a Rússia de Putin como inimigo declarado, a tal declaração bélica e, com ela, a vinda de uma nova normalidade. Assim, como um Chris Marker no seu tempo propagandístico, Peretjatko filma a resistência de um país que se vê resistente na sua amplitude. Nada a fazer, joguemos em frente, mas, ao invés do miserabilismo, do vitimismo ou das tomadas de posição bélica, do “às armas” que todo o panfleto pró-resistência parece estabelecer, fiquemos pelo absurdo do confronto.
Dos cemitérios minados, não vá o inimigo profanar os túmulos dos seus heróis; os souvenirs de guerra, respondendo à questão de um turismo improvável, com pelúcias munidos de colete anti-balas e tapetes de boas-vindas com a cara putinesca, para os pés se rasparem com emoção; até ao bunker-teatro, caso a peça, seja ela qual for, seja interrompida pela corrente da sua contemporaneidade. São pequenos pontos, quase desvios, a desligar o filme da sua eventual vocação de munição.
É nesses pequenos absurdos, pelo olhar de Peretjatko, que ficamos. Porque a guerra, por mais séria que seja, também tem o seu humor negro, ou mais do que isso, quem sabe, em tempos nos quais os drones russos tornam-se parte do quotidiano de mulhares ucranianos, mais vale rir do que chorar. Não é verdade?

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