A pergunta surgiu num jantar entre amigos em que se discutiam lançamentos recentes. Quase de repente (embora o que parece repentino já tenha um par de anos de preparação), uma fornada de “youtubers” fez a transição para o cinema, fazendo relembrar uma outra onda muito antes de o YouTube ter começado.
Estávamos na década de 90 do século passado. Nomes como os de David Fincher, Spike Jonze, Michel Gondry, Mark Romanek, Anton Corbijn, Jonathan Glazer ou Tarsem Singh ficaram primeiramente famosos a filmar para as maiores estrelas do pop/rock numa época em que o videoclip foi elevado a arte, puxando de conceitos estéticos aprumados, usando inclusivé a história e a linguagem do cinema (e outras artes adjacentes) do passado como referência explícita. Olhe-se a título de exemplo para “Express Yourself” (Fincher) ou “Bedtime Story” (Romanek) de Madonna, “Sabotage” dos Beastie Boys (Jonze), “Army of Me” da Bjork (Gondry), “Behind the Wheel” dos Depeche Mode (Corbijn), “Karmacoma” dos Massive Attack (Glazer) ou ainda “Losing My Religion” de R.E.M. (Singh). Viriam anos mais tarde a transitar da MTV para o Nimas.
Claro que a legitimização desta forma de mera ferramenta de marketing em “arte” teve também um alto patrocínio de realizadores já bem estabelecidos como Martin Scorsese (“Bad” de Michael Jackson), ou John Landis (o incontornável “Thriller” também de Michael Jackson), que assim ajudaram a que os vídeos não fossem só uma cena “fixe”, mas que fossem inclusivé expostos em museus como o MoMA.
Viajamos então para o presente. E eis que começamos a ter uma (pseudo?) democratização do espaço audiovisual com a invenção do YouTube, que permite pelo menos a que artistas com talento comecem a divulgar aí os seus primeiros trabalhos. Uns tinham passatempos sui generis pelos seus canais como criação de personagens de videojogo satíricas inspiradas em fenómenos como Pikachu e Ronald McDonald (irmãos Philippou, autores de “Talk to Me” e do ainda melhor “Bring Her Back“). Outros certamente influenciados pelo subgénero found footage feito por “tuta e meia” popularizado por filmes como “O Projeto de Blair Witch“, e mais tarde, na década seguinte “Atividade Paranormal” e “REC“, como Kane Parsons – cujo “Backrooms” estreia esta semana por sinal. Chris Stuckmann era um crítico de cinema online que fez uma vaquinha (via Kickstarter) para fazer o seu “Shelby Oaks” (2024), filme adquirido eventualmente pela gigante NEON. Já David F. Sandberg lançou a sua curta-metragem “Lights Out” (2013) em exclusivo no YouTube e no Vimeo antes do realizador expandir a história para o formato longa em cinema – estávamos ainda em 2013!
Quem também a) se inspirou no género found footage e b) se aventurou pelo formato curta-metragem através do seu canal de YouTube antes de finalmente expandir para o grande ecrã foi Curry Barker. O jovem realizador de 26 anos viu a sua longa-metragem de estreia ser alvo de um autêntico leilão que culminou na compra ao preço de 15 milhões de dólares (mais ou menos tostão) por parte da Focus Features, deixando para trás as notoriamente sedentas NEON e A24. Mas assistindo a “Obsession“, atualmente em exibição, percebemos o porquê da compra milionária: estamos perante um raro caso de filme cujo “hype” é merecido. Um filme que pode aqui e ali brincar com os chamados “sustos de gato” – um deles particularmente eficaz e inesquecível – mas insiste ainda assim em subverter qualquer expectativa que o realizador tivesse sobre o desenrolar do filme, e recusa ultimamente qualquer manta ou curativo para apaziguar o espectador. Ele sai apropriadamente apreensivo. E esta apreensividade miraculosamente estará a ajudar a “Obsession” a tornar-se no fenómeno passa a palavra de 2026: o filme acumula já só no mercado norte-americano mais de 62 milhões de dólares, tendo crescido de audiência em cerca de 39% face ao fim-de-semana de abertura. O orçamento? Uns míseros 750 mil dólares; mesmo somando os 15 milhões acima da aquisição, está a dar lucro praticamente desde o primeiro dia…
Assim como o vídeo não matou efetivamente a estrela de rádio, mas sim forneceu-lhe outro canal de exposição, também o YouTube deu nova vida aos criadores de conteúdos. Que haja bons e maus frutos dentro de uma plataforma, isso sempre haverá. Sejamos otimistas, tendo em conta o melhor que estes novos criadores já nos trouxeram nos últimos minutos, e acreditemos então que o futuro da sétima arte passa inevitavelmente por aqui.

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