A primeira ‘pazada’ que se pode exercer neste “Digger”, o retorno de Iñárritu aos grandes ecrãs após a fraca recepção de “Bardo” e a sua condenação ao streaming, é a de um filme profundamente marcado pelo seu presente, mas também empenhado em contrariá-lo. Confusos? Com a farsa montada, este “Birdman 2.0” joga-se entre realidades e palcos para nos trazer um Hamlet contorcido pelo zeitgeist. Digger, a personagem emprestada por Tom Cruise (com próteses em demasia), é uma espécie de embrião estereotipado do Poder, ou como alguém a certa altura aponta o seu estado “buffon”, quase como uma característica patética e, ao mesmo tempo, “larger than life”.

Talvez a ficção tenha dessas coisas, em exaltar figuras, seja elevá-las a heróis, mártires ou salvadores, mas também reduzi-las a caricaturas, piñatas exclusivas à recriação. Mas, voltando ao protagonista, este novo Cruise a fazer-se ao Oscar (porém, consideremos este como um dos seus papéis mais afastados da aura de action hero, algo que se tem diluído na sua risonha persona) é um magnata do petróleo e de outros fuels, cuja ganância, tão característica deste tipo de seres, desencadeia a esperada catástrofe do século. O filme, em modo ‘salta-pocinhas’ da percepção (“não é facto”, relembra Riz Ahmed), interage com esse carácter, fazendo dessa figura nefasta o bode expiatório da nossa modernidade, de gerações fracassadas e passivas até para apocalipses concretizados pela indiferença de quem os beneficia. Mas o que importa é “controlar a narrativa“, e a narrativa, no seu conceito básico, em ventos pós-narco-capitalistas tem dono(s) … assim fazem-nos crer de certeza.

É a época do “chico-espertismo”, do “smartest guy in the room”, e essa táctica dos vencedores a todo o custo levou-nos a este “agora”: a uma sala de homens velhos e brancos a lidar com os rumos mundiais como quem gere um negócio mal amparado. Em termos de equação mercantológica é “Dr Strangelove” com “There Will Be Blood”, o absurdo caricatural do primeiro encontra os temas que orbitam no segundo. Talvez dito desta forma, soe-nos e concretize-se: “Digger” é um filme inflamado pelo próprio discurso, deixa-se comover pela farsa e busca na sátira uma espécie de prova de bala para a sua crítica.

“Ser ou Não Ser”, eis a questão! Hamlet está de tal forma impregnado no cenário, nem que seja por via de Lubitsch, como easter egg num deles, a tal obra de farsas que se apropria do mais famoso dos monólogos, e lá está … faz companhia a Cassavetes num dos filmes mais sabidos de cor e cujo título, a não revelar aqui, indicia o que estamos a ver. Portanto, Shakespeare não entra nesse modo de “está ali”, e sim na sua condução. Não diria shakespeareana, ou lá o que isso possa significar no pós-modernismo, mas no efeito da encenação servir-se da catarse, da consciencialização, do reflexo ou até de um exercício recorrente da memória.

Godard falava do Cinema como uma arte capaz de transpor a História para a sua própria imagem, pensando, entre outras coisas, na Revolução de 1917. Mas é também o teatro, aqui, com os seus futurismos e progressos, que mantém essa capacidade de transmitir e reformular a História. A representação torna-se uma forma de conhecimento. Tal como no dito Hamlet, quando um “teatrinho” encomendado pelo príncipe servia de embate ao seu tio-rei, uma forma de chegar-lhe ao consciente, à culpa, diz-se, e revelar-se o assassino que é. Em “Digger”, o teatro, mesmo que seja o do Poder, tem essa funcionalidade: confrontar com uma memória, um sentimento, uma recordação, por outras palavras “controlar a (dita) narrativa“. Talvez, com o Fim dos Mundos em cuecas, seremos capazes de voltar a sentir ou a transmitir essa História do Mundo com recurso às adaptações, sejam de que natureza forem, cuspindo em falsos-deuses e na messiânia descomedida com que a política de hoje, mais que nunca, se integrou indissociavelmente. 

Poderemos, então, acusar “Digger” de ser tudo aquilo quando mencionamos Iñárritu fora das suas porno-misérias: excessivo, mastodôntico, pretensioso… É isso, e com o seu quiçá. É a farsa anti-farsa, o cinema a espernear para a relevância actual. Se será essa a sua ou não verdadeira intenção, eis a questão. A verdade é que o volte-face poderá acabar por lhe conquistar mais apreço do que aquele que inicialmente seria previsível.

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