Olhando em retrospectiva, foi o filme que definiu Lucio Fulci e aquele, na sua carreira, com a primeira utilização assumida de efeitos práticos nas sequências gore. Contudo, a violência aqui possui um efeito catártico, por vezes até punitivo e castrador. “Don’t Torture a Duckling” (“Non si sevizia un paperino”, no título original italiano; “O Estranho Segredo da Floresta dos Sonhos”, o bizarro título adquirido em território português e brasileiro) centra-se numa remota aldeia siciliana ainda mergulhada na obscuridade, abalada pelas grotescas mortes de rapazes. A polícia investiga os misteriosos homicídios, enquanto a culpa recai sobre a errática Maciara (a brasileira Florinda Bolkan, repetente no universo fulciano depois de “A Lizard in a Woman’s Skin”), anunciada ao vilarejo como a “bruxa” do lugar. Porém, mesmo após o linchamento público, as mortes prosseguem … um detective (Tomas Milian)  procura o verdadeiro homicida.

Giallo rústico e sujo, claramente fascinado pela heresia e pelo abalo das instituições alimentadas pela ignorância comunitária, o filme constrói-se (nas palavras do próprio Fulci) como a sua obra predilecta. Mais do que isso, é um “whodunit” muito mais condimentado do que o habitual, desmontando a actual teoria do “elevated horror” e da cerebralidade associada ao terror moderno, em oposição do ‘escapismo’ do género de outrora. A verdade é que “Don’t Torture a Duckling”, mesmo sob o disfarce de um giallo rotineiro, exige uma arquitectura rigorosa, cena após cena, consolidando um estilo ora bruto, ora barroco, que inferniza um falso bucolismo blasfemo. 

Sob essa carapaça transponível, esconde-se ainda uma crítica à repressão e à opressão exercidas sobre os diferentes pilares, sejam politizados (manifestado nas forças autoritárias), sejam no clerical. Este último ponto ganha especial enfoque através da contaminação colectiva de uma comunidade decidida a fazer justiça pelas próprias mãos, movida pela superstição. Basta recordar o linchamento no cemitério: sem moral proclamada, “torturam” a “bruxa” numa frieza quase encantatória, acompanhada pelo melancólico “Quei Giorni Insieme a Te”, de Ornella Vanoni, a tocar num rádio. A diegese entranha-se nessa violência, contrapondo com a sua barbárie, acabando por servir de referência a outros cineastas (e a muitos tarefeiros, diga-se) que exploraram a bestialidade e a agressividade em sintonia com contrastes musicais.

Dentro desse clima repressivo, o puritanismo também se manifesta como assassino, revelando uma das obsessões dos futuros slashers americanos: castigar a libido da juventude. Surge então uma a outra “bruxa”, Patrizia (Barbara Bouchet), uma espécie de latifundiária sedutora a despertar desejos e pulsões hormonais nos rapazes, sendo habilmente e descaradamente colocada pelo filme na linha dos suspeitos, também opositora narrativa do olhar maternal de Irene Papas, meio silenciada mas imensamente presente. Porém, a verdadeira identidade do assassino é ainda mais polémica, e as motivações dos seus actos atingem em cheio toda a estrutura crítica composta por Fulci (também co-argumentista ao lado de Roberto Gianviti e Gianfranco Clerici), novamente recorrendo a um astuto piñata, desmontando expectativas a cada golpe.

Curiosidade: o primeiro título atribuído ao filme era “Don’t Torture Donald Duck”, provavelmente rejeitado por tocar no património da The Walt Disney Company e, simultaneamente, por revelar uma peça fundamental da investigação dentro do próprio filme.

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