Alguns académicos defendem que a “Odisseia”, de Homero, é uma alegoria dos traumas de um militar, sobretudo no regresso a Ítaca, onde o rei Ulisses (ou Odisseu, consoante a tradução / versão) surge, após anos à deriva por rotas perdidas, entre monstros e sirenias, disfarçado de mendigo, cuja sua condição de homem “de baixo”, atribui-lhe a percepção mais nítida dos outros. Com a sua identidade ocultada trova a história de Ulisses, a batalha de Troia, a bravura transformada em decepção e o arrependimento perante a ambição do rei Agamémnon.
Christopher Nolan apropria-se desse momento, no qual, ainda envolto na pele da personagem miserável (Matt Damon), Ulisses é chamado pela rainha Penélope e, perante ela, declama uma narrativa emocionalmente codificada, onde expõe as cicatrizes de guerra e a condição de um soldado reduzido à banalidade do seu próprio mal. A consciência dessa batalha exige prosa, não poesia, e, através de flashbacks (um recurso que Nolan há muito transformou em assinatura narrativa), o espectador mergulha na materialização dessas dores da alma, enquanto a monarca (interpretada por uma angustiada Anne Hathaway), começa lentamente a reconhecer a presença do seu amado rei, ausente há vinte anos.
Tudo isto serve para abordar dois aspectos, um interno e outro externo ao filme. O primeiro: “A Odisseia” (“The Odyssey”) é aquilo que “Dunkirk” nunca conseguiu ser, cuja montagem apressada e o constante jogo temporal deste último destruíram qualquer possibilidade de exorcizar os sentimentos daqueles soldados encurralados na praia de Dunquerque, à espera da morte em território francês ou alimentando uma esperança cada vez mais remota de salvação vinda do outro lado do Canal. Aqui, pelo contrário, Nolan permite que as personagens persistam, dialoguem e enfrentem os seus próprios fantasmas.

O segundo aspecto prende-se com a recepção (é espantoso como nasceram tantos especialistas em Homero de um dia para o outro!). Talvez parte da reacção negativa ao filme, sobretudo entre antigos defensores incondicionais de Nolan, também resulte de uma espécie de trauma homérico. Depois de justificarem o trailer de três horas que foi “Oppenheimer”, de defenderem um filme simples que insiste em parecer complicado como “Tenet”, ou de ignorarem a memória histórico-bélica profundamente problemática de “Dunkirk”, é precisamente o trabalho mais calmo, menos ruidoso e mais atento às personagens dos últimos anos que resolvem atacar. Isto não significa que estejamos perante a obra-prima absoluta que muitos têm apregoado ao longo destes anos, distribuindo palmadinhas nas costas à carreira recente do realizador. Significa, isso sim, que assistimos à nolanização da génese narrativa do Ocidente, de “Odisseia” e da “Ilíada”: uma transfiguração em espectáculo mastodôntico, sem abdicar do fascínio visual que sempre definiu o seu cinema.
Ao mesmo tempo, é talvez o seu filme mais político desde a trilogia “The Dark Knight”, encostando o clássico às cordas da modernidade sem, por isso, o pós-modernizar. Fala de poderes instituídos, de rotas comerciais apropriadas pela supra-ambição de reis desmedidos, vestidos com ‘armaduras-espantalhos’; da “Lei de Zeus”, constantemente evocada e sucessivamente violada; e, no fim, do desejo como motor da existência. Esse desejo encontra a sua expressão máxima na clássica sequência das sereias, onde a perspectiva narrativa muda milagrosamente de ângulo, mantendo, contudo, a narração de Ulisses, amarrado ao mastro enquanto a tripulação, com cera nos ouvidos, rema para longe do círculo de perigo. Incapaz de reproduzir aquilo que nenhuma audiência pode escutar, tenta descrever desesperadamente o canto inaudível, as promessas dos desejos mais íntimos e aqueles que, sem contar, sempre desejaria.
Obviamente que esta sequência, o qual prezo pela audácia de não querer representar a voz mais tentadora de todas as águas, é esquiva na sexualidade, as sereias permanecem criaturas distantes, quase abstractas, metáforas antes de corpos. São, de certa forma, sereias ‘nolanizadas’, coerentes com um cineasta que, ao longo de toda a carreira, revelou uma relação particularmente fria com a libido, a carnalidade e o próprio olhar do desejo. O mesmo sucede com Circe, a feiticeira sedutora (pelo menos em muitas versões do mito), aqui interpretada por Samantha Morton, transforma homens em bestas com um arruaceiro toque, a cena é da mesma forma deliberadamente desprovida de sexualidade, preferindo uma artificialidade quase sintética.

Visualmente, esta “Odisseia” à secura de Nolan, promete e cumpre fora excepções evidentes, a sua fisicalidade, sentimos o mar, a areia, o desespero dos homens dentro do cavalo troiano, em contraste com um ciclope em CGI ou uma criatura devoradora nos penhascos (o momento mais artificial de todo o filme). Há um equilíbrio das duas forças, entre a fisicalidade e o artificio (ou será melhor, artificialidade) constituindo num filme de Cinema, da sala enquanto evento-espectáculo. Mesmo sendo o melhor Nolan em uma década (quase), dos tempos da experimentação e da descoberta, antes da sua afirmação e confirmação do trono, não o fazemos mais do que é, a promessa desse mesmo circo nas mãos de quem sabemos se tratar, o mantém nos seus intrínsecos vícios (agora mais moderados), menos dependente do ruído sonoro e musical, com colaborador Ludwig Göransson a oscilar entre o acompanhamento timoneiro, a epicidade convencional e em momentos de rara sensível mestra na tão referida sequência da psicanálise troiana pelas palavras do Ulisses disfarçado.
Temos Nolan na sua forma mais arriscada e igualmente contemplada à sua figura. Agora, que regresse à Ítaca e reclame o seu “trono”!

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