Depois de terem dado asas à imaginação do jovem Youri (Alséni Bathily), desejoso de ser Gagarine, o astronauta russo, no filme homónimo de 2020, ano em que a obra foi seleccionada para um Festival de Cannes fantasma (por razões óbvias), a dupla Fanny Liatard e Jérémy Trouilh regressa ao espaço, não ao das estrelas e de outros sistemas, mas ao do imaginário, para contar mais uma história de jovens fora da órbita social, dos marginalizados, por assim dizer.
Estamos agora nas Landes, nas paisagens protegidas do sudoeste de França, habitat provisório de aves migratórias, nomeadamente dos grous, pernaltas que chegam em bandos imensos com o propósito de acasalar. Como um grou, Chaya vive fascinada pelo desejo de voar. Criança iraquiana, vê o pai e o irmão lutarem para conseguir a cidadania francesa, tentando fazer valer a sua história de vida, mas o sistema está longe de ser compreensivo, e Chaya terá de enfrentar a possibilidade de ficar sozinha ou de regressar a um lugar que já não pode chamar casa. Talvez seja nesse desejo de voar, de migrar sem o peso das fronteiras, que encontre o seu sonho mais íntimo.
“Les Yeux Verts” marca o regresso da dupla e tem a honra de abrir o Festival de Locarno de 2026, na Piazza Grande. Promete ser um filme de empatia, numa época em que esta é cada vez mais encarada como uma fraqueza humana. O Cinematograficamente Falando… falou com os realizadores na véspera da estreia mundial do filme.
Normalmente começo as conversas a perguntar a génese, ou de onde surgiu a ideia do filme, contudo, neste caso não pude deixar de notar as imensas ligações que “Les Yeux Verts” tem com o vosso anterior “Gagarine”: dois filmes em que as duas personagens, crianças marginalizadas, que tentam escapar da realidade que lhe és ingrata através de algo onírico e escapista, o cenário envolto deles metamorfoseia em prol da sua imaginação. Reconhecem essa continuidade?
Jérémy Trouilh: Há muitas ligações entre os dois filmes, sim. Ambos têm raízes numa realidade social, decorrem num território que se torna personagem e, em ambos, existe esse equilíbrio entre a realidade de onde vimos e a magia impulsionada pelo ponto de vista da personagem principal. Esse equilíbrio representa, para nós, uma certa forma de resiliência num mundo por vezes muito difícil. Nesse sentido, os dois filmes são talvez fábulas e, ao mesmo tempo, falam do mundo real.

Fanny Liatard: Em “Gagarine” e em “Les Yeux Verts” dirigimos dois jovens (um adolescente em “Gagarine” e uma criança em “Les Yeux Verts”). Gostamos muito de contar estas histórias porque acreditamos que os adolescentes e as crianças têm um espaço de imaginação enorme e, por isso, conseguem enfrentar a violência do mundo de uma forma que os adultos, por vezes, não conseguem, ou enfrentam-na de modo diferente. Interessava-nos muito esta jornada de uma criança confrontada com uma decisão muito política, muito dura, mas que encontra nos sonhos uma forma de lutar e no amor pelo irmão outra fonte de força. Nos dois filmes, o ponto comum é a ausência dos pais e para nós, essa ausência simboliza a ausência do Estado, do governo, uma autoridade invisível com impacto na vida das crianças.
Continuando em “Gagarine”, recordo que o edifício transforma-se visualmente, sonoramente e metaforicamente numa nave espacial na imaginação do rapaz. Aqui, o pântano das Landes torna-se um espaço onírico e um labirinto onde Chaya procura o irmão. Podemos dizer que é uma estética muito vossa: esse real transfigurado.
FL: Para nós, o ponto de partida de qualquer trabalho é o território. Em “Gagarine” e nas curtas anteriores, o ambiente era sempre muito urbano: bairros, cidades, já em “Les Yeux Verts”, foi uma experiência nova em termos paisagísticos. O que não era novo era a forma de trabalhar essa paisagem e usá-la como personagem. Descobrir esta pequena aldeia no sudoeste de França foi extraordinário. Era, por si só, um território de conto: um farol no meio dos pinheiros e dos rios, o oceano, e, no inverno, a areia a cobrir as ruas da aldeia.
