“Pelo que entendi através do filme, você é uma pessoa muito tímida.” Alaíde Costa acena afirmativamente a cabeça, como se lhe tivesse acabado a constatar a mais absoluta das verdades. “Mas não se preocupe, vou ser breve. Gostaria de conversar sobre este filme, que, em certa medida, a representa.” A poucos minutos de subir ao palco do BOTA, em Lisboa, para um concerto num intimista auditório, Alaíde preparava-se no seu camarim para mais um ‘holofote’. Jogava-se o Portugal-Espanha do Mundial lá na “gringolândia”, mas, ainda assim, gente suficiente para encher a sala acumulava-se à porta do espectáculo. Não é todos os dias que se tem a oportunidade de assistir à nonagenária cantautora da Bossa Nova (e 70 anos de carreira) na capital, depois da passagem por Guimarães, a cidade-berço de Portugal, no Festival MIMO precisamente.
Contudo, Alaíde não estava sozinha nesta conversa ao Cinematograficamente Falando…. A realizadora Liliane Mutti juntou-se ao encontro. A razão? Há um filme a estrear nas salas, com Alaíde no centro de uma biografia que cruza ficção, arquivo e animação, culminando na sua grande noite. “A Noite de Alaíde” poderia limitar-se a esse momento específico: o meritório concerto no Carnegie Hall, em 2023, onde a lenda actuou num dos últimos grandes momentos da sua carreira. Mas uma noite faz-se também de madrugadas, manhãs e tardes até chegar a si, e, naquele preciso instante (o tempo em que esta entrevista se desenrola), a noite ainda era outra, desfeita pelas leis do Verão português, quando a luz permanecia nesse estado de graça tardio. Daqui a poucos minutos, Alaíde subiria ao palco, acompanhada por Cristóvão Bastos e Mauro Senise. The show must go on!
Fiquemos, porém, pelo aquecimento: a conversa propriamente dita. Três pessoas à mesa, testemunhando a timidez de Alaíde e, em igual medida, a devoção de uma realizadora determinada em devolver à sua estrela o lugar que sempre lhe pertenceu. A história de Alaíde contada, recontada e dignificada.
Como surgiu este projecto, ou melhor como foi o encontro inicial entre a Liliane e a Alaíde?
Liliane Mutti: Primeiramente, vivo da música! Sou documentarista e realizadora, e a música foi sempre um dos meus grandes interesses. Há uns catorze… talvez quinze anos… chegou até mim a história da Miúcha, que foi casada com o João Gilberto. Quando lancei esse filme, senti que alguma coisa tinha ficado por completar. Parecia-me que a história da Bossa Nova não estava devidamente contada. Faltavam, claramente, algumas peças.
Na minha vitrola, sempre ouvi Alaíde Costa e Johnny Alf e, por isso, fui reflectindo sobre a grande questão em torno da Bossa Nova. Crescemos todos a ouvir, ou a interiorizar, que este estilo musical nasceu na Zona Sul do Rio de Janeiro; pelo menos, essa sempre foi a narrativa oficial. Mas a Alaíde é uma artista oriunda dos subúrbios, o que, de certa forma, faz dela uma figura disruptiva. Isso mostra que a história oficial da Bossa Nova não é exactamente aquela em que fomos levados a acreditar. Foi essa perspectiva que despertou o meu interesse.

Só que não conhecia a Alaíde. A Miúcha, sim, conhecia-a, porque é tia do meu marido e eu frequentava aquele círculo. Já a Alaíde, como disse, estava um pouco à margem desse meio e vivia em São Paulo. Entretanto, chegou-me às mãos uma biografia, “Faria Tudo de Novo”, do Ricardo Santhiago. Devorei-a. Tornou-se automaticamente o meu “livro de cabeceira”. Entretanto, fui a São Paulo por causa de outros trabalhos e, através de um amigo historiador, consegui chegar ao Ricardo. Almoçámos no bairro da Liberdade, propus-lhe adaptar o livro ao cinema e ele aceitou. Quando o filme estava praticamente pronto, achei que tinha chegado o momento de o mostrar à Alaíde. Ela podia gostar… ou não gostar, e nós teríamos de lidar com a reacção dela; não havia como fugir a isso.
Nessa altura estava em Paris e pedi a amigos, em São Paulo, que organizassem uma sessão em petit comité. Conseguiram convencer a Alaíde a ir, apesar de eu não estar presente. Porquê? Numa resposta fria e objectiva, porque estava fora da cidade. Mas, sendo muito sincera… porque estava cheia de medo. [risos]
Com medo de quê, exactamente?
