De 18 a 20 de Setembro, intercalando o Cinema Ideal e o Cinema Fernando Lopes, Lisboa receberá a primeira Semana do Cinema Chinês, uma selecção de cinco obras diversificadas nos seus géneros, com o objectivo de aproximar o público português de uma cinematografia que, por diversas vezes, chega ao nosso circuito de exibição filtrada por curadorias ao jeito do gosto ocidental. Obviamente, iremos encontrar um outro cinema chinês, fora dos premiáveis dos festivais de classe A, entre blockbusters (“A Writer’s Odyssey II“, de Lu Yang), animações (“Nobody“, de Yu Shui) e dramas intimistas (“As the Water Flows“, de Bian Zhuo), numa vontade de colocar o espectador português na perspectiva do público chinês.

Anette Dujisin, coordenadora da programação da Associação Il Sorpasso, parceira deste evento cinematográfico, aceitou o desafio de Cinematograficamente Falando… para descortinar as novidades e os intuitos desta nova iniciativa.  

Uma Semana do Cinema Chinês em Portugal nasce de uma parceria entre o Festival de Xangai e a Associação Il Sorpasso. Portanto, que China cinematográfica quiseram apresentar ao público português? 

Esta colaboração nasceu da vontade do Festival Internacional de Cinema de Xangai de se aproximar de Portugal e de dar a conhecer alguns dos filmes chineses que mais se destacaram nos últimos dois anos, junto do público e da crítica. A seleção permite ter contacto com uma produção recente e com a diversidade e a qualidade da indústria cinematográfica chinesa, mas também com algumas das questões e inquietações da China contemporânea, que encontram eco nestes filmes: as relações familiares e sociais, os conflitos entre gerações, às transformações da sociedade e as diferentes formas de olhar para o quotidiano. 

A programação reúne filmes de animação, comédia, drama e fantasia, atravessando diferentes escalas de produção. Existe uma preocupação em desmontar a ideia de um “cinema chinês” como bloco homogéneo, mostrando antes uma indústria atravessada por diferentes linguagens, públicos e modelos de produção? 

Exactamente! Uma das coisas que nos parece mais interessante nesta seleção é precisamente essa diversidade. Temos filmes que foram grandes sucessos de bilheteira ao lado de histórias familiares mais íntimas, animação, comédia, drama e fantasia. São filmes muito diferentes entre si, mas que permitem perceber a amplitude de uma cinematografia em plena transformação e, sobretudo, descobrir aquilo que o público chinês está a ver e a discutir hoje. É também uma forma de contrariar a ideia de que existe apenas uma maneira de fazer ou de olhar para o cinema chinês. 

O Festival Internacional de Cinema de Xangai funciona como uma das principais portas de entrada para esta programação. Num contexto em que o cinema chinês continua a ser relativamente pouco conhecido pelo público português, que papel pode desempenhar um festival desta dimensão na criação de pontes entre cinematografias que ainda permanecem, em grande medida, afastadas? 

A programação foi inteiramente proposta pelo Festival de Xangai, precisamente com o objectivo de dar a conhecer ao público português uma parte da produção cinematográfica contemporânea chinesa, e essa é uma das particularidades que nos interessava nesta parceria: em vez de sermos nós a escolher os filmes que consideramos representativos da China, são os próprios programadores de Xangai a indicar-nos quais são os filmes que querem apresentar ao público português. Há, portanto, um diálogo não apenas entre duas instituições, mas também entre programadores. 

O Festival de Xangai escolhe os filmes e nós trabalhamos com eles a melhor forma de os apresentar em Portugal. É uma primeira ponte que pode, esperamos, abrir outras. Aliás, esta relação não começou agora: o Festival de Xangai tem vindo a programar cinema português e, no ano passado, João Salaviza presidiu ao júri da Competição de Curtas-Metragens do festival. Foi, de certa forma, o próprio Salaviza quem criou esta primeira ligação entre Xangai e a Associação Il Sorpasso, que acabou por conduzir à realização desta primeira Semana do Cinema Chinês em Portugal. E o interesse do público parece confirmar que existe curiosidade por estas cinematografias: as pré-reservas para as sessões esgotaram antes mesmo do início do evento. É um sinal interessante de que há público para descobrir mais. 

A Writer’s Odyssey II (Lu Yang, 2025)

Esta primeira Semana do Cinema Chinês acontece num momento em que o público português tem cada vez mais acesso a cinematografias asiáticas, mas ainda existe uma enorme distância em relação ao cinema chinês contemporâneo. O que gostariam que um espectador português levasse consigo depois destas cinco sessões: uma descoberta cinematográfica, uma nova percepção da China ou, simplesmente, a vontade de continuar a procurar estes filmes? 

Um pouco de tudo isso… a diversidade da programação permite, desde logo, descobrir diferentes géneros e diferentes formas de fazer cinema na China, mas também perceber algumas das questões que atravessam a sociedade chinesa contemporânea. Há filmes que revelam a enorme qualidade técnica e a dimensão da indústria chinesa, outros que mostram a popularidade extraordinária da animação e outros ainda que abordam questões muito pessoais e íntimas com uma grande delicadeza. Acho que o público português está cada vez mais aberto às cinematografias e culturas asiáticas, e esta Semana’ insere-se também nesse movimento. Esperamos que seja uma porta de entrada para filmes e autores que, de outra forma, dificilmente chegariam ao público português. 

Tendo em conta a programação apresentada, foi uma escolha deliberada afastarem-se dos nomes que o público ocidental mais associa ao cinema chinês (Jia Zhangke, Wang Bing, por exemplo) ou dos chamados “darlings” dos festivais, frequentemente associados ao realismo social? 

Foi uma escolha deliberada, sobretudo porque queríamos mostrar outra realidade. Não procurámos necessariamente aquilo que o público ocidental já conhece ou que circula habitualmente no circuito dos festivais. A ideia era perceber o que é que o espectador chinês está a ver nas salas de cinema e trazer essa experiência para Portugal. Por isso, há aqui uma aproximação maior aos sucessos de bilheteira, aos filmes populares e a géneros que têm uma presença muito forte junto do público chinês. 

É interessante porque nos permite olhar para a China através de filmes que fazem parte da experiência cinematográfica quotidiana dos próprios espectadores chineses, e não apenas através da imagem que o cinema chinês foi construindo no circuito internacional de festivais. 

Que desafios encontraram na preparação de uma primeira edição desta mostra? Há intenções de continuidade? 

O primeiro desafio foi provavelmente a diferença de fuso horário! Mas, de uma forma geral, organizar uma mostra dedicada a uma cinematografia que ainda tem uma presença relativamente reduzida no panorama cultural português implica sempre algum trabalho adicional, desde a comunicação à contextualização dos filmes junto do público. Ao mesmo tempo, sentimos uma enorme abertura por parte do público e uma adesão muito positiva, que ultrapassou até as nossas expectativas. Quanto à continuidade, é ainda cedo para antecipar. 

Queremos primeiro perceber os resultados desta primeira edição, mas naturalmente gostaríamos que esta colaboração com o Festival de Xangai pudesse continuar e que esta primeira Semana pudesse ser o início de uma relação mais duradoura.

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