Espinho torna-se, como sempre por esta altura, a Meca do Cinema em Portugal. O FEST chega à sua 22ª edição, mantendo o papel de orientador e divulgador de novos talentos do cinema mundial: hubs, masterclasses, workshops e pitchings convivem em paralelo com uma Competição que tem na forma de um lince-ibérico a sua estatueta e, no horizonte, a promessa de descobrir o próximo grande nome da Sétima Arte. Quem sabe.

E, em mais um ano, regressamos à tradição, Fernando Vasquez, director e programador do festival, aceitou o desafio do Cinematograficamente Falando… para, em conjunto, explorarmos o que de mais fresco, inquieto e entusiasmante o FEST tem para apresentar nos próximos oito dias. Pois bem: de 20 a 28 de Junho, todos os olhares cruzam-se em Espinho [toda a programação aqui].

Quais os principais desafios desta nova edição?

A nível de programação de cinema, o desafio central é a quantidade de submissões que recebemos, ultrapassámos os 4.500 filmes (!), e o tempo que temos para analisar todas estas obras é sempre demasiado limitado para essa escala. Depois, os restantes desafios são os que afectam todos os festivais: os custos de produção cresceram brutalmente. Tudo o que envolve mobilidade (trazer convidados estrangeiros a Portugal) está ao dobro do que custava há cinco ou seis anos, e as linhas de financiamento são as mesmas. 

Será também fruto da gentrificação?

Espinho em si não está a sofrer muito com o fenómeno da gentrificação, diria até pelo contrário, após uns anos mais complicados com a Operação Vortex, está agora numa fase mais estável. O que sentimos é um problema geral: está tudo mais caro, e isso come uma pressão significativa do orçamento que depois não nos permite reforçar a equipa, que é sempre uma das nossas maiores necessidades.

Antes de passarmos à programação, fale-nos das grandes novidades do programa de indústria (os convidados, as masterclasses, os workshops).

A grande novidade desta edição é o Actors’ Hub: criámos um espaço específico de dois dias dedicado exclusivamente a actores. O FEST sempre teve actividades para actores, mas decidimos que estava na hora de formalizar isso. Vão ser dois dias de debates sobre a arte da performance dramática, mas também sobre questões práticas que os actores, de alguma forma geral, chegam muito mal preparados, como a contratualização. Muitos ficam presos a contratos precários e injustos, e se temos acesso a pessoas com o conhecimento certo, faz sentido pô-las em contacto directo com quem precisa de se proteger.

Asghar Farhadi

A estrutura habitual mantém-se: o Training Ground com seis dias de masterclasses e workshops com grandes figuras do cinema, o Sound and Music Hub com um dia inteiro dedicado à produção de som e música para cinema, e o Directors’ Hub em formato de roundtable sobre questões mais existenciais do cinema. Na área da realização, destaque para o bósnio Danis Tanović (uma figura que procurávamos há muito tempo), uma das grandes figuras do cinema europeu, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional em 2001 com “No Man’s Land”, um filme essencial para a compreensão do conflito nos Balcãs. Contamos ainda com o romeno Alexander Nanau, vindo do sucesso de “Collective”, e o regresso do iraniano Asghar Farhadi, e na área do cinema LGBT, destaque para o australiano Stephan Elliott, realizador de “The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert”, um dos grandes filmes de culto do formato.

Na direcção de arte, temos uma sessão que vai ser muito especial: Sarah Greenwood e Katie Spencer, designer de produção e cenógrafa, que se tornaram figuras de referência instantânea depois do trabalho que fizeram no mega-sucesso “Barbie” da Greta Gerwig (uma reinterpretação tão minuciosa e complexa daquele universo que as tornou incontornáveis), mas elas já possuem uma carreira longa e extraordinária com Joe Wright: desde o “Pride & Prejudice” ao “Atonement”, a “Anna Karenina” e o recente “Cyrano”.

Temos ainda o português Luís Sequeira, figurinista que está a dar muito nas vistas lá fora, sobretudo ao lado de Guillermo del Toro nos seus últimos filmes. Uma sessão que será certamente fora do comum: Mike e Françoise Valentine, um casal especializado em filmagens dentro e debaixo de água. Começaram a trabalhar com Danny Boyle (são as pessoas por detrás da famosa cena da pior sanita do mundo em “Trainspotting”), e desde então tornaram-se referências mundiais nessa área, tendo trabalhado com Ridley Scott, Clint Eastwood, nas sagas “Star Wars” e James Bond. Na área do som, vamos ter John Warhurst, Music Supervisor que venceu um Óscar pelo “Bohemian Rhapsody” e que tem feito de tudo entretanto (desde o “Saltburn” ao biopic da Amy Winehouse “Back to Black, passando pelo “Michael”). 

Temos ainda o regresso de Paul Davies, misturador e editor de som que trabalha muito com Lynne Ramsay (fez o “You Were Never Really Here” e “We Need to Talk About Kevin”). Estamos a falar de perto de 80 convidados, com mais nomes de peso a ser anunciados nas próximas semanas.

