A notícia caiu entre nós como uma “bomba”… vai acontecer uma cinebiografia de Kafka! Por breves momentos de pânico, apercebemo-nos de que ninguém, no seu perfeito juízo, iria forçar o escritor de “A Metamorfose” e “O Processo” à convencionalidade, tantas vezes boçal, a que o subgénero da biopic se rendeu. Até porque falamos de um autor cuja singularidade no seu tempo, o intelecto e a influência exercida sobre gerações e gerações de escritores, académicos e pensadores o tornaram digno de um adjectivo à sua imagem: kafkiano. Poderíamos, então, esperar um filme sobre Kafka meramente kafkiano?

Contudo, deixemos análises e críticas de lado [poderão lê-las aqui]. A verdade é que a obra existe; tem corpo, alma e mente graças à sua criadora, a veterana realizadora polaca Agnieszka Holland, o qual confessa-se uma kafkiana devota, tendo “conhecido” o escritor na sua tenra idade e o imaginá-lo parte como da sua família.  

A realizadora de “Europa Europa” e “Green Border” conversou com o Cinematograficamente Falando… sobre este mais recente trabalho, a sua relação com o escritor e o lugar de Kafka no mundo de hoje.

Arranco com a ‘pergunta-génese’: como chegou a Kafka, e como chegou a “Franz”?

O Kafka esteve presente na minha vida desde muito cedo. Li “O Processo” pela primeira vez aos catorze anos e fiquei ao mesmo tempo fascinada e em estado de choque (era uma literatura completamente diferente de tudo o que havia lido até então), a partir daí li tudo dele: as cartas, os excertos dos diários, todas as biografias produzidas. Tive a impressão de que o conhecia de verdade, de que havia algo entre nós … talvez uma fantasia de adolescente [risos], só que o imaginava como uma espécie de irmão mais velho.

Depois fui para Praga estudar cinema, o que foi muito importante para mim: era a cidade dele. Fiz muita investigação emocional dos lugares e adaptei “O Processo” (“The Trial”) para a televisão polaca em 1980 (foi uma aventura!). Em 2017 comecei a regressar a Praga por razões de trabalho, e fiquei estupefacta ao ver como Kafka se havia transformado numa marca, num kitsch turístico de enorme dimensão …

Então, essa parte turística, contemporânea, desculpa no seu filme é como uma crítica a esta conversão de marca, ao capitalismo orbitante de Kafka.

Bem, foi mais uma espécie de sátira. Não diria uma crítica, sabes, são eventualidades dignas do nosso tempo.

Mas o paradoxo é notável: Kafka esteve praticamente ausente como escritor da Checoslováquia depois da Segunda Guerra Mundial, e antes da guerra, os checos não tinham particular interesse num escritor judeu e alemão, obscuro, que escrevia ‘coisas’ estranhas. Quando fui a Praga pela primeira vez, em 1967, muito poucas pessoas o haviam lido de facto. Não estava sequer impresso. A sua fama arrancou com a mudança de regime, com a liberdade, e com a tal liberdade de mercado, porque a Checoslováquia estava de uma forma muito staliniana no campo comunista. De repente os checos, que nunca tinham lido Kafka, perceberam que ele era um produto turístico extraordinário. Fiquei curiosa, o que diria ele de tudo isto, se acordasse? Ficaria assustado? Divertido? Acompanhei vários circuitos turísticos guiados, em várias línguas. Alguns guias eram muito factuais e educativos, outros inventavam completamente [risos]. Pensei que seria interessante conectar essa vida depois da morte com a procura do homem real.

Kafka enquanto personagem cinematográfica coloca um desafio particular: o colocar numa narrativa convencional parece uma traição. Quando decidiu fazer este filme, a lógica do biopic tradicional era claramente uma opção fora de questão? Procurou trazer a lógica kafkiana para dentro da própria forma do filme?

