1978. O escritor William S. Burroughs retoma aos Estados Unidos depois de vinte anos errante entre a América Latina, o Norte de África e a Europa, motivando à criação da lendária Nova Convention, um encontro entre vários artistas no East Village [Nova Iorque], como Frank Zappa, Laurie Anderson, Patti Smith, Philip Glass e outras figuras da (contra)cultura. O documentário “Nova ’78” parte dos registos captados por Howard Brookner (contando com o jovem Tom DiCillo e Jim Jarmusch na fotografia adicional e no som), durante muito tempo em parte incerta, agora redescobertas e trabalhadas por Rodrigo Areias e Aaron Brookner (sobrinho de Howard Brookner), com a sonoridade de The Legendary Tigerman, afirmando-se, acima de tudo, como uma cápsula temporal.

A tentação inicial é olhar para o filme como curiosidade histórica, nem que seja pelo evento em si, como também em ver William S. Burroughs comentar a sua actualidade – , desde a situação política no Irão (pré-Revolução Iraniana) até aos discutidos projectos de lei anti-queer e anti-minorias, ora em tom confessional e frontal nos bastidores do evento, ora em registo performativo perante uma plateia que aplaude os seus manifesto floreado e irónico. Mas fora esse intuito, existe, mais do que um filme, uma vontade: a de procurar um novo movimento, como se aqueles dias servissem para testar a possibilidade de um, algo capaz de redefinir a década que se aproximava ou o próprio futuro. Portanto discutem-se ideias, gestos e experimentalismos, sendo que cada um dos intervenientes traz consigo uma bagagem cultural e contracultural em exposição e na sua testificação. 

William S. Burroughs

Se William S. Burroughs (“Naked Lunch”, Junky”, “Queer”) foi um dos nomes centrais da chamada geração Beat, cujos sopros se transformaram em ventos nas mais diversas áreas, da música à literatura e ao cinema, neste último caso a Nova Hollywood que colheu muitas dessas sementes, alimentada por uma indústria que, durante algum tempo, encontrou rentabilidade no desencanto, na Guerra do Vietname, na desconfiança perante as instituições e na falência de uma promessa americana. Como sempre, seguindo a “ordem natural do Mundo”, capital e capital é o que vence e a rebeldia encontrou o seu mercado. 

Em 1978, contudo, era identificável uma certa decadência artística, acompanhada por movimentações e vagas semelhantes. Convenções como esta, para lá do “espectáculo” resolvido e a sua elegia (por vezes o néctar dos artistas conformados), revelavam também uma procura na ruptura, e com isto um tentativa de produzir, entre intervenções e performances, a arte enquanto espaço de diálogo, para além da criação em si, uma forma de estabelecer contacto com o público e abrir a possibilidade da tal e cobiçada descoberta. Vaga? Qual seria a próxima?

Olhando em retrospectiva, a resposta é melancólica, os seguintes anos 80 não ficaram propriamente famosos por essa colheita, nem os posteriores. Pequenos fogos consumidos pouco tempo depois, até chegarmos ao presente, à imensidão do abrupto, do imediatismo, do neocapitalismo a provar ser a nossa lide. A arte, e a cultura que a acompanha, continua a existir, mas chega-nos mais rarefeita, perdida na palha, à espera de ser encontrada por quem ainda tem olhos para ver.

Frank Zappa

No fim de contas, tudo regressa àquela leitura de Zappa de um dos seus excertos favoritos de “Naked Lunch” de Burroughs (e aproveito a deixa para sugerir: vejam o filme de Cronenberg, uma adaptação febril e requintada), sobre um homem que aprende ventriloquia pelo cu e, performance após performance, o traseiro adquire personalidade, voz, vontade própria, até reclamar, por fim, os seus direitos … profundamente burroughsiano. Podemos lê-lo de muitas maneiras, mas talvez também sirva para esta nossa procura: movimento gera outro movimento, até o próximo ganhar os seus dentes … do siso, talvez.

Deixe um comentário

Outras leituras