Talvez seja mais do que previsível que uma biopic de Franz Kafka funcione desta maneira: labiríntica, numa tentativa de escapar à convencionalidade do subgénero. Entramos, por isso, nessa expectativa, e a cineasta polaca Agnieszka Holland (“Green Border”, “Europa Europa”) não defrauda o previsível; pelo contrário, faz desse tratamento quase uma exigência perante a angústia de um escritor que se esforça por escrever, possuidor de uma visão compreensível (e arriscamos dizer, única) sobre os sistemas de Poder. Um deles manifesta-se através da burocracia, tão fortemente representada na sua obra-prima, “O Processo” (sim, vejam a adaptação de Orson Welles!); outro, pela punição quase foucaultiana de “Na Colónia Penal”.
Porém, a tortuosa percepção do seu estado de mártir conduz inevitavelmente a “A Metamorfose”, o seu trabalho mais conhecido, onde relata a estranheza do próprio corpo e a asquerosidade da sua condição, enquanto a família, vendida como ponto de amparo, se revela tirânica e indiferente perante a grotesca transformação do protagonista.
Holland faz das suas obras o rascunho para delinear o estado biográfico da personagem, igualmente entregue aos anacronismos: seja do presente (leia-se contemporaneidade), onde Kafka se transformou em marca, merchandising e lenda turística … mas o escritor era mais do que isso. Como relembra uma das guias, vivia já no terceiro “milénio”, expressão que traduz a mente kafkiana do protagonista, o qual, através de alguns traços quase autistas, parece ser misteriosamente transportado para a modernidade do espectador.
Isso ajuda a compreender a importância de Kafka: um dos raros escritores que, por acidente (segundo consta, o seu amigo recusou cumprir o pedido de destruir os manuscritos e todo o património escrito), se transformou num adjectivo de significados próprios, sinónimo de um estado labiríntico das coisas, um privilégio reservado a muito poucos autores na história da escrita. Mas o retrato do escritor massacrado, amaldiçoado e atormentado pela figura paternal permanece aprisionado nas esquadrias de um filme retalhado, incapaz de acompanhar a dimensão da mente do seu homenageado. Não consegue escapar ao convencional e, mesmo quando tenta deturpar a narrativa biográfica tradicional, tudo soando excessivamente certinho e representativo.
Agnieszka Holland não capta o génio, nem a verdadeira escala da mente kafkiana. Contudo, não sejamos demasiado duros com o gesto: ninguém o conseguiria. Infelizmente… ou felizmente, consoante a perspectiva … Franz Kafka foi único, disruptivo na sua demanda artística. Basta reparar na dificuldade que o próprio, enquanto personagem (interpretado por Idan Weiss, uma verdadeira “cara chapada”), demonstra em nomear um escritor que admire. Kafka é kafkiano. O filme, contudo, não suporta o peso dessa ambição. Agradece-se a tentativa, mas o resultado era, desde o início, inevitável.

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