LM: Com medo de ela não gostar. Quando fazemos uma cinebiografia, a pessoa retratada tem todo o direito de não se rever no filme. No caso de “A Noite de Alaíde”, trata-se de uma fabulação, há actores, há animação e há uma parte imaginada a partir da biografia. É um filme assumidamente aberto.
Como disse, não estava nessa sessão. A Alaíde viu o filme e disse uma coisa que me tocou profundamente. Para mim, foi como receber um sinal verde… e aqui estamos.
Alaíde Costa: O meu negócio é chegar lá e cantar. Fiquei muito emocionada, muito feliz, muito grata por ela ter contado a minha história para vocês.
Nessa sessão o filme ainda estava incompleto, certo?
LM: Estava montado, mas ainda não estava finalizado. A pós-produção ainda não tinha sido feita; concluímo-la mais tarde, em Paris.
Com a aceitação da Alaíde, o que é que mudou no projecto? O que é que ainda faltava fazer?
LM: Ela sugeriu alguns ajustes. O [Ricardo] Santhiago também, até porque trabalha com ela e é muito rigoroso em relação a determinados pormenores). A equipa dela tornou-se muito colaborativa para com o filme. O próprio Ricardo foi procurar uma fotografia ou outra de que já nem se lembrava onde estava. O grande desafio deste filme foram os arquivos. Queria muito centrar a narrativa nos anos 40 (a Alaíde nasceu em 1935 e, assim, conseguia mostrar a sua infância. Havia também uma motivação muito pessoal: os meus filhos diziam-me constantemente: “Mãe, só fazes filmes para adultos.” Eles estavam a crescer muito depressa.

Mas havia muita dificuldade em conseguir arquivos, muitas portas fechadas. Quando estava com a “mão na massa”, a Cinemateca Brasileira ardeu. O Ministério da Cultura deixou de existir. A extrema-direita chegou e transformou a cultura numa terra devastada, e, no que toca aos arquivos e à preservação (que são um dos elos mais frágeis dessa cadeia), são sempre os primeiros a ser atingidos. Porque o arquivo fica ali guardado, sem supervisão. Se desligamos o ar condicionado, aquilo começa a deteriorar-se.
Então encontrava um recorte de jornal, uma entrevista na TV Cultura (a televisão pública de São Paulo, com belíssimos arquivos da Alaíde e do Johnny Alf), mas isso não chegava para uma longa-metragem. Foi aí que me apaixonei pela criança que a Alaíde foi. Há uma história de que gosto muito: o irmão marca-lhe uma actuação num circo sem lhe dizer nada. Ela não quer ir, com medo de “apanhar” da mãe. Então ele olha para ela e diz: “Se tu não fores, a polícia vem buscar-te.” [risos]
AC: Então fui marcar presença lá [riso].
LM: Ela acaba por ir a essa apresentação e ganha, porque havia um prémio. Acho isso tão cinematográfico: imaginar um irmão a fazer uma coisa dessas pela irmã, esse vínculo entre os dois! Foi aí que cheguei a um ponto em que pensei: e agora, como é que defino este filme? É animação? É ficção? É documentário? É um filme de arquivo? Acho que é, simplesmente, o filme da Alaíde, porque é isso que a história dela pede.
E sobre estas cenas ficcionadas ou fabuladas, sentiu que estavam coerentes com a sua história, Alaíde? Ou havia coisas que preferiu que ficassem de fora?
AC: Acho que está correto. Algumas coisas, de repente, passaram também que ela não tinha como adivinhar, mas aquelas histórias que não valiam a pena contar (do Caetano, da Elis) essas ficaram de fora. Eu pedi muito ao Ricardo: deixa a vida pessoal de lado, só fala da artista. Quando digo que “comi o pão que o diabo amassou”, não foi só na profissão, foi fora dela também. Fez um filme muito lindo [dirigindo-se a Liliane]. Estou muito grata a você.
LM: Há momentos muito à Nelson Rodrigues, aqueles dramas profundamente humanos, mas estão apenas sugeridos. Nós não… Há ‘coisas’ cuja mensagem passa só por estar ali: no momento em que ela pega nos miúdos ou quando se olha ao espelho com aquele vestido de noiva. Há momentos muito fortes, muito dramáticos, e outros mais literais, como quando enfrenta o problema de saúde que afecta a audição. Aí, sim, está tudo mais contado, mais pormenorizado. Os segredos não foram revelados, mas também não foram esquecidos: nem uma coisa nem outra. Estão apenas sugeridos. A imaginação continua livre.
