A resposta à má pornografia não é proibir a pornografia, mas fazer melhores filmes pornográficos!” Annie Sprinkle, “Hardcore from the Heart

Truly Naked”, de Muriel d’Ansembourg, colocando a incerteza do termo no prisma do crítico de arte John Berger (“Estar nu [naked] é ser-se a si próprio. Estar em nudez [nude] é ser visto nu pelos outros e, no entanto, não ser reconhecido como quem se é.”), é uma primeira longa-metragem assente na discussão da influência da pornografia sobre as camadas mais jovens. Contudo, e tal deve ser frisado, aproveitando a onda dessa “indústria” (as aspas serão precisas aqui, passarei a explicar mais tarde), o filme em si parece aproveitar esse amadorismo associado quer à sua realização, quer ao argumento, muito apropriadamente nas relações entre as personagens. Mas fiquemos pelo debate, estreado entre nós (sem antes ter passado no Festival de Berlim) no FEST, em Competição Internacional, adivinhava-se um fácil acesso ao palmarés, só que o júri preferiu ir pelo seguro, com “Chicas Tristes”, da mexicana Fernanda Tovar, em vez de premiar a problematização do porno’. Entendemos, sendo simpático ao mesmo jurado, o cinema nele investido, mas “Truly Naked” acabaria por vencer o prémio do público no mesmo festival de Espinho, logo, haveria abertura para se discutir a sua temática.

Antes de avançar, permitam-me contar um episódio a mim narrado, quando um dos programadores do festival, talvez o verdadeiro responsável pela admissão do filme, tenta persuadir o colega Roni Nunes [colaborador deste espaço] a espreitar a obra, desvendando todo esse anexo em relação à pornografia, o qual os esforços são respondidos com um “não me venhas com isso, a pornografia é uma espaço de fantasia, o puritanismo quer o abolir de qualquer jeito”. Desse ponto, dialogamos sobre como evoluiu esse próprio conceito pornográfico, não apenas a indústria, essa de “ouro” nos anos 70 e 80, caindo no chamado amadorismo dos anos 90 e por aí adiante, e pela extrema difusão via Internet. Hoje, qualquer criança de 5 anos (o filme frisa esse ponto) consegue ter acesso à pornografia pelo simples teclar num motor de busca, e com acessibilidade gratuita, ou seja, o consumidor mudou, como também a sua consumação. Ao invés de metragens com bilhete adquirido em cinemas underground e, posteriormente, home videos, discretamente implantados (leia-se refundidos) em ambiente doméstico, hoje, sem o secretismo nem o “romantismo”, tornaram-se de fácil e rápido acesso, seis minutos sem enredo à luz da vontade da masturbação.

Devido a essa mesmo acessibilidade, o próprio espectador de pornografia evoluiu, e o contacto inaugural com o mundo do sexo deixa de ser pela via da mediação para passar à imediatação. Com isto, suscita-se uma nova abordagem sexual e a forma como essas relações são tratadas, principalmente na perspectiva masculina. “Truly Naked” avança, por si só, com uma fantasia rebuscada: a de um jovem (Caolán O’Gorman) cujo pai (Andrew Howard) tem um negócio na área pornográfica. Ele é o actor, o seu “rebento” o cameraman e o editor, mas, por via de um trabalho escolar, e de grupo, sublinha-se, é confrontado com esse mesmo mundo, que até então aceitava com normalidade.

Truly Naked (Muriel d’Ansembourg, 2026)

Partindo do prisma da pornografia, esta não deve ser vista como coisa do demo, como muitos a pintam. A escritora, cineasta e (fervorosamente) feminista Virginie Despentes dedicou, no seu badalado livro “Teoria King Kong” [“King Kong Theorie”], um capítulo inteiro ao mundo da pornografia, com uma reviravolta: a sua defesa em prol do puritanismo, por vezes disfarçado nesse “bem para a nação” (“E é isso que faz crispar e gritar muitos dos militantes antipornografia. Eles recusam que lhes falemos directamente do seu próprio desejo, que os obriguemos a saber coisas deles próprios que decidiram calar e ignorar.” [tradução Luís Leitão]) Para Despentes, nessa mesma publicação, era importante desfazer os mitos e preconceitos envolto da pornografia, validando sobretudo o desejo, como castrado por uma sociedade que anseia pelos chamados “bons costumes”; por outro, o das mulheres, sempre associando a sua opressão à indústria, a qual valoriza a sua não emancipação, mas dominação no mesmo quadrante. Contudo, é importante referir que o texto, publicado em 2006, não acompanharia aquilo em que a pornografia se havia convertido, nem presenciaria os movimentos ultraconservadores a cair no gosto mainstream ou a ascensão da machosfera e dos incels.

