Jim Queen

Numa das sessões esgotadas do certame – particularmente impressionante para uma sessão das 7 da tarde de uma sexta-feira, onde opções ao sunset solarengo não faltariam – “Jim Queen” acabou por comprovar em menos de hora e meia o que o torna tão “crowd pleaser”, e também o que constitui o seu calcanhar de Aquiles.

Animação da autoria da dupla francesa Nicolas Athané e Marco Nguyen, vinda da companhia de animação para adultos Bobbypills, “Jim Queen” (trocadilho com o conceito “gym queen”, i.e. bicha/rainha de ginásio) mostra um aparente desdém pelo bom comportamento normativo, mas se formos a olhar melhor, está desesperadamente a querer aprovação do seu público.

Na sua “checklist” de temas para piadas, onde cabe tudo sobre a experiência gay contemporânea, desde duche anal a “cruising“, saunas e festas de sexo com drogas, Athané e Nguyen traçam uma caricatura da comunidade a traço grosso, sem grande nuance ou espaço para ambiguidade, o que torna a “odisseia” da personagem principal, infectada por “heterose”, um vírus capaz de “heterolizar” um indivíduo, também ela algo superficial. Isto acaba por se refletir numa falta de credibilidade no arco narrativo deste protagonista, quando é pedido que se apaixone por um “twink” virgem cuja próstata pode ser a cura para o vírus.

Sim, as piadas são certeiras, de tão exercitadas que sentimos que foram. A animação é fabulosa na sua estética “retro“, e os números musicais revelam-se uma opção acertada para fluir inicialmente a narrativa. É um filme que conquista o seu público alvo também porque se talhou para ele. Nada contra, mas convém olhar para o quadro geral e perceber que havia talvez uma maneira menos facilitista e mais inclusiva de fazer isto. Claro que essa maneira não encheria tão facilmente uma sala…

Panorama


En el Camino

De traço menos grosso, e também sem tanto espaço para o riso fácil, mas mantendo as drogas, avançamos para solo mexicano, num drama em viagem (um “road movie“, como apelidaram os americanos) realizado por David Pablos (“Las Elegidas“).

“En el Camino” coloca em cena o homoerotismo e a solidão vividas por uma classe por vezes invisível, também por estar sempre em trânsito: os camionistas. Sem qualquer espaço para o pudor, embora saiba também muito bem trabalhar com a sugestão via violência, a história que junta Veneno, um foragido com um passado pouco claro e o camionista Muñeco eventualmente vai conquistando o espectador que se consiga abrir o suficiente a ela. Pablos consegue subverter aqui e ali expectativas, mesmo quando os elementos já estavam todos lá para uma conclusão nada agradável, em retrospetiva. A dupla de atores Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez ajuda a humanizar personagens com imensos tons de cinza.

“En el camino” nunca é bonito, mesmo quando é incrivelmente sexy nos seus atos eróticos bem explícitos, mas é essa fealdade, esse realismo bem trabalhado, o quase poder cheirar a poeira e a sangue a secar, que nos conquista.

Competição Oficial – Longas Metragens


Tangles

A fechar esta 30ª edição do Queer Lisboa, que registou alegadamente um aumento de 50% de audiência face ao ano anterior, temos outro hit de Cannes 2026.

“Tangles” é um filme profundamente otimista sobre um tema desolador – a demência de uma mãe. Esse tom otimista faz ainda mais sentido quando percebemos que a trama desta animação é efetivamente inspirada num livro de memórias sobre pessoas reais. Quando a memória é escrita, quando uma pessoa desaparece das nossas existências coletivas, a tentação é focarmo-nos em tudo o que era positivo sobre essa pessoa, e quiçá até reescrevamos mentalmente certas situações do passado.

Esta obra de Leah Nelson não escapa a esta tentação e também a uma manipulação de uma cena emocional chave através de uma balada que sublinha algo que sem a adição musical já faria lacrimejar uns quantos olhos… dito isto, seria também injusto dizer que o filme não cumpre inteiramente o objetivo a que se propôs, e que parte desta reverência positiva vem da obra fonte. A animação em si é vibrante, e expande-se a pontos para territórios mais surrealistas, o que pelo menos permite a um filme tão preocupado em honrar a memória de terceiros respirar um pouco pela janela, e assim poder finalmente humanizar-se um pouco e merecer um pouco mais as lágrimas alheias.

Sessão de Encerramento

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