Olga Gonçalves, Graça Pina de Morais, Maria Cecília Correia, Alice Sampaio e Maria Amélia Neto: cinco mulheres, cinco escritoras, cinco sombras a quem é dirigida esta “carta”, um filme com a promessa de trilhar caminho por entre os cardos do esquecimento, cada uma delas atravessada por diferentes contextos e antagonismos, mas sobretudo envolvida em estilos e movimentações que importa redescobrir. A Rilke foi apropriado o título “Carta a uma Jovem Escritora”, documentário de Marta Pessoa, com a colaboração (sempre fiel) de Rita Palma e da também escritora Susana Moreira Marques, novamente na senda de figuras desaparecidas pelo nosso ‘zeitgeist’. Um exercício de busca que culmina numa interacção e na construção de um mapa incógnito.
Com estreia mundial no Doclisboa, na secção Heartbeat, o documentário chega-nos com a promessa, a vontade e a resistência de contrariar um cânone previamente estabelecido e trazer à luz estas mulheres, incorporadas na essência da escrita, das suas vivências, alegrias, famílias e dores. Depois delas, como nos comportamos perante as escritoras? Numa conversa com Marta Pessoa, falamos destes vultos, fantasmas e espectros na salvaguarda do filme, do processo e da literatura, havendo ainda tempo para assinalar outros esquecimentos.
Persistir é a palavra-chave, inscrita como uma espécie de cor nesta sua ‘escritora sem rosto’, a figura que nos surge pontualmente entre trechos, numa alusão ao “soldado desconhecido” numa guerra a mencionar, aqui transfigurado em “escritora desconhecida”: a representação de um gesto de apagamento contra o qual tanto se afronta.
Recordo que na última vez que falámos, aquando da “A Donzela Guerreira”, fiz-lhe uma pergunta: se não fosse o regime, que outros factores poderiam tornar aquelas escritoras invisíveis hoje? E entretanto surge este filme sobre cinco escritoras que, em contextos muito diferentes, continuam a ser pouco conhecidas. Por onde começou tudo isto?
Não começou na “A Donzela Guerreira”, e sim, começou antes da “A Donzela Guerreira”. Aconteceu com a tentativa de adaptar “Tanta Gente, Mariana”, da Maria Judite de Carvalho, só que na altura o projecto não foi apoiado porque, segundo as razões dadas, tinha algo a ver com uma espécie de desvalorização da própria escritora e do tema do livro. Como alternativa surgiu a “Donzela Guerreira” (com e sobre a Irene Lisboa e a Maria Judite de Carvalho), que diria, não serem exactamente escritoras esquecidas naquela altura.
A Irene Lisboa continua a ser acarinhada, mesmo que a maioria das pessoas não a leia. Há uma memória afectiva dela, tanto no meio literário como na leitura. Depois veio a Maria Lamas, que era para ser um filme sobre ela (não necessariamente sobre um livro, mas sobre a figura), uma biografia tão gigante que atravessaria o século XIX, com lutas republicanas, o Estado Novo (onde centraria o filme), com a Susana Moreira Marques a fazer uma espécie de correspondência contemporânea da viagem que a Maria Lamas fez em 1947. Estamos a falar de uma mulher que, em plena ditadura, com mais de 50 anos, partiu sozinha por Portugal para provar ao Salazar que as mulheres viviam mal, e foi a partir dessas conversas, sempre muito em volta da literatura portuguesa e das escritoras, que começaram a surgir nomes.
A Susana começou a desenvolver, em 2019, uma série de artigos chamada “Escritoras Esquecidas” para o Jornal de Negócios. Atenção: eram todas escritoras publicadas, por editoras como o Caminho, a Bertrand, a Ática, e com prémios. Não estamos a falar de ninguém que escreveu uns poemas e colocou numa gaveta, estamos a falar de mulheres que existiram no meio literário com toda a sua presença.

E como se passou da série de artigos para o filme?
A ideia inicial nem era um filme, mas sim uma série televisiva. Seriam as dez escritoras dos artigos da Susana, divididas em, talvez, três temporadas, porque há muitas mais ainda por descobrir dentro do mesmo período.
O critério da Susana para escrever sobre aquelas dez foi que a memória delas ainda estivesse próxima (nasceram todas há cerca de cem anos). A Graça Pina de Morais fez cem anos de nascimento no ano passado, a Alice Sampaio faz para o ano que vem. Estamos todas aqui nos centenários, naquelas efemérides que tanto se gosta de comemorar. A série nunca avançou e, entretanto, começámos a pensar o que seria um filme sobre elas. Não seriam apenas biografias, ou dar a conhecê-las de forma directa, seria antes uma evocação (um caminho possível).