Sobre as cenas ficcionadas do ponto de vista estético, há uma estetização muito curiosa, uma espécie de animação com um padrão colorido que se vai alterando. Como foi feito?
LM: Trabalho com a técnica da rotoscopia, que consiste em desenhar por cima da imagem dos actores em live action. Os actores representam e, depois, nós pintamos e desenhamos sobre essas imagens. Existem duas formas de o fazer: a manual e a digital. Fizemos esse trabalho em França com um animador chamado Guilherme Hoffmann, de Marselha, e optámos pela versão digital porque, se fosse manual, precisaríamos de muito mais tempo. A Alaíde completou 90 anos em Dezembro e era importante conseguir oferecer-lhe este presente na altura certa.

A ideia era que cada emoção e cada cena tivesse uma cor diferente: as cenas tristes, alegres ou dramáticas têm paletas próprias. A animação não ocupa o filme inteiro porque gosto dessa fricção, desse hibridismo. Já se fez tanta coisa no cinema que o grande desafio é tentar encontrar algo que ainda não tenha sido necessariamente pensado dessa forma. É só isso.
A trajectória da Alaíde é, em muitos aspectos, uma história de não-reconhecimento, e o filme quase termina quando ela chega ao Carnegie Hall, numa espécie de revanchismo. Uma das críticas que sempre lhe apontaram, e o filme faz questão de sublinhar, é o de não ter um ‘vozeirão’. Para ser sincero é algo que critico muito, inclusivamente nestes programas de talentos: a ideia de que só quem tem o tal ‘vozeirão’ é automaticamente um bom interprete. O filme tem também esse lado de resgatar a Alaíde de uma sombra injusta.
LM: Olha, no português do Brasil usamos muito a palavra “reparação”. Revanchismo dá a ideia de que se está a querer ajustar contas, retribuir na mesma moeda, e esse não é, de todo, o tom do filme. Nem acredito que seja esse o caso da Alaíde. O que acontece é que o mundo dá voltas, e até cambalhotas. A Alaíde chega aos 90 anos a acumular este reconhecimento, as viagens pela Europa, o filme, a série de discos… É quase como se a própria história nos estivesse a dar uma lição.
Considero a Alaíde uma grande heroína, sobretudo por uma questão que diz muito a nós, mulheres: ela quebra o último tabu do feminino, que é o idadismo. Aos 90 anos, sobe ao palco e diz exactamente o que pensa. E há outra questão, que é a da voz. A voz muda, ganha tonalidades diferentes. Ao longo da carreira, ela soube reconhecer os seus pontos fortes, o seu talento, e construiu a partir daí um percurso muito consciente. Foi uma concepção de carreira da própria Alaíde. Ela não é apenas uma intérprete: pensou a sua carreira, escolheu o seu repertório, compõe e toca piano. E, aos 90 anos (volto a dizê-lo), é a melhor resposta possível ao idadismo.
Alaíde, quer acrescentar algo?
AC: Eu falo pouco. O meu negócio é subir ao palco e cantar, falar para mim é um tormento. Mas agradeço mais uma vez à Liliane por este momento.
E para terminar, quanto a novos projetos? A pergunta é para ambas?
AC: Óbvio que estou. Gravei dois álbuns com produção do Emicida e do Marcos Preto. Quando o Emicida me propôs trabalharmos juntos, pensei: “Ele é um moço muito inteligente, não vai me jogar numa fria.” E deu super-certo. Agora estou gravando o terceiro disco. Os compositores vão me mandando as músicas. Tem música do Francisco Raim, da Joyce, do Guilherme Arantes… de muita gente.
Ao mesmo tempo, realizei um sonho antigo: fazer uma homenagem à Dalva de Oliveira. Ela tinha uma extensão vocal enorme, que eu não tenho. Eu sou médio-soprano; ela era soprano mesmo. Mas ela passava muita emoção, e eu aprendi muito com ela. Porque, sem emoção, não tem graça. Cantar as canções que eu canto sem emoção… não tem graça.
LM: O importante é que o filme vem junto com a voz e a presença da Alaíde — Paris, Guimarães, agora Lisboa. É um presente mutuo.

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