Imaginem esta genealogia familiar dentro do cinema de James Gray: se “Little Odessa” (1994) e “We Own the Night” (2007) tivessem um filho, “Paper Tiger” seria, sem dúvida, o tio desse ‘rebento’. É a história de irmãos que tropeçam nas teias da corrupção e da máfia russa, cuja tentativa de fuga nos conduz aos dilemas morais destas personagens, a tal fraternidade, assim abalada, desafiada e confrontada com o sacrifício em nome do “bem comum”.
Gray, realizador americano apreciado e, por vezes, imensamente exagerado por determinadas esferas cinéfilas, é um aluno aplicado que sempre desejou sentar-se à mesa de jantar dos seus grandes mentores. Se o seu cinema, desde o “pontapé de saída”, parece servir para preservar essa linhagem, também é reconhecível o seu talento, não apenas em mimetizá-la, mas quando, muito esporadicamente, existe vontade de a transgredir. Contudo, é dos poucos cineastas na órbita hollywoodiana que ainda demonstram coração para a construção de cinema (refiro-me, sobretudo, ao enfoque visual e à força que dele se edifica).
“Paper Tiger”, por outro lado, parece feito de sobras, só que o seu chef é habilidoso, sabe criar um prato a partir dessas requentações e, dessa forma, resulta em gastronomia de requinte, com apelo à vista e capacidade de saciar no momento, logo à primeira garfada. Mas falta algo… e que algo? Entenda-se que a conjuntura visual leva o filme às costas, deliciamo-nos com aquele primeiro plano, entre o relvado (como premonição do seu clímax) e as Twin Towers no horizonte (já sabemos onde estamos e em que terreno nos situamos … será?), ou a sequência “home invasion”, entre o Peckinpah em palha canina iluminado pelo luar, ouvindo os “Children of the Night” a preencher-se entre os ensinamentos hitchcockianos … ficamos, por si, entre cenas avulso.
Mas quanto ao enredo partimos para uma família mundana, que resiste perante dívidas e expectativas frustradas. Miles Teller, actor em pleno resgate, interpreta um autêntico panhonha, ao lado de Scarlett Johansson, a sua esposa, e ainda os seus dois filhos, com futuros a aproximarem-se e, depois, a visita externa [o irmão – cunhado – tio]: o elemento que vem desafiar um seio familiar mantido e unido pelas pontas dos dedos. Traz consigo uma proposta irrecusável (porque não?), uma “porta aberta” para uma espécie de roleta-russa. A partir daí, esta personagem catalisadora, com Adam Driver a ser Adam Driver, converte-se numa silenciosa catarse. A história deixa de ser sobre aquela família para se concentrar no homem só, de afectos incompreendidos, limpo e íntegro (o “Serpico” se a meritocracia funcionasse), que acaba por personificar a martirologia de uma cidade. É um risco e, ao mesmo tempo, uma oportunidade perdida para Gray: a de se resolver nos “homens comuns”, à distância do extraordinário. Daí “Two Lovers” (2008) ser um objecto fora desse registo e bastante particular na carreira do realizador, não apenas por ser o menos imitador, mas também o mais simplista e … o mais humano.

Miles Teller e Scarlett Johansson acabam por ser adereços de longa estadia (o primeiro não há interesse investido e a segunda, Gray não sabe escrever ‘mulheres‘), porque é em Adam Driver que o realizador se concentra e o transforma como coração do filme. É através dele que chegamos à emocionalidade possível, recorrendo a velhos truques, quase bíblicos, apesar de as sombras do pastiche se aventurarem noite fora e manhãs cinzentas, apenas emolduradas por uma sépia nostálgica (fruto do seu anterior colaborador, Joaquín Baca-Asay, de, lá está, “Two Lovers” e “We Own the Night” … e em 35mm). Mais uma vez, nostalgia! É isso que nos serve, é isso que transforma James Gray na coqueluche de cinefilias extraviadas. É Lumet, é Coppola, é Cimino, é Friedkin e até Mann (o clímax entre os caniçais, acompanhado pela sonoridade ensurdecedora dos aeroplanos, evoca “Heat” e a disputa das suas forças antagónicas). Mas, para lá do aparato visual, permanece a relação nos meandros obscuros, na busca do humano e do pleno, independentemente da margem em que cada um se encontra.
Ou seja, confiamos em Gray para se auto-recitar e, ao mesmo tempo, agradar aos vultos que o antecederam? Ou procuramos, dentro do seu cinema, um filme que possamos verdadeiramente chamar seu, com todas as consequências que isso acarreta? “Paper Tiger” é a prova de existência do seu autor: uma tragédia pintada à mão, mas sem o ‘gravitas’ necessário…
“Que haja riqueza sem lágrimas; que baste ao homem sábio, que nada mais pedirá.”
Ésquilo, “Agamémnon”

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