Foi por isso que escolhemos estas cinco em particular: porque juntas traçam um certo caminho possível para futuros leitores. Cada uma tem uma relação diferente com a escrita, com a visibilidade, com o esquecimento e são essas diferenças que nos interessavam.
Essas razões diferentes para o esquecimento (a diversidade dos casos) pesou também na selecção? Ou por outras palavras, o porquê destas cinco e não outras? Acredito que elas são contemporâneas de muitas outras escritoras sob a mesma situação.
Claro que sim! Mas a partir do momento em que decidimos fazer um filme, entrámos na lógica dramatúrgica do cinema: o que é que faz sentido juntar? O filme não é sobre o esquecimento, é sobre o que persiste. Não há esquecimento sem lembrança, e não há lembrança sem esquecimento. Portanto, faz-se um filme não sobre o esquecimento mas com as pessoas que lembram. Essa é a matéria e aí as razões diferentes pesam muito: quem é que lembra? Quem é que mantém estas mulheres vivas? De que forma é que isso aconteceu?
Comecemos pela Olga Gonçalves, uma das perguntas que lhe fizemos é como seria reeditar, e o editor disse-nos exactamente isso: é difícil reeditar escritoras que não estejam em domínio público e que não tenham um herdeiro activo e interessado. No caso da Olga Gonçalves há herdeiros, mas há uma cadeia de complicações. Já se desfez muita casa, já se destruiu muita biblioteca e muitos objectos artísticos porque os herdeiros não tiveram esse interesse, ou as questões económicas não coincidiram e a Olga Gonçalves era tão conhecida nos anos 80 como a Lídia Jorge, como a Teolinda Gersão … e ao mesmo nível até … e publicada pelo Caminho. Hoje é muito fácil encontrá-la nos alfarrabistas e muito barato, porque não está cotada. Portanto, a mim não me aflige o facto de Olga Gonçalves ser pouco relembrada, mas antes, porquê que Carlos de Oliveira, por exemplo, está tão esquecido.

Deixe-me só fazer apenas uma pausa nesse lamento … voltando, cada uma das cinco escritoras tem uma história diferente de relação com a própria escrita: a Maria Cecília Correia, por exemplo, optou por publicar ela própria os seus livros, contudo de um jeito bastante artesanal, e distribuí-los como presentes aos seus familiares e amigos.
Sim, e isso não é inédito, mesmo que pareça. Há muitos escritores na história de Portugal, homens e mulheres, que tinham outras profissões e as exerciam. A Graça Pina de Morais é o exemplo mais evidente no filme porque era médica (como o Miguel Torga ou o Bernardo Santareno, que eram grandes amigos dela). A Maria Cecília Correia percebeu a certa altura que a via editorial convencional era muito difícil, fez a sua opção, e durante anos publicou e distribuiu os seus livros de forma quase artesanal como bem dizes. O que é admirável é que a neta mais tarde se interessou por esse trabalho, tornou-se editora, e agora esses livros andam nas livrarias independentes. É uma história que começa na frustração e termina ( ainda que parcialmente, ainda que tardiamente) numa forma de continuidade.
Nesta história, quem faz boa figura é claramente a Antígona, e digo isso sem nenhuma relação especial com eles [risos], mas fazem um trabalho que é raro. O editor que esteve à frente da Antígona durante anos [Luís Oliveira] sempre fez questão de manter a Graça Pina de Morais disponível, mesmo que não vendesse. Era uma decisão de princípio: a Graça Pina de Morais tem de estar sempre disponível, e daí vieram as reedições, a compilação dos contos completos … por vezes é uma decisão editorial e é só isso, mas muda tudo!
Partindo para a Maria Amélia Neto, que é um caso diferente diria, uma poeta que o editor actual descreve como difícil de encaixar, porque a sua poesia não pertencia ao movimento corrente, nem ao neo-realismo nem ao modernismo, e parece que também hoje não encontra um lugar claro nesse seu estilo. E só para acrescentar, o seu editor diz algo pertinente sobre isto no filme: “que a poesia é escrita não para os outros mas para nós próprios”.
É discutível … todos os escritores gostam de ser lidos, acho que é um facto. Mas percebo o que ele quer dizer: escreves por ti, e depois o valor é o da poesia em si, independentemente de quem a publica ou de como circula. Há uma pureza nessa posição, mesmo que seja frustrante do ponto de vista da visibilidade. Ele fala também do esquecimento como algo que pode não ser necessariamente mau e até consigo identificar-me com isso. Diz que às vezes estamos contaminados por certos escritores do passado e que esquecer alguns pode abrir espaço para outros que estavam ofuscados.
