La Gradiva

Tal como frisado pela equipa do festival, a competição oficial deste ano de longas-metragens é toda ela dominada por primeiras obras. No caso de um filme tão expansivo como “La Gradiva“, torna-se particularmente impressionante como Marine Atlan domina já uma narrativa que, apesar de algumas críticas alheias de que poderia ser encurtada, acaba por justificar a sua duração de duas horas e meia nesta “viagem a Itália” onde sentimos que algo importante se vai passar com estes jovens franceses prestes a transitar para uma primeira fase adulta.
Atlan vai montando as peças meticulosamente, adicionando tensão e desconforto, até à erupção final, que é tratada de uma forma igualmente delicada – sobretudo quando percebemos que nenhum destes 20 jovens retratados é ator profissional (por favor, haja petição para Colas Quignard seguir em frente na representação!). E consegue ter a segurança de uma veterana ao colocar ambiguidade sobre o que realmente se passou, deixando o filme germinar nas nossas cabeças dias após o visionamento…
Percebe-se assim o hype que vinha já de Cannes, que culminou com uma vitória do filme na Semana da Crítica. Estaremos na primeira fila para a segunda obra.
Competição Oficial – Longas Metragens
Prosecution

Uma procuradora em início de carreira, Seyo Kim, torna-se praticamente uma “justiceira” noturna ao ser vítima de um ataque orquestrado da extrema-direita com direito a cocktail molotov. E não falo justiceira por mero acaso: a certa altura, a protagonista adquire um novo carro a lembrar Kitt, e só faltou ali o tema de “Knight Rider” a tocar…
Lendo bem a tensão radical dos dias de hoje, onde existe um convite cada vez maior ao binarismo entre extremos – e aqui tenho que praticamente de dizer que sou “esquerdalho” antifa para evitar ameaças de morte da própria esquerda… – “Prosecution” acaba por cair numa ratoeira desse maniqueísmo do mundo. É claramente o filme mais “domingo à tarde” que o festival podia ter programado para um final de tarde de domingo, no sentido em que faz questão de incitar do público alvo (i.e. a esquerda que nos resta) reações audíveis no auditório, numa interatividade que se pensa inicialmente como positiva, mas analisando melhor, é um conforto que não acrescenta nada, quer de um ponto de vista cinematográfico quer de um ponto de vista político.
Indo aos aspetos positivos, há uma competência procedural bastante germânica na forma como o processo é narrado, e como os pontos de ação são inseridos. Chen Emilie Yan é extraordinária no papel central, a impotência que lhe faz seguir por trilhos menos éticos ou mesmo legais é completamente vendida pela sua performance, assim como conveniências e coincidências acessórias. E Faraz Shariat percebe que esta narrativa está para lá da identidade queer concreta da personagem (relegada aqui para enésimo plano), mas diz respeito a todos os Outros que são alvo da extrema-direita. Nota-se aqui uma versatilidade face a “Future Drei” que também nos coloca curiosos para saber o que vai fazer a seguir, apesar de tudo.
Panorama
Amarga Navidad

Estará Pedro Almodóvar bem? Perante uma admissão tão clara de complacência perante si mesmo, saímos de “Amarga Navidad” com uma sensação mista de que sim, este é dos filmes mais almodovarianos (aquele que reúne todos os temas e estéticas que ficaram associados à sua imagem), mas perante um certo bloqueio narrativo expresso de uma forma metalinguística (novamente! ver “Dolor y Gloria“, por exemplo) pela personagem principal aqui.
A questão é que, ao observar o sempre desafiante processo criativo da construção de um argumento, o filme enamora-se mais pelos obstáculos do processo que pelas próprias personagens de qualquer uma das tramas, e torna-se assim mais cerebral que outros filmes do passado do cineasta.
Sentimos no entanto estar perante uma tentativa de sumarizar os “hits” do autor, que aqui abandona o tom soturno do anterior “The Room Next Door” (“O Quarto ao Lado“) para regressar aqui e ali – e bem – aos “maus hábitos” da década de 80 do humor com drogas e sexo. Nisto insere a narrativa que tem germinado ao longo desta sua última fase: a autoficção e como ela vem repescar histórias reais e questionar se existe um limite ético para a reapropriação de algumas delas como drama narrativo, onde só o nome dos envolvidos muda. E claro, Almodóvar não se esquece de Chavela Vargas tendo aqui um memorial em dois momentos musicais, um deles – a canção que dá título ao filme – gerando uma mudança repentina para uma das personagens. Não se vê isto em mais lado nenhum.
“Amarga Navidad” é sim um Almodóvar menor de fim de linha (o cineasta completa 77 anos no próximo dia 25 de setembro), mas que linha e que “trip” nos deu. Como se diz aqui no terceiro ato, um Fellini menor é sempre mais consumível que outras películas que por aí andam… Almodóvar conquistou o mesmo tipo de lugar por mérito próprio. Ainda assim, esperemos que haja ainda uma surpresa final, um rasgar do papel, rumo a uma obra-prima final.
Sessão Especial

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