Era essencial transformar este lugar numa personagem e desenvolver a nossa reflexão sobre como este sítio pode ser um paraíso para as crianças, mas também o pior trauma quando começa a ser coberto por água negra. Volta a ser a questão de olhar para a realidade de outro modo: através do olhar da Chaya. Como, quando está sozinha, sem o pai e o irmão, a sua realidade cobre e transforma o mundo à sua volta.
Há um elemento visual muito pregnante no filme: os grous, essas aves migratórias que dialogam com o estatuto da família da Chaya, também migrante, ou diria até refugiada. Como surgiu essa ligação?
JT: Apaixonámo-nos pelo mistério dos grous porque atravessam exactamente o território que escolhemos. A floresta das Landes, no sudoeste de França, é um dos lugares por onde passam e onde, por vezes, permanecem durante algum tempo. Durante a nossa pesquisa, encontrámos um enorme pântano onde cinquenta mil pássaros passam alguns meses no inverno. A beleza dessa colectividade, porque vivem juntos, voam juntos, atravessam fronteiras juntos, pareceu-nos mágica e inspiradora. Encontrámos no nosso coração algo talvez semelhante ao da Chaya: sentimos que esta rapariga, à espera dos grous, podia encontrar neles uma inspiração de liberdade e uma fonte de força.
Chaya tem ainda uma moeda com um pássaro, oferecida pela mãe quando era pequena, no Iraque. Por isso, mantém uma ligação especial com estas aves. O simbolismo do grou torna-se, a certa altura, quase um símbolo da mãe que finalmente chega para a salvar, para a chamar, para a proteger. Pareceu-nos bonito acompanhar uma rapariga que, no início do filme, faz uma apresentação sobre os grous e percebemos que ficou fascinada por essas criaturas, mas ouvimos que, naquele ano, elas não chegaram, talvez por causa das alterações climáticas, talvez por se terem atrasado na viagem. Claro que isso pode ser lido como metáfora de outras migrações. Elas chegam num momento especial, no final do filme, e esse círculo que se fecha ajuda a completar a jornada da Chaya.
Só uma pequena curiosidade: todas os grous que se vêem no filme foram filmadas por nós. Essa foi a primeira parte das filmagens, em Dezembro; a segunda decorreu em Maio e Junho. Íamos às três da manhã, escondidos em pequenas cabanas, no frio, para ver os grous acordarem e levantarem voo. Foi um momento muito especial, cheio de respeito por aquela natureza frágil, ainda mais vulnerável hoje, quando vemos a floresta das Landes em chamas. A maravilha dessa natureza foi o nosso primeiro passo na filmagem desta história.

Há um elemento do filme sobre o qual preciso de perguntar: a Síndrome de Resignação. Confesso que saí do filme sem saber se era ficção ou realidade.
FL: Descobrimos a Síndrome de Resignação há cerca de cinco anos, numa exposição de fotografia em França, onde havia uma série dedicada a duas irmãs da mesma família, adormecidas nas suas camas. Ficámos muito chocados e comovidos com essas imagens. Quando percebemos que era real, começámos a investigar.
Descobrimos tratar-se de uma doença documentada sobretudo na Suécia, onde milhares de crianças adormeceram dessa forma. Uma das perguntas que nos fizemos foi: de que se lembram estas crianças enquanto dormem? Têm sonhos? Lemos a entrevista de uma criança que dizia não se lembrar de nada, excepto de estar numa gaiola de vidro no meio do oceano e de sentir que, se fizesse qualquer movimento, a gaiola partiria. Era uma imagem muito poderosa, e isso levou-nos a pensar: e se representássemos o inconsciente destas crianças através da paisagem que tínhamos? O que poderia acontecer?