Voltamos à Maria Judite de Carvalho, que esteve durante muito tempo ofuscada pela figura do marido, Urbano Tavares Rodrigues, que era uma figura muito presente e era um escritor charneira do neorrealismo. A Sofia de Melo Breyner era a mulher do Francisco de Sousa Tavares. Estas sobreposições acontecem. A Maria Amélia Neto era, em certa medida, uma versão feminina de Fernando Pessoa (uma secretária numa empresa que guardava os poemas numa caixinha, que era muito activa em todos os meios literários, que sempre se viu como escritora).
Essas mulheres que faziam parte das associações e círculos literários eram muitas vezes mais apagadas nesses espaços do que na própria escrita. Há uma entrevista muito reveladora com a Isabel de Nóbrega numa manifestação pós-25 de Abril nos arquivos da RTP: são três homens e ela, o entrevistador deixa-a para o fim, passa-lhe o microfone porque acha que os outros são mais importantes, e quando chega a vez dela, apresenta-a como jornalista, e ela faz questão de dizer: ESCRITORA. Naquele momento percebe-se tudo sobre as dinâmicas que existiam.
Sobre o título? “Carta a Uma Jovem Escritora”, vejo aqui uma referência ao Rainer Maria Rilke, certo?.
Obviamente! O Rilke, nas “Cartas a um Jovem Poeta”, diz para se entregares, para dares tudo, mas a Virginia Woolf, no seu ensaio sobre cartas a jovens escritores, diz exactamente o contrário: “não se metam nisso [risos] … o que não faltam escritores no mundo”. São exemplos de cartas a jovens escritores por outros escritores com mensagens completamente opostas.

O que nós tentámos foi outra coisa: o que são estas “cartas” que estas escritoras deixaram nos seus livros? No fundo, são uma mensagem, para uma nova leitora, para alguém que acha que lhe falta aquela literatura. As escritoras com os seus livros, que bastam segundo o Rilke, podem dar alguma base, alguma estrutura às histórias que ainda faltam. Fala-se muito de histórias em falta quando se fala de narrativas (seja de escritoras, seja de escritores), e o que estas mulheres fizeram, ainda que em silêncio e sem a visibilidade que mereciam, foi contribuir para que essas histórias existissem.
Os mapas antigos tinham zonas brancas, vazias e povoadas por monstros marinhos que ninguém sabia bem o que eram. De repente a geografia vai-se desenhando e construindo-se … É um bocado essa a ideia das bonecas e da maquete criada pela Constança [Villaverde Rosado] que percorrem o filme, uma figura sem face que pode ser qualquer uma destas escritoras, e pode ser nenhuma delas e um “mundo” que se vai construindo e revelando.
Sobre o esquecimento literário como fenómeno: há um momento nesta nossa nossa conversa em que disse que o que a afligia mais não é a Olga Gonçalves estar esquecida, é o Carlos de Oliveira estar esquecido. Isso é uma provocação ou é uma convicção?
É uma convicção. Porque o esquecimento não é um fenómeno exclusivamente feminino, e seria ingénuo tratá-lo como tal. O Carlos de Oliveira era um dos escritores mais falados durante décadas. Era o Carlos de Oliveira! Hoje quem lê o Carlos de Oliveira? Encontram-se os livros nos alfarrabistas, como os da Olga Gonçalves, aliás, só que é um escritor de quem ninguém fala, e de quem gosto imenso.
Há uma série da RTP chamada “Finisterra”, que foi transmitida, diria eu, recentemente. à primeira vista julgava-se tratar de uma adaptação do homónimo romance do Carlos de Oliveira, mas pelos vistos não!
É o que estou a dizer, está esquecido, mas são movimentos. Uma pessoa sobe, outra desce, consoante os tempos e o interesse que vai surgindo. Por vezes há que aproveitar o momento, é isso que o Mário Cláudio diz no filme sobre a Agustina Bessa-Luís, cuja família sempre elevou muito o nome, e tem quem faça isso. Mas quem lê “A Sibila” e gosta, devia ler também “A Origem” da Graça Pina de Morais, ambas as obras abordam o Douro, o mundo de onde essas histórias saíram. E aí junta-se a questão das escritoras que estavam próximas dessas figuras maiores e que ficavam ofuscadas por elas.
