Com os seus quase dois metros de altura, a jovem rural Ulyana Semjonova (1952 – 2026) captou rapidamente a atenção das federações desportivas soviéticas, que procuraram persuadi-la a integrar a selecção olímpica feminina de basquetebol, tornando-se mais tarde bicampeã da modalidade. Contudo, mais do que uma simples biopic ou um uso do desporto para fins motivacionais, “Ulya” parte do existencialismo desta figura (uma espécie de coming-of-age sobre a sua desadequação e alienação) até à cedência final à própria predestinação. Não é, de todo, um filme verdadeiramente interessado em inspirar ou glorificar a carreira, o desporto ou o regime soviético, aqui subtilmente observado, com o “corpo do Estado” a servir de prova desse individualismo moldado pela ordem de uma nação.
Esta produção letã, fotografada num preto-e-branco mergulhado numa espécie de ‘miasma mesmerizante’ (trabalho de Wojciech Staroń), constrói-se como um conto sobre esta invulgar gigante e sobre o universo no qual se vai inserindo até, por fim, nele se adaptar. No fundo, para o realizador Viesturs Kairišs, trata-se da concretização do desejo de levar esta história ao grande ecrã, em cumplicidade com o actor Kārlis Arnolds Avots, que empresta corpo e angústia à personagem feminina. Segundo a produção, o projecto começou a ser discutido no primeiro encontro entre realizador e actor, após este primeiro o ter convidado para o seu teatro, e o segundo ter confessado a ambição de interpretar o papel.
Os créditos finais revelam essa origem: o objectivo cumprido do protagonista em “ser” Ulyana, permitindo ainda conhecer a atleta em pessoa, como demonstra a fotografia que surge como recordação derradeira antes dos créditos definitivos. “Ulya” conjura um sonho húmido e, por vezes, traiçoeiro; o embelezamento estético conduz-nos a esse estado hipnótico. Mesmo momentos como o sangramento de um bovino (cuja aflição do “bicho” se dissolve no encantamento profano criado pelo filme) revelam uma das raras sequências em que sentimos o peso do dever nacional, o custo e o sacrifício pessoal.
Nessa ordem simbólica entre bovinos e sovietismo, Sergei M. Eisenstein já havia demonstrado, através da sua montagem paralela, o potencial alegórico desse animal. Aqui, o improvisado matadouro (com Ulyana a servir de carrasco num pequeno espectáculo familiar) transforma-se numa espécie de auto-superação dentro daquele espaço patriarcal. É uma sequência simultaneamente “bela”, no sentido da estetização, e profundamente alusiva, sobretudo em contraste com um filme onde o desporto é filmado sem desígnio nem fascínio particular. Porque aquilo que verdadeiramente interessa a “Ulya” é perceber quem era aquela mulher. Mesmo que, no fim, nos saiba a pouco.
Filme visualizado no âmbito da secção Un Certain Regard do Festival de Cannes

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