Dos ocres desérticos, poeirentos, e negrume opaco dos niqabs, emerge um oásis interdito ao olhar masculino. O engodo é o “fuel”: combustível em jerricans que serve de desculpa para cada uma dessas mulheres entrar naquele recinto. Mas lá dentro, fora os niqabs e dos hijabs, as cores explodem em cada canto. Há animais expostos em vitrinas, um camaleão numa gaiola improvisada, por exemplo, e um recreio construído com entulho e restos abandonados ali ao lado. As mulheres congregam-se, trocam histórias, libertam murmúrios há muito retidos e vendem ou compram artefactos proibidos (“olha só esta lingerie, brilha no escuro”), enquanto os contraceptivos estão à mão de semear como um silencioso gesto revolucionário.
Esta estação, literal e alegórica, funciona como refúgio, um enclave feminino erguido contra a asfixia patriarcal num Iémen fragmentado pela Guerra Civil, após a tomada do Estado pelos rebeldes Houthis em 2014. “The Station”, título que ressoa como um canto paradisíaco no meio da desolação, é a primeira longa-metragem de ficção da realizadora iemenita-escocesa Sara Ishaq, que de certa forma parece prolongar, a cartografia íntima já delineada em “The Mulberry House” (2013), onde, para além do retrato dos progenitores, revisitava o país das suas origens à beira da revolução. Esse regresso ao território materno conduziu-a não só ao documentário, mas também a esta ficção construída a partir de histórias verídicas, algo sugerido logo no início pelos habituais cartões informativos.
Contudo, o filme repressivo que inicialmente se desenha guarda uma humanidade mais íntima: o reencontro de duas irmãs colocadas em margens opostas da trincheira, agora cúmplices num esforço desesperado para impedir que o filho e sobrinho sejam enviados para o campo de batalha. Para isso, precisam de pagar uma taxa num valor inconcebível. “The Station” transforma-se assim numa obra sobre comunidade, sororidade e mecanismos de entreajuda, ainda que presa a uma dramaturgia que hesita constantemente entre o realismo social, o melodrama íntimo e a alegoria política. Essa indecisão tonal constitui simultaneamente a fragilidade e a singularidade do filme.

São as sortes e os infortúnios de uma realizadora em início de percurso … não exactamente por inexperiência, mas porque Sara Ishaq parece procurar, dentro do próprio filme, a forma definitiva capaz de conter estas histórias, e acima de tudo a manobração do tempo. Esse elemento, aliás, muitas vezes tido como o mais fiel aliado do cineasta, ou o seu pior inimigo … neste caso, recaídas na segunda opção. Ainda assim, perante essas fragilidades narrativas, “The Station” não se deixa intimidar. As interpretações revelam convicção no retrato humano, e a empatia que o filme procura transmitir (por vezes ingénua, mas profundamente optimista) acaba por contaminar o olhar do espectador. Talvez seja precisamente desse horizonte de esperança que o Iémen necessita (segundo a realizadora esta abordagem serviu como resposta à “cobertura negativa” dos medias ocidentais em relação ao país).
Estreado na Riviera Francesa, com Festival de Cannes em ebulição, mas integrado na paralela secção La Semaine de la Critique, “The Station” parece dialogar com algumas obras daquele círculo geográfico entre o Mediterranêo e o Mar Vermelho que estiveram presentes em edições anteriores, como o egípcio “Yomeddine” (Competição Oficial de 2018) ou de “Capharnaum”, da libanesa Nadine Labaki (na competição do mesmo ano). No entanto, o filme de Sara Ishaq revela-se mais humilde, eticamente como formalmente, menos manipulador e sem recorrer à “porno-miséria” presente nas obras comparadas. Pontos claramente a seu favor, não apenas enquanto “primeira obra”, mas também no panorama do cinema contemporâneo em geral.

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