De uma década concretizada vem o cinema! O Festival MIMO celebra dez anos de existência e, desse percurso, surge mais um “filho”: o Festival MIMO de Cinema. Com a cidade de Guimarães tomada pelo ritmo, numa cadência que transcende palcos e telas, emerge um cinema alimentado por notas musicais, pelos artistas e as suas canções de vida, com os holofotes apontados a estilos, vozes e cantautores.

É um MIMO! Apetece dizê-lo, entre as projecções e a vontade de bater o pé, mas não estamos aqui para cantarolar velhos êxitos; e sim para dar a conhecer aquilo que nos promete entre 27 de Junho e 2 de Julho, na cidade-berço portuguesa.

O Cinematograficamente Falando… desafiou Gabriela Carriço, co-curadora do festival (ao lado de Lu Araújo), a responder sobre a natureza deste encontro e a bailado que o sustenta: afinal, o que é o Festival MIMO de Cinema? Venham daí…

O MIMO sempre teve uma relação forte com a música, mas este ano dá um passo mais assumido para o cinema. Porque é que este era o momento certo para criar um Festival MIMO de Cinema? Sentiram que havia uma lacuna na experiência do festival ou foi uma evolução natural

O MIMO sempre foi um festival de experiências culturais e nunca se limitou exclusivamente à música. Ao longo dos anos, incorporamos diferentes linguagens artísticas. O cinema surge como uma evolução muito natural desse percurso. Sentimos que este era o momento certo porque o audiovisual ocupa hoje um lugar central na forma como contamos histórias, preservamos memórias e promovemos o diálogo entre culturas. Criar o Festival MIMO de Cinema permite ampliar essa conversa e reforçar aquilo que sempre esteve no ADN do MIMO: aproximar diferentes expressões artísticas e torná-las acessíveis ao público.

Não diria que existia uma lacuna, mas sim uma oportunidade. O cinema acrescenta uma nova camada à experiência do festival, prolongando o tempo de fruição, criando novas possibilidades de encontro entre artistas e público e oferecendo um espaço privilegiado para a reflexão e o debate sobre temas contemporâneos. Mais do que uma mudança de rumo, esta é uma expansão orgânica daquilo que o MIMO sempre foi: um festival que promove cruzamentos entre linguagens, territórios e pessoas.

A programação parece apostar em documentários musicais que funcionam quase como extensão da programação de concertos. O objetivo é preparar o público para os artistas que vai ver em palco ou criar uma experiência autónoma que possa existir independentemente da música ao vivo?

As duas dimensões coexistem e complementam-se. Há filmes que enriquecem a experiência de quem depois vai assistir aos concertos, oferecendo contexto sobre os artistas, os seus processos criativos ou os universos culturais de onde emergem. Isso cria uma ligação mais profunda entre o público e a programação musical. Mas o Festival MIMO de Cinema foi pensado para ter uma identidade própria. A seleção não depende exclusivamente dos concertos e procura afirmar o cinema documental como uma linguagem artística autónoma, capaz de gerar reflexão, emoção e debate por si só.

O que nos interessa é criar pontos de encontro entre diferentes formas de expressão. Em alguns casos, um filme prolonga a experiência de um concerto; noutros, desperta a curiosidade para descobrir um artista ou uma realidade que o público ainda não conhece. Essa circulação entre linguagens faz parte da identidade do MIMO e é precisamente aí que acreditamos que acontece uma experiência cultural mais rica e completa.

A Noite de Alaíde (Liliane Mutti, 2025)

Há várias estreias nacionais e muitos títulos fora do circuito comercial. Num contexto em que hoje temos acesso quase ilimitado a conteúdos através das plataformas, o que é que continua a justificar o papel de um programador e de um festival como mediador cultural?

