Curiosamente, “Broken Voices”, uma co-produção checa e eslovaca, estreou no mesmo ano de “Little Trouble Girls”, com Eslovénia e Croácia ao barulho, ambos integrando coros femininos para abordar o sexo, este último sob o selo da descoberta, sempre com olhares críticos à sociedade envolvente, enquanto o filme trazido até nós surge num jeito de denúncia ou sensibilização perante atitudes de assédio, sexuais, incluindo-se também as artísticas, como vemos ao longo da obra, numa espécie de crescendo.
Escrito e dirigido por Ondřej Provazník, “Broken Voices” manobra entre essas nuances do abuso, ao mesmo tempo que transcreve a ascensão de uma voz, Valerie (Kateřina Falbrová), jovem que, sob a influência da irmã, integra um coro com a bênção e protecção do mestre de coro (Juraj Loj). Após os treinos numa estância de Inverno, preparam uma digressão pelos EUA, sonho a concretizar para qualquer jovem do Leste. Contudo, este percurso traz, não somente a Valerie, mas também ao espectador, um clima de suspeita, endurecendo progressivamente até chegar ao seu clímax … corajoso clímax (sublinha-se), e num plano fixo (em tempos Gaspar Noé usou exactamente o mesmo artifício para estabelecer um incómodo no espectador, a ‘abjectividade’ existia nesse momento crucial do seu “Irréversible”, hoje debatido, não somente o filme mas aquela determinada opção, entre o provocador ou o meramente pornográfico).
Mas voltando ao plano / cena, como esta decorre em tempo real, a explicitude é “cortada”, deixando o espectador à mercê de um parcial cenário de horror, uma perspectiva sombria, contudo, é ao redor desse momento, o qual pontua-se um ambiente sempre em movimento. A vida não parou naquele exacto, acontece fora da sala onde “tudo decorre”, manifestação encontrada para descrever não apenas o silêncio, como também a “normalização” deste tipo de via, naquele “quartinho de hotel” está a ‘pintura a óleo’ deste mundo cúmplice, indiferente à violação de inocências e dos mais “fracos”.

Contra o relógio, o final dá-se na forma da sua (in)justiça poética, com a repreensão, a destruição do astro, da inocência e do sonho juvenil. Uma voz silenciosa, afagada pelo Poder de quem se acha no direito de a retirar. Obviamente, este último acto consegue transformar uma obra sólida em algo maior, sem recorrer aos facilitismos e aos desejos de um activismo cinematográfico. Fá-lo por via dessas imagens, ora semi-abjectas, ora através de representações visuais com o seu toque de lirismo. Mas antes dessa grande nota, fiquemos com uma espécie de thriller em lume brando, com actores encarregues de trazer credibilidade aos seus papéis. Pode ser um filme de coro, mas a coralidade não é um facto nestas bandas. Kateřina Falbrová é expressiva no medo, enquanto Juraj Loj se joga nessa armadilha sedutora, com laivos de diva, e até Maya Kintera, fazendo de irmã mais velha da protagonista, possui e estabelece um estado próprio.
Nesse sentido, “Broken Voices” acerta onde muitos filmes deste tema falham: em encontrar personagens consistentes e fazer dos silêncios e dos “não ditos” verdadeiros gritos de guerra. O Leste anda voraz neste cinema de intervenção e de juventudes enganadas.

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