O que está sempre presente na história destas crianças é o facto de terem vivido vários traumas, na viagem migratória ou no país de onde tiveram de fugir. Usámos os aspectos reais da doença, mas a forma como a levámos para o filme é ficção. Era muito importante dizer ao público que isto existe realmente e, por isso, incluímos imagens de arquivo a meio do filme. Falámos com crianças que recuperaram da síndrome, e foi muito impactante. Trabalhámos com um médico para evitar imprecisões e garantir que a informação estava correcta.
E como chegaram à Douae [Butarbuch Mzaouki], a actriz que interpreta Chaya?
JT: Foi um processo longo! Passámos um ano à procura da Chaya, com uma equipa na busca em diferentes cidades de França e da Bélgica (encontrámos a Douae em Bruxelas, onde vive com a família). Nunca tinha representado e tinha dez anos quando a conhecemos. Vimos nela uma luz profunda e sentimos que era exactamente aquilo de que a personagem precisava: Chaya atravessa situações muito difíceis, mas queríamos que o filme transmitisse uma forma de esperança e, para isso, precisávamos dessa luz.
A Douae tinha ainda algo fundamental: desde o primeiro momento do casting, representar era para ela um jogo, uma fonte de prazer. Tínhamos a intuição de que, para um processo tão longo, precisávamos de uma criança que o fizesse porque gostava. Criou uma ligação muito forte com o actor que interpreta o seu irmão, Sayyid El Alami, e com a professora interpretada Anamaria Vartolomei. Fez um desenho para cada cena, criando no final uma espécie de livro inteiramente ilustrado por ela, que contava a história completa do filme. Durante as filmagens, conseguia reconectar-se às emoções da Chaya através desse documento. O que vi foi uma criança a crescer ao longo do processo, e isso dava-lhe alegria.
O filme estreia em Locarno num momento em que o debate sobre a migração voltou a estar no centro da política europeia devido à crise de Ceuta. Como encaram essa coincidência?
FL: Há muitas histórias trágicas a acontecer neste momento e o importante para nós era contar a história de uma família específica e dar rostos àquilo que, por vezes, se reduz a números num debate sobre quantos migrantes podem entrar na Europa. As famílias que pedem asilo são muito semelhantes a qualquer outra família que apenas quer ter uma casa e viver em segurança. Esperamos que a história da Chaya possa provocar empatia e despertar um desejo de solidariedade.
São apenas filmes, mas esperamos que, à nossa escala, consigamos falar de questões políticas através desta forma de magia e chegar a um público que, de outro modo, talvez nunca chegasse a essas questões.

Sobre o título, “Les Yeux Verts” … os olhos verdes costumam ter simbologias muito diferentes em culturas distintas. Em certas culturas asiáticas, os olhos verdes têm até uma conotação demoníaca. O que significam os olhos verdes neste filme?
JT: É difícil falar do significado dos olhos verdes sem revelar o filme, mas posso dizer, de forma um pouco misteriosa, que representam ao mesmo tempo a marca das coisas difíceis por que as personagens passaram e a força que conservarão para sempre, partilhada entre o irmão, a irmã e talvez também a mãe. Aquilo por que passaram tornar-se-á, de algum modo, uma força.
E para terminar, novos projectos? Continuarão como dupla no futuro?
FL: Sim, continuamos a trabalhar juntos num novo projecto de ficção. Vai talvez mais longe, oscilando entre o território da ficção científica e do fantástico, embora ainda não tenhamos total clareza sobre o que será. Estamos também a desenvolver uma série.
E também escrevemos igualmente para outros realizadores: somos co-argumentistas de um filme de animação e de outro que vai ser rodado na Colômbia. Há muitas coisas a fazer e, por experiência, sabemos que escrever e encontrar a história certa leva tempo, mas estamos muito felizes por partilhar este filme amanhã [abertura em Locarno]. Será a primeira projecção com os actores presentes e, para nós, é um grande momento!

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