Juntamo-nos à falsa distopia futurista; ou seja, estamos num futuro bem próximo, a escassez de água é uma realidade, mas não é essa “anomalia” que interessa a “Viva”. Aliás, relembrando outros exemplares de falsas distopias (como “Mommy”, de Xavier Dolan), interessa sobretudo a vulgarização do futuro e esse engenho de contar dramas variados longe da contemporaneidade e da reconstituição histórica.

Dirigido e protagonizado por Aina Clotet (actriz intermitente entre produções francesas e espanholas), “Viva” proclama a história da quarentona Nora, sobrevivente do cancro da mama, que inicia uma relação com um rapaz vinte anos mais novo e com uma vida inteira pela frente. Esse desejo colocá-la-á em cheque perante a vida profissional e pessoal, sendo nesse malabarismo que o filme se concentra, com uma actriz empenhada em conferir empatia a uma personagem facilmente entendida no extremo oposto, até porque o retrato dos homens neste universo, variam entre a infantilidade e o despedaçado.

Por outro lado, Nora é uma alma viva, de mangas arregaçadas para sustentar esse percurso contra uma sociedade que constantemente lhe relembra a condição de quase meia-idade (e de mulher). Contudo, é no corpo, nas sequelas de uma guerra profunda e visível, que somos remetidos para outra batalhadora do outro lado do Atlântico: Sônia Braga e a sua Clara em “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Ambas se instalam no signo das mulheres que não olham a meios nem a alheios para concretizar o próprio desejo: o tipo de mulher que “assusta” homens, a da vontade própria, da libido sexual, que tudo faz não para a desmontar, mas para a saciar. Desse ponto de vista, “Viva” é claramente um filme feminista, tentando, ainda assim, humanizar Nora, o qual nunca é santificada nem devidamente “empoderada” (termo que, confesso, encontra-se cada vez mais abstracta e simplória). Ela erra, comete imprudências, engana, fode e percebe que apenas isso lhe  basta para colocar um sorriso nos lábios.

Contudo, há algo de rastejante na sua história (e asqueroso até), uma barata  a operar como animal totémico, surgindo e desaparecendo. Se a simbologia desse insecto nos conduz aos quartos obscuros de Clarice Lispector (mais precisamente “A Paixão Segundo G.H.”), então a barata funciona como consciência ou materialização da nossa imunidade, daquilo que desprezamos em nós… Ou, entendendo o futurismo encenado (por vezes esquecido perante as tramas vividas), como sucessora neste plano após a nossa extinção.Até esse derradeiro momento, e citando “Eyes Wide Shut” de Kubrick no quase cair do pano: “And, you know, there’s something very important that we need to do as soon as possible”, diz Nicole Kidman, seguida pela pergunta de Tom Cruise:What’s that?”. “Fuck”, responde ela. Ponto final. Realmente até às proximidades do Fim do Mundo sempre ansiamos a foda milenar.

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