Hoje temos acesso a uma quantidade praticamente infinita de conteúdos, mas isso não significa necessariamente maior diversidade de escolhas. Muitas vezes, os algoritmos tendem a reforçar aquilo que já conhecemos e a limitar a descoberta. É precisamente aí que a curadoria ganha relevância. O papel de um programador é estabelecer relações, criar percursos, contextualizar obras e propor encontros inesperados. Num festival, cada filme faz parte de uma narrativa maior, dialoga com os restantes títulos, com a música, com o património, com a cidade e com o público. Essa experiência dificilmente pode ser replicada por uma plataforma de streaming.

Além disso, um festival assume também uma responsabilidade cultural: dar visibilidade a obras que muitas vezes ficam fora dos circuitos comerciais, apoiar novos olhares, promover estreias e criar espaço para o encontro entre realizadores, artistas e espectadores. Não se trata apenas de ver um filme, mas de vivê-lo num contexto de partilha e de reflexão coletiva.

No MIMO Guimarães, acreditamos que a curadoria é um convite à descoberta. Mais do que selecionar conteúdos, procuramos criar experiências significativas e ampliar o acesso a diferentes culturas, narrativas e formas de expressão. É essa mediação — humana, consciente e sensível — que continua a fazer toda a diferença.

Chama a atenção o peso do Brasil nesta seleção, não apenas pelos artistas retratados, mas também pela ideia de memória, resistência e reconhecimento tardio. Foi uma coincidência temática ou houve uma intenção de olhar para determinadas narrativas culturais neste momento?

Há, sem dúvida, um diálogo entre essas obras, mas ele surge muito mais da curadoria do que de uma intenção de privilegiar um determinado país. O Brasil tem uma produção cinematográfica muito rica, especialmente quando cruza música, memória e identidade cultural, e isso acabou por estar muito presente nesta edição. Mais do que uma coincidência, interessou-nos reunir filmes que falam sobre artistas que marcaram a cultura dos seus países e sobre histórias que, por diferentes razões, nem sempre tiveram o reconhecimento ou a visibilidade que mereciam. São narrativas que abordam a memória, a resistência e a transmissão cultural, mas que também dialogam com questões muito contemporâneas.

O MIMO sempre procurou construir pontes entre diferentes geografias e tradições culturais, e o Brasil faz parte dessa história desde a origem do festival. Nesta programação, essa presença reflete-se naturalmente, mas o critério nunca foi a nacionalidade das obras. Foi a sua capacidade de provocar reflexão, emoção e criar ligações com os temas que atravessam esta primeira edição do Festival MIMO de Cinema. No fundo, o que nos interessa é apresentar filmes que ampliem o olhar do público e mostrem como a cultura, em diferentes contextos, é também um instrumento de preservação da memória, de afirmação identitária e de diálogo entre comunidades.

O MIMO fala muito de cruzamento entre linguagens. Na prática, como é que se evita que o cinema seja apenas um “satélite” da música e consiga afirmar-se como uma programação com identidade própria dentro do festival?

Esse foi precisamente um dos princípios que orientou a construção desta programação. Embora existam pontos de contacto entre a música e o cinema, a nossa intenção nunca foi que o cinema funcionasse como um apêndice dos concertos, mas sim como uma linguagem com capacidade para gerar a sua própria experiência e o seu próprio diálogo com o público. A identidade do Festival MIMO de Cinema constrói-se através da curadoria, da qualidade das obras, das estreias, das conversas e dos temas que os filmes levantam. Há documentários musicais, naturalmente, porque dialogam com a história do MIMO, mas também há um olhar mais amplo sobre questões como a memória, a criação artística, a identidade e a diversidade cultural.

O que procuramos é que cada programação tenha autonomia e, ao mesmo tempo, converse com as restantes. É essa lógica de cruzamento que caracteriza o MIMO: as diferentes linguagens não competem entre si nem se subordinam umas às outras; enriquecem-se mutuamente. Quem vem pela música pode descobrir o cinema, quem vem pelo cinema pode aproximar-se da música, e ambos encontram uma experiência cultural mais ampla, construída a partir dessas conexões.