Seguindo agora para as metragens, e sendo um festival de primeira e segundas obras, com que critérios guiam a escolha dos filmes de abertura e encerramento?

Variam muito. Somos um festival dedicado ao lançamento de novos talentos, mas não limitamos o programa só a isso: as cerimónias de abertura e encerramento são filmes que pretendem chegar a uma audiência ligeiramente mais generalista. Há lógicas diferentes para cada uma: na abertura gostamos de filmes extremamente marcantes e energéticos; no encerramento tentamos pôr um ponto final ao evento da melhor forma, frequentemente com filmes mais leves ou comédias, embora isso não seja regra absoluta.

Para este ano, o filme de abertura é “Yellow Letters”, grande vencedor do Urso de Ouro na Berlinale deste ano, a nova longa-metragem de Ilker Çatak (que teve muito sucesso com “The Teacher ‘s Lounge”). É um filme extremamente energético e provocador, sobre um casal de artistas que participa num protesto contra o regime de Erdoğan e vê a vida completamente virada do avesso. Um filme político sobre o declínio das democracias, mas que também fala de amor e de como uma relação é posta à prova numa circunstância extrema. Com performances fantásticas e uma linha estética muito interessante: apesar de a história se passar na Turquia, a obra foi rodada numa Berlim a fazer-se de Istambul, e funciona muito bem, devo dizer.

Complaint Nº. 713317

Para o encerramento, fomos por um caminho completamente diferente. O “Complaint Nº. 713317”, de Yasser Shafiey, chega do Egipto … é uma comédia sobre o horror da burocracia. Um casal de idosos, na festa de aniversário da neta, vê o frigorífico avariar-se e arruinar o bolo de gelado. Contratam alguém para arranjar o frigorífico. O frigorífico nunca fica arranjado, e a queixa que eles apresentam inicia um processo kafkiano que vai pôr tudo em causa. Mas o filme vai muito além do frigorífico, fala das dinâmicas de um casal de idosos no Egipto contemporâneo, dos conflitos de gerações. O realizador vai estar presente, o que vai abrilhantar ainda mais a sessão.

Esse filme egípcio encaixa num gesto que o FEST tem destacado nos últimos anos — uma atenção especial ao chamado Novo Cinema Egípcio.

O Egipto tem-se revelado como um dos países mais interessantes no cinema do Médio Oriente, e diria mesmo o mais facilmente exportável para fora dessa região. Nos últimos três anos temos tido sempre uma obra egípcia na competição, o que é raro em qualquer parte do mundo. É uma cinematografia que seguimos de perto e na qual continuamos a acreditar.

Na competição há também apostas no cinema mexicano, e, acrescentando que apesar de não contar este ano, também é comum um exemplar do Novo Cinema Espanhol na vossa programação.

Este ano o destaque mexicano é “Chicas Tristes” (“Sad Girls”, Fernanda Tovar), uma primeira obra que descobrimos na secção Generation da Berlinale, onde venceu um dos prémios. É um filme sobre assédio sexual abordado de forma muito invulgar: através de duas raparigas que são líderes de uma equipa de natação, tudo dentro desse cenário competitivo. Mas é um trabalho muito discreto, que aborda acima de tudo de solidariedade, a sororidade, e do confronto entre uma vítima e uma amiga que tem dificuldades em acompanhá-la.

O cinema espanhol é algo que nos interessa muito. A Espanha tem, para além de uma indústria gigante, um discurso cinematográfico muito variado, muito dinâmico. É dos sítios mais interessantes da Europa para fazer e ver cinema neste momento. Abrimos vários anos seguidos com filmes espanhóis — como “Cinco Lobitos”, “Suro” ou “Destello bravío”. E sim, este ano não temos um espanhol em destaque, mas é uma cinematografia que continuamos a seguir de perto.

Que outros filmes da competição merecem destaque?

“Truly Naked”, da realizadora holandesa Muriel d’Ansembourg, que aliás já tivemos no festival no ano passado com a curta “Fuck-a-Fan”, com uma personagem que reaparece nesta primeira longa-metragem. Estreou na Berlinale e foi um dos filmes mais falados da edição. É sobre a indústria pornográfica na perspectiva de uma pequena família que vive dessa ocupação, com um adolescente como interveniente principal. É sobre o vício da pornografia (um tema absolutamente contemporâneo), mas sobretudo sobre o conceito de intimidade no século XXI, e como a pornografia derruba muitas das nossas perspectivas sobre ela.

Depois, o “White Snail” (Elsa Kremser & Levin Peter), uma produção austríaca e bielorrussa, história de amor muito invulgar entre uma modelo com aspirações de se mudar para a China (que é neste momento uma das mecas do mundo da moda) e um jovem trabalhador de uma morgue (um casal absolutamente improvável!). O filme teve um sucesso enorme no circuito de festivais, venceu dois prémios em Locarno (melhor elenco e o Prémio Especial do Júri. Tudo isto com o cenário da ditadura bielorrussa permanentemente latente em fundo, uma sensação constante de repressão que a obra gere de forma muito inteligente.

