Não deixa de ser uma recomendação provocatória em certos círculos, mas Naza é uma boa opção para esta quadra de Halloween, sobretudo para quem já pôs Hollywood em dia (“Resident Evil“, “Obsession” et al).

O filme do duo israelita Yuval Abraham e Rachel Szor, tão impactante para o mundo que obrigou a gerar um filme-cópia por parte de outros israelitas militantes do genocídio (para iludir, supõe-se), é também dos filmes mais difíceis de falar do ano. Talvez porque falar dele implique desmontar o impacto emocional, rebobinar certas cenas que noutro contexto poderiam roçar o manipulatório, o repetitivo, mas aqui, se tornam essenciais para o abre-olhos, para a revelação de uma “verdade inconveniente” para a própria classe burguesa, que tentou tanto tempo ignorar, mesmo após “No Other Land” (também com Yuval Abraham) ter mostrado um outro lado – os palestinianos a serem despejados em tempo real. Há aqui em particular uma história que me choca, porque, lá está, fugiu nos noticiários, claro que seria algo implícito, e envolve… cães esfomeados.

No tempo em que escrevo estas linhas, não há um vencedor claro com maioria nas eleições israelitas entre Netanyahu, o grande promotor das ofensivas em Gaza, e Eisenkut, um homem mais moderado na política… “externa”. Ainda assim, Netanyahu consegue continuar a liderar os assentos. O que faz pensar que o espectro do 7 de outubro ainda está bem vivo, e ainda se sobreponha ao massacre de dezenas de milhares de civis.

Mas voltando a Naza, um filme que, a partir de um terraço, nos conta o que se passa através do depoimento de 24 soldados israelitas que foram postos em anonimato pela produção, revelando sombras de perfil e vozes alteradas. Uma obra que recupera o poder do desenho num caderno como explicação para o inexplicável: como é possível estar apenas a cumprir ordens, a carregar num botão, sem pensamento crítico? Eis a banalidade do mal, eis o falhanço do sistema ironicamente pela crença cega nele, eis o novo fascismo imposto. São 24 vozes erguidas, e automaticamente em risco só por se mostrarem como vultos, pensamos nós, enquanto mesmo ali ao lado entramos em “janela indiscreta” por casas de Tel Aviv a viver o seu dia-a-dia rotineiro, sem ser preciso um muro a separar estas duas realidades.

“The Zone of Interest” de Jonathan Glazer, outro filme sobre sistemas e a “banalidade do mal” de Hannah Arendt, já nos tinha feito o piscar de olho para os tempos assustadores em que vivemos no hoje, mais de 80 anos volvidos sobre o Holocausto, sobre a ironia psicológica das vítimas virarem perpetradores, e ninguém estar propriamente imune ao “sistema”. Questionar o próprio sistema numa era de pós-verdade e de aproveitamentos políticos revela-se espinhoso, pois temos de saber separar o trigo do joio, que é como dizer separar movimentos populistas de extrema-direita de quem quer efetivamente uma mudança.

Israel pode não virar a página para já, mas o mundo está a mostrar resistência. Esta semana Sérvia e Brasil mostraram sinais de que as redes sociais e a Inteligência Artificial, parte do novo sistema, não têm sempre que vencer… ferramentas que, por sinal, têm sido amplamente usadas por Israel para espalhar ódio, desinformação e, como este documentário nos conta, matar com conhecimento famílias inteiras só para caçar um elemento suspeito. Haja esperança no final desta matança.

(Naza está ainda em cartaz nos cinemas portugueses, e o The Guardian prometeu lançar em streaming gratuito no final do próximo mês. Dito isto, nada baterá a experiência em sala. )

Deixe uma Resposta

Outras leituras