Sim, os biopics convencionais são na sua maioria fastidiosos porque passamos a maior parte do tempo a encenar e a dramatizar informação. Quis absolutamente evitar isso. A vida de Kafka era profundamente interior, e essa vida intrínseca expressa-se sobretudo através das palavras: as cartas, os diários, a literatura. Fazer uma biografia dramatizada ao modo convencional seria inútil porque não o encontraríamos nessa forma de narração.

Então procurámos uma narração que nos abrisse a possibilidade de ir ao seu encontro (através de diferentes estilos, meios, situações), e chegámos rapidamente à ideia de um puzzle, de fragmentos, de caleidoscópio. Falámos também em misturar tempos e espaços como na física quântica: cruzamentos, sobreposições. Era uma ideia parcialmente experimental, mas Kafka foi ele próprio um experimento dos deuses … e merecia um tratamento especial.

O actor que interpreta Kafka, Idan Weiss, tem uma semelhança física notável. Era um critério de casting?

Procurava um actor de língua alemã e até estava disposta a procurar um poeta, um músico, alguém que não fosse um actor profissional, se não encontrasse quem exprimisse o que queria mostrar. A sorte foi extraordinária: o primeiro vídeo que a directora de casting me enviou tinha o Idan. Havia outros dois actores muito bons, mas ele capturou imediatamente a minha atenção, e a do produtor.

Não foi só pela semelhança física com Franz, que é de facto importante porque ele se tornou um ícone, uma marca, e essa marca está ligada ao seu rosto, até mesmo as pessoas que nunca o leram sabem como ele era. Mais importante ainda foi o vibe que o Idan transmite: possui essa sensibilidade, essa bondade tímida, algo de levemente ausente, de ligeiramente à margem, de diferente. Ele tem isso dentro de si como pessoa. Não precisei de o dirigir muito porque ele compreendeu Franz não apenas pela leitura, mas por uma espécie de conexão mais profunda.

Há um (nos muitos) mito instalado em torno de Kafka (aliás, existem muitos, mas pronto): o escritor não reconhecido em vida, e a história de que pediu ao amigo que queimasse tudo quando morresse, e que só se tornou célebre postumamente porque esse mesmo amigo o desobedeceu. No filme tentou desconstruir essa “lenda”. Kafka estava muito consciente do que era e do que fazia.

Era absolutamente consciente. Sabia que a escrita era a parte mais importante (talvez a única parte verdadeiramente importante) de si próprio. Era frágil em muitas coisas, mas era forte o suficiente para impor essa actividade mesmo contra as expectativas e as resistências da família.

Teve a sorte de ter um círculo de amigos literários (Max Brod em primeiro lugar, mas outros também) que estavam num nível semelhante de sensibilidade e de consciência de que a literatura era uma nova linguagem. Eles admiravam-no, por isso não era totalmente desconhecido como se “vende” por aí, algumas das suas obras foram publicadas em vida e tiveram alguma recepção entre o público intelectual e a crítica mais culta. Claro que não era o suficiente para viver da escrita, e para a família e para a maioria das pessoas que o rodeavam, era um passatempo inofensivo. Mas algumas pessoas sabiam, e ele sabia.

Encontrei nos diários dele linhas muito reveladoras, por exemplo: “se escrevo uma única frase, é perfeita“, onde havia essa convicção absoluta de que cada frase sua era perfeita. Quando estive em Oxford, onde estava a apresentar o filme e a encontrar-me com académicos, permitiram-me ver os manuscritos originais de Kafka que a família doou à Bodleian Library (cinco ou seis manuscritos importantes e uma parte substancial dos diários). Numa das páginas havia uma secção completamente coberta a tinta negra, borrada de forma intensa, através de raios X e outros meios conseguimos descobrir o que estava por baixo: “não faz sentido que eu seja o ser humano mais inteligente que vive em Praga.” Portanto ele tinha esses momentos de incerteza, esses abismos de dúvida, mas tinha também uma convicção muito forte de que sabia algo, de que o que fazia era especial. Apagou isso, mas estava lá.