Em contrapartida, esse mesmo avanço do puritanismo e do conservadorismo (basta verificar as plataformas de streaming e a limpeza sexual que têm feito nesses catálogos amorfos, ou, novamente buscando Despentes em mais uma das suas ‘bujardas’, “os sítio da internet antipornografia são mais numerosos e veementes do que os sítios contra a guerra no Iraque, por exemplo.”), é verificável um medo do desejo, seja de que nível for, e muito mais se for a mulher a expressá-lo. Um facto de que … um exemplo … Isabelle Huppert em “Elle” (Paul Verhoeven, 2016) é assustador para os homens é a sua persistência em ser guiada pelo desejo. Com séculos e séculos de passividade nas fantasias (embora limitadas, não vá às respectivas religiões o “castigarem”) da barricada masculina, a consciencialização e a concretização dessa mesma libido por parte das mulheres, novamente com épocas inteiras acusadas de bruxaria e outras alianças demoníacas, é algo de aceitação tão recente e ainda, na nossa modernidade, tão controverso e badalado.

Mas desviemos do barulho que o tema traz e tragamos aquilo que “Truly Naked” quer trazer: essa, diria, demonização da pornografia, por um lado, com a preocupação perante uma juventude contaminada por essa nova ideia de intimidade, sendo que essa vistoria precoce aos catálogos do Pornhub cria uma ideia equivocada sobre, primeiro, como funcionam as relações; segundo, como se resolve a área do prazer no feminino; e terceiro, sobre o sexo ser sobretudo uma questão performática.

Só que o debate é estrito, para mal dos pecados do filme de Muriel d’Ansembourg, pela sua constante tendência para moralizar. Há um lado quase catequista em trazer o sermão adiante, da mesma forma que é vítima do seu tempo, o qual este vosso escriba não compactua, a da sobreliteralidade. Por exemplo, num momento é inserido um cefalópode no meio da acção, aqui tratado como bizarria circense, com consequências para essa visão negra da pornografia. Uma das primeiras fantasias sexuais trazidas à luz é a de um polvo cujos tentáculos roçam nos corpos femininos (isto para não sermos gráficos) numa xilogravura intitulada de “O Sonho da Esposa do Pescador“, ora, essa fantasia, e ficaremos nesse termo imaginativo, porque nunca se tratou de um apelo à bestialidade, nem nada que pareça, hoje apenas existe na forma animada, mais concretamente como categoria do chamado hentai (manga e anime japonesa de cariz sexual). Em contraste, Park Chan-wook, no seu “The Handmaiden”, envolvia o tal animal de oito “braços” como uma sugestão às possibilidades da extravagância sexual do antagonista do filme e, por sua vez, um atalho directo a essa primeira imagem pornográfica, talvez a primeira pornografia da história da Humanidade.

Truly Naked (Muriel d’Ansembourg, 2026)

Truly Naked” não o faz, resolve ser o bom moço samaritano, retratando o espectador, nesse campo das imagens, como infantil e sem interpretação alguma (o problema da sobreliteralidade está aí, não apenas no cinema, como em muitos outros meios). Portanto, o discurso e a temática são mais amplos do que o filme em si. Talvez precisemos de obras assim, não as valorizarmos na categoria artística que desejam (mais uma vez, somos sempre movidos por esse impulso de qualquer maneira) como tal, mas na possibilidade de confronto.

Muriel d’Ansembourg criou uma obra de confronto e, no final, naquele breve momento antes dos créditos finais, apercebemo-nos de como ficamos concretados à sua armadilha teórica. Afinal, a exposição, essa “virtude” da pornografia, é o elemento que tem ditado a sua consumação e a sua influência. Deixemos de pornografias, partamos para a intimidade, no seu conceito puro, o momento a sós de concretizar o mais natural dos prazeres, o sexo.

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