“O travestismo é a fantasia da possibilidade. A guerra é exactamente o oposto.”
Espanha, terra de mártires e de martirologias: das suas raízes cristãs aos tempos tenebrosos da Inquisição, da Guerra Civil ao franquismo, chega aos nossos dias como uma nação dividida, ainda a viver dos seus dividendos históricos, entre ocultações e obscuridades por desenterrar, valas comuns, Guernica e os seus segredos, mitologias e santos caídos.
Entramos neste “La Bola Negra” através de uma traição: à do fascismo importado, das promessas vindas de fora que respondem com munição. No centro da desgraça, um jovem trompetista alcança as ruínas de uma igreja de outrora para evadir a sua sentença. Caminha sobre os seus escombros, entre segredos que ultrapassam os da sua própria contemporaneidade, e no alto do entulho, pedra sobre pedra, jaz um santo flechado, entregue a um repouso atormentado: São Sebastião, capitão da guarda pretoriana que, secretamente, auxiliou os cristãos no seu tempo, e cujo seus actos de solidariedade, traições cometidas contra o Império, ditaram-lhe a condenação ao fuzilamento, às flechas disparadas contra o seu corpo nu que o imortalizado numa iconografia reconhecível. O jovem fugitivo (Guitarricadelafuente), que será um dos protagonistas, tem como nome Sebastian, e coincidentemente não tardaremos a aproximá-lo do destino daquela figura sebastiana, não tanto pela literalidade da correspondência, mas pela sua dimensão visceral.
É este o arranque de uma narrativa tripartida, deambulando entre o passado franquista e o presente, e nos seus recortes, encontros e desencontros, uma ficção que procura completar-se. Um empreendimento temerário vindo dos “nuestros hermanos”, com El Deseo, a produtora dos irmãos Almodóvar, como selo de qualidade, e dois realizadores (Javier Ambrossi & Javier Calvo) provenientes da televisão de requinte espanhola (“Veneno” e “La mesía”). Tudo é pintado à dimensão de um “Titanic”: titânico nas ambições, virado para a tragédia como espectáculo operativo, e pegando neste último ponto, é uma ópera, sim, formalmente uma ópera, com virtuosismo cantado e esgalhado ao pessegueiro, travellings dançantes como aqueles que atravessam um bar de plebeus quando a performance e o canto se reúnem e toda a sala de convívio se configura para o próximo tomo. A câmara circunda o espaço e aproxima-se do seu protagonista (um outro, não Sebastian).

É um dos momentos em que testemunhamos essa saturação, esse excesso ditado pela maximalização, até porque “La Bola Negra” é construído como um ‘blockbuster’, piscando o olho ao palavrão mercantilizado de “épico”. Um filme feito para encher as medidas, pantagruélico na sua dimensão e vontade indómita de atingir. Nesse sentido, a comparação “Titanic” adequa-se à sua escala e à sua pretensão.
Contudo, há outro filme de que “La Bola Negra” se aproxima ainda mais: “Cerrar los Ojos”, aquele que foi o tão aguardado regresso de Víctor Erice à longa-metragem, depois de três décadas de ausência. A história de um realizador (o saudoso Manolo Solo) que procura o actor desaparecido do seu filme inacabado conduz-nos numa demanda pelo criptozoológico e pelo quase mitológico, até dar de caras com as sombras de uma História adversa ao cânone … a tal Espanha como território minado de apagamentos e tesouros ocultos.
Em “La Bola Negra”, é um romance perdido de Federico García Lorca que serve de ponto de partida para esse “tour de force”, prolongando a imagem de uma Espanha entregue ao Deus-dará do seu próprio secretismo, tudo depositado numa vala comum, como aquela que Goya convoca no seu “El tres de mayo de 1808 en Madrid”, onde os sentenciados, quer em termos de escala, quer banhados pela luminosidade, destacam-se dos seus fuziladores (o filme destes dois ‘Javiers’ possui essa mesma função, resgatar os condenados e não os condenadores, e … atrevo-me a dizer que Goya é justamente referido aqui nesta metragem). Como também, resgatando das sombras o produtor de “La Bola Negra”, Pedro Almodóvar, o macguffin / imagem da vala comum despertava semelhante curiosidade em “Madres Paralelas”. Não que constituíssem um adereço crucial à sua narrativa, mas antes um utensílio do cinema espanhol enquanto arqueólogo, salteador de tumbas que revolve a terra para deixar a descoberto os seus achados e as suas relíquias.
E, se falamos de “Madres paralelas”, falamos também do restante percurso de Almodóvar, desde os seus primeiros passos que se afastaram do território definido do seu ‘almodrama’, a pela provocação pela provocação, como apontada arma de despiste a uma sociedade ultraconservadora, ainda com resquícios do seu franquismo. Resquícios que hoje se infiltram, embora nem sempre sejam chamados pelos nomes certos. Sim, Espanha tem um passado mal resolvido, e a sua turbulência sociopolítica actual é também fruto desses traumas e tragédias. “La Bola Negra”, por mais insuflado que seja, não passa de um sintoma dessa condição.

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