Franz Kafka (à esquerda) – Idan Weiss em “Franz” (à direita)

A relação com o pai é um tema central na sua vida e obra (“Carta ao Pai” como “Metamorfose” espelham esse conflito com a “monstruosa” e tirânica entidade paternal). No filme, porém, Holland tenta reabilitar essa figura paterna, principalmente numa crucial cena.

Acredito que o pai era um homem bom. Queria o melhor para a família e para o filho … simplesmente a sua visão do sucesso e da vida era diferente da dele. 

Hermann Kafka [no filme interpretado pelo actor Peter Kurth] era filho de um talhante judeu, e o seu único filho sobrevivente recusava comer carne [risos]. Era uma loucura para ele, não era só a incompreensão da literatura, como também não entendia completamente o que o filho escrevia. Era também o estilo de vida, as escolhas, que ele via como uma espécie de negação aos seus valores, quase como um acto de rebeldia pessoal contra ele. Mas amava-o, com certeza, e ficou devastado quando ele morreu. Aliás, enquanto observava o Kafka-turístico de Praga imaginava qual seria a reacção de Franz se acordasse no meio daquilo, mas sabia muito bem que Hermann Kafka seria o homem mais feliz do planeta. Finalmente o filho era lucrativo! Talvez abrisse uma fábrica de t-shirts, ou uma linha de ímanes, e mais “não sei o quê”.

Uma das principais características da obra de Kafka é a sua codificação dos sistemas do Poder (a burocracia, o aparelho do Estado, a desumanização do indivíduo dentro dos sistemas). São trabalhos profundamente políticos, fora o lado criativo, e acredito que há uma linha directa entre isso e muito da sua carreira, especialmente os filmes sobre a experiência polaca sob o comunismo ou os recentes que olham para a Europa na sua (des)união. Na abertura do Mostra Polska, foi mostrado um vídeo seu em que declarava “Franz” como o seu filme mais pessoal, portanto, como se relaciona o Kafka consigo, nessa questão do Poder?

A leitura de Kafka depende sempre do tempo histórico em que se vive. O que ele escreveu entre 1915 e 1920 (a alienação, a burocracia, a máquina da lei desumanizada e arbitrária) tornou-se profético depois da Segunda Guerra Mundial. Para as pessoas que sobreviveram ao Holocausto, às câmaras de gás, ao desprezo absoluto pela identidade do ser humano individual diante da máquina que o esmaga, o que Kafka havia descrito era de repente uma realidade literal. Depois da guerra era óbvio de que falava.

Depois houve um longo período em que a sua obra pareceu menos relevante, menos actual, as pessoas buscavam nela algo mais pessoal, filosófico e existencial. Agora, infelizmente, voltámos a viver um tempo em que o tema primário regressa com toda a força. Vivemos numa época em que a autoridade do Estado e da lei deixou de funcionar como devia, em que há pessoas que administram a lei de forma inteiramente arbitrária, e a alienação do indivíduo está cada vez mais intensa, há a consciência de que ele pode ser privado dos seus direitos com a maior das facilidades, não só nos regimes totalitários, mas também nas democracias, que começam a ter essa deriva.

Lembro-me de que quando Donald Trump foi eleito (a da primeira vez), estava a observar as listas de bestsellers da Amazon nos Estados Unidos. O primeiro no topo era Orwell com o seu “1984”, em segundo era Philip Roth com “A Conspiração contra a América, e Kafka surgia a seguir, estava a ser muito procurado graças ao “O Processo”. De repente, obras que eram consideradas grandes clássicos voltaram à superfície porque estavam a falar directamente ao presente. Isso diz tudo sobre a permanência de Kafka.

Para terminar esta conversa … novos projectos?

Disse a mim própria que não iria fazer mais filmes biográficos [risos]. Porém, tenho de momento, dois projectos sobre artistas reais que já não estão entre nós. Por isso, provavelmente vou fazer um deles, ou os dois … quem sabe? Depende do financiamento, do casting, e de muitas coisas. Estou no meio do processo de tentar montar tudo isso. É ainda demasiado cedo para falar.

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