Antes que a blasfémia gere as suas consequências (talvez um círculo infernal aguarde os detractores do consenso pleno nas suas específicas esferas cinéfilas), não é possível assistir a “13 Alfinetes” sem ter em conta a restante obra da dupla João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, começando pelo primeiro e reconhecendo o segundo como parte umbilical dessa cooperação.

Chega-nos de braços dados com o milagre dos milagres, num ‘repérage’ estendido em algo que não se classifica propriamente como filme, mas antes como scherzo, termo oriundo da composição musical clássica (alicerçado ao movimento rápido e tom jocoso) e aqui eleito para designar os treze “apontamentos” (alfinetadas, até). São as tais “pontadas” dirigidos à Terra, essa esfera global que se impõe nos sonhos dos cineastas, num início imagético que casa com a consumação da fantasia (veritas). Mas, em todo caso, contrariando ou autocorrigindo-se, não se trata do mero fantástico: trata-se, antes, de devoção. E que devoção é essa? Das imagens sacras ao persistente altar ao seu santo padroeiro, Santo António, onde a espiritualidade e as hagiografias são citadas, recitadas e extraídas na procura de algo digno de uma missa improvisada e performatizada.

Em “13 Alfinetes”, o ponto de partida encontra-se num dos muitos milagres do Santo Casamenteiro: o milagre do Martim de Bulhões (pai de Santo António), em que a vítima é ressuscitada por via do ‘espírito santo’ para identificar o verdadeiro homicida e, assim, ilibar Bulhões das acusações. Através deste centro, mitológico ou histórico (convém aqui a crença do leitor / espectador), desenha-se uma órbita que ziguezagueia em cedências ao universo próprio e queer dos realizadores, dos travestis aos marginalizados, passando pelos zombies (numa piscadela de olho aos de Lucio Fulci, aos seus corpos fétidos e em decomposição, mais do que aos cadáveres sociopolíticos de Romero) e descansado as vistas em padres feito Tia Cátia em programas de culinária. Tudo nos soa a uma espécie de best of, uma abstracção vertiginosa evocada, relembro eu, por Miguel Gomes nos primeiros minutos da sua trilogia “As Mil e Uma Noites”, numa tentativa quase absurdista em espelhar o ego do realizador no próprio filme.

Aqui, porém, a dupla parece entrar directamente no plano (algo que João Pedro Rodrigues já ensaiara através da revelação final de “O Ornitólogo”, a sua obra de ruptura com a fábula e com o filme-do-artista que seguiria até então, ou inserindo-se dentro da rota turística de “Os Verdes Anos” em “Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes Nem Depois”). É também por isso que vemos em “13 Alfinetes” como um “filme de artista”, dito e feito, mais do que de um cineasta. Um cujo o seu brinquedo, um joguete a fazer de conta, onde apenas conseguirá abocanhar alguns.

Goya, ou o goyesco cada vez mais goyesco: do mistério ao ocultado, como nos frescos de San Antonio de la Florida, em Madrid, que só se revelam plenamente ao olhar desarmado e à desculpa do academismo propício à outra visão, ao cine-olho. A ficção é aí heresia, talvez a maior das ofensas a Deus e às suas criações, em “13 Alfinetes” é enfeite, instalação do seu “criador”, a tal dupla e a sua constelação, temas e temáticas, povos e povoados, como tão bem entender.

Saímos daqui tal como entrámos, iguais a nós próprios, depois de termos caído no umbigo dos tais artistas (que agora querem ser chamados como tal), desejosos de se equipararem a Goya e aos outros pintores de vanguarda (“Fogo-Fátuo” já continha essa ambição de materialização). Mas que saudades tenho dos tempos em que João Pedro Rodrigues era somente um realizador! O que não o impedia de ser um artista à sua maneira: afinal, o cinema é arte, só que é uma arte distinta (vampírica porém), mas própria, com os seus meios e a sua linguagem, em vez de se deixar reduzir a isto ou àquilo, a uma peça para emoldurar e colocar na sapateira da entrada. Não defrauda graças ao aviso de abertura, é um aperitivo, apenas isso, esse scherzo …

“13 Alfinetes” é isso mesmo: um teaser de algo maior (assim o esperamos), ainda por vir.

Competição Internacional – Doclisboa 2026

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