“Verity” beija-nos intensamente para nos fazer acreditar no quão sedutor é, mas é apenas manobra teatral mal encenada: as carícias e o flirt são golpes de execução pobre, depressa as intenções se revelam, cinema passageiro de correria, se não fosse o facto de ser uma adaptação de um homónimo bestseller de Colleen Hoover. Uma trama entre escritoras de thrillers de pacotilha e um mistério numa casa de lago, fantasmas e um marido em luto pelo corpo da mulher que não ‘regenera’, e pela filha morta.
Perante o ‘torcer geral de nariz’ quando se referencia a estreia desta conversão do livro para filme, diríamos até preconceito, quase esnobismo, devemos recordar que Hitchcock (não apenas de “Rebecca” ter uns dedinhos inspiracionais aqui … quero acreditar) se inspirava em ditos ‘livros menores’ (“Vertigo” é um grande exemplo, baseado em “D’entre les morts”, de Boileau-Narcejac), e não é por isso que o impediu de concretizar autênticas obras-primas cinematográficas, ou até do género, para não cairmos em absolutismos canónicos. Do outro lado, Mario Bava assumia priorizar argumentos “maus” à partida, seria uma boa desculpa para o eventual fiasco do filme: “a culpa é do guião, não era bom o suficiente” (imagino-o a treinar esta frase em frente ao espelho).
Só que eram outros tempos! Ai, não quero ser saudosista, mas neste momento requer-se fidelidade (exige-se com medo das mobs!). O livro, por mais menor que aqui seja, até Colleen Hoover, milhões de cópias vendidas graças a “livros de aeroporto” (a personagem de Dakota Johnson brinca a certa altura com essa situação; será que a escritora está a ver-se ao espelho?), solicita-se poucas liberdades artísticas, de maneira a agradar os seus fãs [leitores], e, prendê-los à sua experiência de escrita. Nem precisamos de ler o original para entender que “Verity” está muito próximo do fenómeno de “The Housemaid”, estreado no final do ano passado, do que os restantes, constata-se pela estrutura idêntica nos seus três actos, pelo semelhante timing de inserção dos twists e pelo softcore, seja sexual ou de violência, sempre aliado a uma estetização de telefilme de luxo (casas decoradas como catálogos do IKEA, instagramáveis, portanto, e “gente bonita” e bem sucedida no seu interior).
Há um sentido para que tal seja um “céu aberto” às matrizes com que os media se guiam, sem nunca terem o arrojo de se desviar: a fórmula enquanto conforto do espectador (sim, novamente parafraseando Charlie Shackleton) e, além disso, enquanto parâmetro e mediador de mercado. Nisto reflectimos: o que se passa? Tornámo-nos passivos perante as nossas próprias noções de conhecimento … e a tendência é para se manter até existir o profético mutim do espectador casual.

Com “Verity”, esse conforto é particularmente evidente. Os elementos estão arrumados, a dúvida vem já preparada e maquilhada, não há sujidade. Até o sexo, novamente soft para aquilo a que estes thrillers nos habituaram há uns anos, é reflexo dessa estetização sem estética: higiénico, com roupa ou sem roupa, mas isente de um pingo de desejo ou vergonha sequer. Sim, são estes filmes que contaminam a palavra sexo no ecrã, tornando-o (e a nós) completamente assexuado. O que fazer?
Talvez aproveitar o mistério? Nem isso nos reserva. As peças encaixam-se segundo o mote do livro, mas tudo se sente absolutamente anti-climático ao longo de todo o rastreio. Depois do tal “The Housemaid”, que ainda tinha um pequeno desvio no escapismo (a interpretação lúdica de Amanda Seyfried é exemplo disso, consciente em saber o produto que tem), “Verity” é levado (imensamente) a sério, um “Cinquenta Sombras de Grey” (sem masoquismos e universos kinky mas com Dakota Johnson, a nossa poker face de serviço), novamente na sua execução límpida, com Anne Hathaway a tentar ser a “adulta na sala” … mas, mais uma vez, deveria divertir-se.
Nada é sério aqui. Apenas fórmula. O espectador nem exige mais do que isso… porquê preocupar?

Deixe um comentário