Nos confins do Ártico, por vezes alguns vampiros centenários se encontram para discutir as narrativas humanas. Entre bravatas, absurdos, nonsense e provocações, por vezes produzem alguns “insghts” não necessariamente animadores. Hal 11.000 redige a Ata,
O vampiro de Murckle ficou a olhar para a grande sala do seu castelo – momentos depois do final da reunião presencial do Clube de Leitores do Ártico. Todos os outros vampiros que, não necessariamente costumavam levar as coisas muito a sério (como algo pode ser sério quando se tem a eternidade pela frente?), discutiram coisas sérias no meio de absurdos, bravatas, nonsense e provocações ao longo de três dias dias, tinham ido embora. Murckle ficou a rir dos impropérios por ser a favor da Restauração depois dos descalabros da Revolução Francesa, mas claro que 200 anos depois as palavras tinham outro significado: Quantos morreram em todas as guerras ideológicas em nome de palavras… Os humanos já não acreditavam em palavras: faziam guerras táticas, por interesses precisos, mas com uma retórica frágil, que já só convencia uns tantos pacóvios enquanto a maioria, como sempre, chafurdava na indiferença e no novo vídeo engraçado escolhido pelo algoritmo.
Murckle olhou para os copos vazios e antecipou o que viria: uma longa luta por sentido. Ellesmere não era o único, embora fosse dos mais estilosos. No final havia lançado uma daquelas suas combinações malucas – fazendo uma comparação entre “Blade Runner 2049” e “Asas do Desejo“. “Os humanos partem sempre da ideia ligeiramente arrogante de que as outras formas de vida, sejam anjos ou replicantes (ou vampiros!), não suportariam uma existência sem os preciosos sentimentos. O filme de Villeneuve põe a coisa de forma menos associada ao amor romântico, embora Wenders o faça de forma sutil e bonita; contrariando a líder da rebelião, que sugere que “morrer em nome de uma causa é coisa mais humana que se pode fazer”, o replicante K, cujo único batismo autoral foi lhe dado por um produto banal disponível no mercado semelhante ao nosso Hal 11.000 e que lhe chamou de Joe, faz outra coisa muito mais revolucionária: ao salvar Deckard, demonstra que a coisa mais humana não é a narrativa vazia do martírio, mas a prática da compaixão. “É bonito, não nego.”
Murckle sorriu e olhou para os copos vazios e uma sala enorme que ficaria silenciosa durante um mês, até o próximo encontro. Um dia antes, o mesmo inspirado Ellesmere tinha lhe falado de algo realmente tocante: nas organizações militares no início da 1ª Guerra Mundial, havia uma divisão imponente chamada Cavalaria. Era a mais prestigiada, com os mais nobres oficiais, o mais requintado resquício de um mundo que, como tantas outras coisas na 1ª Guerra, não existia mais. Não foram precisos mais do que alguns dias para as furiosas metralhadoras demonstrarem que a cavalaria era absolutamente inútil, irrelevante e fornecedora da mais vulgar “carne para canhão” (ainda não eram canhões, mas a expressão serve). Ou seja, em uma semana do início do século XX, varreram-se milhares de anos de supremacia na guerra, da forma com que os humanos fizeram guerra. A partir daí, os cavalos foram rapidamente adaptados para os serviços de transporte – numa guerra que se revelaria sem cortesia, sem alma, apenas uma longa carnificina onde se descobriu que a guerra industrial não se adequava às velhas táticas de ofensivas rápidas. Um desperdício inútil, uma Europa que dobrou os sinos sobre todos os seus sonhos, os seus idealismos e seus arroubos de superioridade: tecnologia e moral não caminham juntas.
Murckle tinha ouvido isso tudo de Ellesmere – enquanto agora nas suas solitárias e ventosas ilhas Shetland sabia que a noite seria longa, sem sentido e os livros na estante das antiquíssimas edições se misturavam com trechos de poesias, memórias doces ou indesejadas e um torpe desejo de que tudo fizesse sentido algures às 3h da manhã. Talvez a ata fria de Hal 11.000. percebesse isso tudo como apenas um facto da vida – ou como as “lágrimas na chuva” do replicante que diz: “hora de morrer”.

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