Prólogo: no Ártico profundo o vampiro de Ellesmere analisa as narrativas humanas. Por vezes discute telepaticamente com o intelectual vampiro de Svalbard.
O vampiro de Ellesmere achou muito estranho que fosse ele a atualizar o sensei de Svalbard sobre as intempéries da nova geração. Olhou para a escuridão e o nevoeiro e pensou que o seu interesse relativo nas novidades humanas ainda o melhor qualificava que qualquer outro vampiro do Clube de Leitores do Ártico, exceto talvez pelo vampiro DJ de Nova Zembla, a tentar entender certas transformações modernas.
Então começou por uma pergunta inútil: que diria Truffaut de “Backrooms”? Obviamente não o estava a chamar de imobilista, mas Truffaut tinha desaparecido já há muito tempo e representava uma certa perspectiva muito influente da via artesanal e humanista da crítica cinematográfica. Por outras palavras, que pensaria ele se o youtuber Kane Parsons fizesse uma versão de “400 Golpes” baseado em efeitos visuais criados inicialmente num MSI Raider GE76 (interessa aqui apenas saber que é um portátil potente…) com um “software” gratuito (Blender) e outro de correções e efeitos na pós-produção (Adobe After Effects) e isso surgisse como uma obra representativa das novas gerações? Pensaria ele que a fisicalidade do mundo da rua se tinha perdido?
Mark tinha 17 anos quando inventou o primeiro da série de vídeos virais que intitularia “Backrooms”. Agora, patrocinado pela toda-poderosa A24 para transformar em filme, ele tem 20. E o que tem para contar um pirralho de 20 anos? Com o apoio de não menos de uma dezena de empresas de efeitos visuais associadas ao projeto, Parsons manipula os movimentos de câmara dentro de um conceito Val Lewtiano de ameaças invisíveis de sombras e estímulos falsos – coroando o passeio arquitetónico com um exuberante desenho de som.
Mas há algo mais esperto: para transformar videos curtos baseados em “found footage” e jogos FPS sem maiores devaneios num filme, Parsons, possivelmente através do argumento escrito por um autor indicado pela A24 (Will Soodik), tem efetivamente uma ideia que sustenta o enredo: “as melhores vias são as neurais”.
Quer isso dizer que a psicóloga e autora de livros Dra. Mary Kline (personagem vivida por Renate Reinsve, dos filmes de Joachim Trier), que escreveu “A Janela Interior”, dá a pista enquanto tenta resgatar o seu paciente Clark (Chiwetel Ejiofor) do labirinto: os corredores amarelos são provavelmente um simulacro de um cérebro humano. A grande máquina modeladora do real é mais ou menos isso: uma brutalidade de circuitos que geram imagens distorcidas, cacofonia, objetos sem sentido e fora de lugar, velharias e, nos piores momentos, monstros extraídos dos nossos mais fundos recônditos.

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