The Man I Love

A abrir a edição que comemora as 30 edições do certame, esteve um cineasta que coincidentemente (ou não!) comemora 30 anos desde que lançou a sua primeira longa-metragem (“The Delta” em 1996, quiçá ainda o meu filme favorito dele): Ira Sachs dispensa apresentações para os mais cinéfilos, e em sua defesa, o cineasta mantém-se igual a si mesmo e diferente dos demais nesta reformulação da narrativa da morte por HIV/SIDA, tão real no final do século passado.
Jimmy George (um Rami Malek que parece aqui e ali ter transitado do set de “Bohemian Rhapsody” dadas as semelhanças de fundo) é uma estrela de teatro performativo em Nova Iorque que recebe o diagnóstico, fica internado, e sai do hospital com uma nova energia e pronto para regressar aos palcos; só que nós espectadores, tal como o seu cunhado, sabemos que não durará para sempre…
A abordagem de Sachs é, como de costume, seca e cínica, com momentos musicais inesperados, mas recusando para todos os efeitos oferecer o verdadeiro clímax expectável, dando ali um epílogo onde parece querer dizer que o verdadeiro protagonista foi quem ficou para ver. Às vezes preferimos o toque fácil ao olhar de cima, mas num autor com poucos desvios de modus operandis (talvez “Little Men” [“Homenzinhos“] de 2016 seja uma excepção), esta crispação devia ser já expectável.
Sessão de abertura
Julian

No espectro oposto do filme de Sachs, aparece outro drama da Bélgica, este sim carregado de emoção não processada, de um romantismo “in extremis“, marcado ali próximo do clímax de uma espécie de mantra em quatro ou cinco frases como um voto de despedida. Mas vamos então primeiro à sinopse.
Julian conta-nos a história de amor de duas almas, uma delas, Fleur, uma mulher cis e outra em busca de outra identidade de género (Julian do titulo) mas sem o processo concluído oficialmente, que se decidem casar. Com este pedido, uma decisão começa a germinar no cérebro de Fleur: casar em todos os 22 países que na altura (i.e. em 2017) era permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo para gerar visibilidade sobre o tema. Só que a vida acontece, e um twist de final de primeiro ato que pode até lembrar “Close” de Lukas Dhont (um dos co-produtores aqui, as par dos irmãos Dardenne) faz com que um filme até então luminoso comece a ganhar lágrimas (e também suspiros) da audiência.
“Julian” nunca perde ainda assim o foco da sua história tão surreal que, claro, é inspirada num caso real, muito bem carregado por este par de intérpretes. Muito possivelmente o filme mais romântico do certame.
Competição Oficial – Longas Metragens
Maspalomas

Dirigimo-nos então para sul…. para Espanha, mais concretamente – um país que tem estado na vanguarda de um dos temas mais tabu para a comunidade: a vivência da terceira idade enquanto queer. Jose Mari Goenaga, um realizador que gosta de operar em parceria fazendo parte do trio artístico Los Moriarty (que podemos ter conhecido acidentalmente com o filme sobre a ditadura espanhola “La trinchera infinita” de 2019 – da Netflix, candidato pré-selecionado pela Espanha ao Oscar de Melhor Filme Internacional nesse ano) já tinha narrado uma experiência feminina a atravessar a oitava década de vida com Jon Garaño em “80 Dias“, e oferece agora com Aitor Arregi um complemento masculino com “Maspalomas“.
A narrativa foca-se exclusivamente em Vicente, um septuagenário num processo tardio de descoberta (coming out aos 50 anos) que terá gerado ainda mais a sensação de tempo de juventude perdido que a média da experiência “queer” (onde de facto a adolescência sai perdida, mas a primeira idade tende a compensar), e um desejo latente de morrer a ter prazer, sem cedências ao silêncio e à heteronormatividade que um lar de idosos inevitavelmente fomenta.
A dupla de criadores oferece-nos um retrato inicial do resort do título, entre o paradisíaco e o infernal (consoante o gosto), para depois “descer à terra” – e a outro tipo de inferno, o inferno marcado por outra rotina diametralmente oposta – de um lar do País Basco, na era que antecedeu imediatamente a pandemia COVID-19, onde os lares de idosos foram particularmente afetados como sabemos. “Maspalomas” fala da terceira idade com um peso dramático impressionante e que nos dá a ver, qual vidente, um futuro que nos espera com alguma sorte, mas mais impressionante é como não deixa isso levar a obra abaixo, pontuando aqui e ali momentos humorísticos inusitados que conseguem fazer todo o sentido e por personagens mais complexas do que aparentam por uma primeira apresentação.
Um filme capaz de fazer levantar um sorriso final ao mais cínico dos espectadores, e que nos faz pensar que, ultimamente, o pior que nos pode acontecer, é perdermos a nossa identidade e a nossa comunidade.
Panorama
Teenage Sex and Death at Camp Miasma

Tendo ganho particular atenção após “I Saw the TV Glow” (exibido no Queer Lisboa em 2024), a cineasta trans Jane Schoenbrun decide ir mais a fundo num novo cinema de género, que a avaliar pela sala esgotada, está a fazer imensos fãs junto da geração Z.
Se “I Saw the TV Glow” era, em termos muito simplistas, sobre ficar viciado numa série de televisão ala “Buffy” ao ponto de gerar com isso uma dissociação da realidade, “Teenage Sex and Death at Camp Miasma” é também um metafilme de várias camadas, onde podemos facilmente identificar a realizadora como protagonista aqui (mesmo que a identidade de género seja algo diferente) e o desejo como grande elemento motor.
Mas talvez este ensaio, por muita “carne e fluídos” à disposição (preparem-se para sangue “cartoonesco” e frango frito gorduroso – alerta para os vegans), e por muito divertido que consiga ser de uma forma consistente, seja ainda assim algo demasiado exposto na explicação nos seus temas e… ironicamente cerebral a mais para realmente poder celebrar o subgénero que usa como fachada, usando um “slasher” estilo “Friday the 13th” aqui para debater a potencial perda de identidade quando o autor se vê numa tarefa para um grande estúdio de cinema. Podia ter usado outro género de filme? Sim e não. Veremos que o terror é um elemento também ele emocionalmente catártico, sempre politizável, e até potencialmente um despertar erótico…
A sobreliteralidade tão associada a esta geração pós-milenar tem uns toques engraçados – “Little Death“, outro nome para o orgasmo, é aqui o nome do assassino trans que persegue ao longo de inúmeras franquias os elementos do acampamento que, por alguma razão, insistem em vir nos anos seguintes ao acidente inicial. Nem filme do ano nem banhada do ano, “Teenage Sex...” é um objeto curioso e sim verdadeiramente “queer“, sobretudo pela subversão que quaisquer expectativas que possamos ter à entrada, trocando os sustos que pareciam prometidos pelo consultório sexual – e aqui nota final à dupla Hannah Einbinder e Gillian Anderson que carregam momentos aqui muito rasteiros, e que facilmente podiam resvalar para algo fora do “camp“(o).
Sessões especiais

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