Filhos do Meio – Hip Hop à Margem (Luís Almeida, 2025)

Há filmes apresentados por realizadores, produtores e até protagonistas. Até que ponto esse encontro presencial altera a forma como o público recebe os filmes? Hoje um festival compete mais pela curadoria ou pela criação de contexto?

Acredito que hoje um festival se distingue precisamente pela capacidade de criar contexto. A curadoria continua a ser essencial, porque é ela que define a identidade da programação e estabelece um olhar sobre as obras. Mas esse olhar ganha outra dimensão quando é acompanhado pelo encontro entre quem faz os filmes e quem os vê. Ter realizadores, produtores e protagonistas presentes transforma a experiência de forma muito significativa. O público deixa de ser apenas espectador e passa a participar de uma conversa, compreendendo melhor os processos criativos, as histórias por detrás das obras e os contextos em que elas foram produzidas. Essa proximidade cria uma ligação mais profunda com os filmes e faz com que a experiência continue para além da sessão.

Num momento em que podemos assistir a quase tudo em casa, aquilo que um festival oferece é precisamente o que não pode ser reproduzido numa plataforma: a experiência coletiva, o diálogo, a troca de perspectivas e o encontro entre artistas e público.

No MIMO, acreditamos que esse contexto faz parte da própria obra. O filme não termina quando aparecem os créditos; ele prolonga-se nas conversas, nas perguntas, nos encontros e nas reflexões que surgem a partir daí. É essa dimensão humana e partilhada que faz do festival um espaço vivo de descoberta, de aprendizagem e de construção de comunidade.

Ao incluir obras que normalmente ficam fora dos circuitos comerciais, existe também uma dimensão política nesta programação? 

Toda a curadoria envolve escolhas e, nesse sentido, existe sempre uma dimensão de posicionamento. Mas o nosso objetivo é criar espaço para a diversidade de narrativas, de geografias e de formas de olhar o mundo. Ao incluir obras que habitualmente não chegam aos circuitos comerciais, estamos a ampliar o acesso a filmes que, muitas vezes, têm grande relevância artística e cultural, mas menos oportunidades de circulação. Essa é uma das funções de um festival: revelar novos autores, dar visibilidade a diferentes perspectivas e estimular o diálogo.

Mais do que tomar uma posição, interessa-nos criar um espaço onde diferentes histórias possam ser vistas, discutidas e partilhadas. Acreditamos que a cultura tem essa capacidade de aproximar pessoas, provocar reflexão e abrir novas formas de compreender a realidade.

É esse compromisso com a pluralidade e com a descoberta que orienta a curadoria do MIMO de Cinema.

Guimarães estreia-se como cidade do MIMO precisamente num ano em que o festival celebra 10 anos em Portugal. O que é que esta cidade permite fazer (em termos de relação entre património, espaço público e experiência cultural) que talvez não fosse possível noutro contexto?

Guimarães oferece um contexto muito especial porque o património não funciona apenas como cenário, mas como parte integrante da experiência cultural. É uma cidade onde a história está presente no cotidiano, nas ruas, nas praças e na forma como as pessoas vivem o espaço público. Isso permite que o MIMO crie uma relação muito orgânica entre artistas, público e cidade. Ao ocupar estes espaços patrimoniais, o festival convida as pessoas a redescobrir a cidade através da cultura, promovendo experiências de proximidade e de encontro que dificilmente acontecem em recintos convencionais. Há uma dimensão de descoberta, tanto para quem visita como para quem vive em Guimarães.

Além disso, Guimarães tem uma forte identidade cultural e uma tradição de valorização do património, o que dialoga naturalmente com a missão do MIMO de democratizar o acesso à cultura e transformar o espaço público num lugar de partilha, convivência e criação artística. A estreia da cidade no ano em que o festival celebra dez anos em Portugal simboliza também um novo capítulo dessa relação entre território, memória e inovação cultural.

Toda a programação poderá ser consultada aqui

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