Entre paixões de juventude e ciúmes que rapidamente degeneram em pulsão destrutiva, “Dis-moi juste que tu m’aimes” parece emperrar numa versão feminina de “Fatal Attraction”, com José Garcia (um pouco atrapalhado no papel) a assumir o papel do amante obsessivo em jogos de poder e predação emocional. Contudo, o filme de Anne Le Ny perde na comparação com o clássico de Adrian Lyne, e não apenas por não enveredar pelo “I won’t be ignored” de Glenn Close, nem sequer pelo ambiente algo pobretanas quando colocado lado a lado com uma produção de Hollywood, mas sobretudo porque nunca consegue ser, nem nos próprios exageros, coerente ou consequente.
O cariz destes adultérios e paixões efervescentes conduz-nos a uma pseudo-sátira do próprio modelo, e, como bem sabemos (ou já provámos) os franceses costumam perceber umas ‘coisinhas’ ou outras sobre amantes e romances passageiros; faz parte do ADN cinematográfico, desse eterno ménage-à-trois. Nesse sentido, entre um ou outro pormenor, Le Ny revela neste (também) seu argumento saber do que fala (subtil sequência em que a ‘adúltera’ lava a roupa depois do caso de forma a inibir as fragrâncias do sexo de ocasião), antes de resvalar para um “thriller” resolvido às três pancadas.
Ao juntar-se ao retrato, surgem outras fragilidades: o casal “vítima” revela-se demasiado frágil e pouco convincente, e até a protagonista, interpretada por Élodie Bouchez, permanece distante, quase opaca, incapaz de gerar a empatia necessária para sustentar o núcleo afectivo da narrativa, chegando mesmo a exigir ao parceiro (Omar Sy) a colecta de uma “dívida” como uma solução pouco defensável. Do outro lado, ficamos embaraçados perante o que nos é pedido e acabamos por desejar alternativas mais plausíveis, ou até a ruptura de tão tedioso casal (até porque nos breves momentos, Sy detém melhor química com Vanessa Paradis, o tal amor de “verdes anos”). Nem aplicando a arte nipónica kintsugi, o de valorizar as fissuras (ou melhor “transformar cicatrizes em jóias“), como é sugerido na trama, o objecto muda de rumo.
Resumidamente, “Dis-moi juste que tu m’aimes” é série B sem nunca o assumir verdadeiramente essa natureza, acabando, ainda assim, relegado para essa liga. Não há caso aqui …

Deixe um comentário