Hangar Rojo

Destaque ainda para o “Hangar Rojo”, a primeira longa-metragem de um jovem realizador chileno (Juan Pablo Sallato), sobre as primeiras 24 horas do Golpe de Estado de Pinochet, através da perspectiva de um comandante da Força Aérea que é obrigado a transformar um hangar num centro de detenção e tortura de opositores políticos. Extremamente tenso, e que, apesar de retratar um momento do passado, sabe muito ao presente, é um aviso do que poderá estar a chegar, enquanto o Chile caminha de volta para a direita radical. 

Agora um filme do qual estou muito entusiasmado: “Nühai” (“Girl”), a primeira longa-metragem da Shu Qi (actriz que é provavelmente a maior estrela do cinema asiático do momento, protagonista de “The Assassin”, de Hou Hsiao-hsien), que estreia agora como realizadora com um filme sobre a herança emocional de uma jovem rapariga nos anos 90 na China. Trabalho sobre a condição feminina na China, de uma actriz tornada realizadora que promete muito para o futuro. Finalmente, o “River Dreams”, de Kristina Mikhailova, o primeiro filme do Cazaquistão a competir no FEST em longa-metragem. É um documentário sobre a condição feminina, através de várias jovens mulheres, num cenário visual e estético absolutamente extraordinário (o Cazaquistão como nunca o vi). Esteve na Berlinale e foi um dos grandes vencedores da secção Forum. A realizadora é artista plástica, é o seu primeiro filme, e vai estar presente no festival.

Há ainda uma retrospectiva ao Andrzej Wajda …

Inevitavelmente, este ano é o centenário do Andrzej Wajda … e não podíamos deixar passar. Apesar de o FEST ser um festival dirigido para o presente e para o futuro, volta e meia sentimos a necessidade de olhar para trás, e o Wajda parece-nos, não só pelo centenário, uma figura absolutamente essencial. É a figura central da escola polaca, provavelmente o realizador europeu que mais falou sobre o estalinismo enquanto ele estava a acontecer e sobre esses símbolos políticos que o próprio poder acabou por ter de dissolver porque já não conseguia controlá-los. Vamos exibir “Man of Marble” e “Man of Iron”, o primeiro sobre um trabalhador usado como símbolo de produtividade, o homem socialista do futuro, para depois ser ostracizado pelo próprio regime por não ser suficientemente conivente. O segundo sobre o filho desse trabalhador, que acabou por ter um papel essencial no movimento Solidariedade de Lech Wałęsa. É uma obra extraordinária sobre como é possível fazer cinema em condições de opressão total e como é possível abordar estas questões de forma eficaz.

A selecção da competição parece sistematicamente olhar para o passado para falar do presente, filmes sobre ditaduras, sobre opressão, sobre a condição feminina. É isso que procuras nos filmes que seleciona?

É inevitável. O cinema tem de reflectir sempre a realidade de uma maneira ou de outra — mesmo quando é muito escapista, devia fazê-lo. É uma das coisas que procuramos: os filmes que seleccionamos têm de ter sempre algo de relevante para o momento, senão não estamos a fazer o nosso trabalho da forma correcta. O “Hangar Rojo” fala de há décadas atrás, o “Nühai” também, mas sempre de uma perspectiva contemporânea, sempre sobre o papel da mulher hoje, e sobre a ameaça da extrema-direita hoje. Depois há filmes como o “Truly Naked”, que vão muito além disso, que nos vêm falar de dinâmicas do momento que ainda nos custa abordar, mas que nós sabemos que daqui a uns anos vão ser absolutamente centrais. A questão do impacto da pornografia na sociedade já está a acontecer diante dos nossos olhos. Só vai continuar a crescer.

Man of Marble

Quais os desafios para o futuro do festival?

Perceber como podemos multiplicar o financiamento, porque as questões orçamentais dos últimos anos, com o aumento brutal dos custos de produção, são centrais. O FEST faz muito com muito pouco, mas torna-se cada vez mais difícil cumprir tudo o que queremos fazer sem crescer também a estrutura. Continuar a identificar as áreas que precisam de ser trabalhadas ao nível de um festival de cinema e a encontrar as pessoas certas para falar sobre elas. 

A inteligência artificial é algo que já está, e que só vai afetar cada vez mais o cinema. Acredito que vai afetar muito mais ao nível de conteúdo do que ao nível técnico. E um dos grandes desafios é encontrarmos figuras cada vez mais inspiradoras que venham falar de como interpretar o mundo, para que a nova geração de cineastas, seja utilizando inteligência artificial ou não, o venha a fazer com essa informação nos seus próprios filmes. Esse é, para mim, o grande desafio para os próximos dez anos.

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