Há uma espécie de coerência ou tema corrente na sua carreira enquanto realizadora: não diria só filmes sobre escritoras, mas de “figuras femininas esquecidas”, isto, trazendo o “Rosinha e os Outros Bichos do Mato”, que por via de uma mulher maltratada pela História parte para um cenário mais geral do colonialismo português.
Julgo que esse fascínio tem a ver com o lado invisível. Não é uma coisa programática, não decidi dedicar a minha vida a fazer filmes sobre escritoras. O que aconteceu é que, à medida que fui trabalhando, fui percebendo que havia um padrão que não era meu, e sim do próprio meio. Havia escritoras que não estavam a ser lidas, não por falta de qualidade, mas por circunstâncias externas: a ausência de herdeiros interessados, a falta de reedições, as sobreposições com figuras masculinas mais visíveis.
E o que me foi surgindo, sempre, era a questão: quem é que lembra? Quem é que faz o trabalho de manter alguém vivo? Às vezes é um editor como o da Antígona que simplesmente decide que aquela autora tem de estar disponível. Às vezes é uma neta que se torna editora. Às vezes é um professor que leu num café um livro esquecido e não conseguiu parar. São as pessoas que fazem esse trabalho que me interessam, não o esquecimento em si, mas o que persiste apesar dele.
O que me interessa da história da Antígona com a Graça Pina de Morais, por exemplo, é exactamente isso: uma decisão editorial que foi contra a lógica do mercado e que preservou uma voz. Uma pessoa, uma decisão, e a diferença entre existir e desaparecer.

Mas, hoje em dia, ao olhar para a estante de uma livraria, diria mais mainstream, percebemos que há muito mais escritoras em actividade, e em grande variedade: Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Luísa Costa Gomes, só para citar algumas com mais experiência no ramo, como também uma nova geração de escritoras .
E, se por um lado estamos a tentar trazer estas mulheres à luz [a representadas em “Carta para uma Jovem Escritora”], por outro, estamos também a confrontar-nos com o facto de terem sido remetidas para a invisibilidade por diferentes contextos sociais e políticos, ou até, para o dizer de forma mais directa, patriarcais, algo que poderá ter levado outras escritoras a querer desbravar fronteiras que as suas antecessoras não conseguiram transpor. Se calhar, estou a colocar a questão de uma forma um pouco impertinente, mas, olhando para o seu filme e para o percurso destas mulheres, pergunto-lhe se sente que, ao dar-lhes visibilidade, estar também a abrir caminho para outras escritoras, que poderão encontrar hoje um território um pouco menos difícil de conquistar?
Isso é uma pergunta para uma escritora! O que eu posso dizer é que, no meu entender, as escritoras no Estado Novo não eram necessariamente invisíveis, eram censuradas, cortadas, tratadas com desigualdade, mas tinham presença, tinham prémios. A invisibilidade veio depois, com outros mecanismos. O que se passa agora é que há globalmente, e não só em Portugal, mais atenção às escritoras, mas isso vem arrastado por um movimento que nós nunca chegámos a ter de forma plena. Não apanhámos completamente o feminismo das sufragistas que existiu na Primeira República, quando as mulheres tiveram um papel muito importante e foram traídas pelos próprios republicanos quase de imediato. Perdemos esse movimento do início do século XX.
Quando chegaram os anos 70, estávamos em ditadura e depois em guerra colonial, e as mulheres também tinham de participar noutras frentes (o feminismo ficou adiado). Já em democracia, houve uma altura em que o meio literário estava muito refém de uma literatura masculina: o Saramago e o Lobo Antunes dominavam, com toda a legitimidade, mas criaram uma espécie de onda muito masculina. A Lídia Jorge foi durante muito tempo tratada como uma “senhora que escrevia livros” (só quando troveja é que toda a gente se lembrou de Santa Lídia), mas ela sempre foi um pouco maltratada no meio.
Depois da morte do Saramago, na minha geração, apareceram o Gonçalo M. Tavares, o João Tordo, o Afonso Cruz … todos homens. Mais uma nova onda masculina, provavelmente porque não havia ainda modelo para perceber que havia ali qualquer coisa que não estava certa. Agora é diferente. Há a Joana Bértholo, a Tatiana Faia, a Andreia S. Faria, a Luísa Costa Gomes que sempre escreveu imenso só que agora tem outra visibilidade. E há as editoras independentes, que são as que fazem esse trabalho, porque é nas livrarias independentes que se encontram ainda mais escritoras.
No dia em que a Anne Carson ganhou o Nobel, as televisões portuguesas correram para as grandes livrarias para fazerem as suas reportagens, só que depararam com o seguinte cenário, estas mesmas livrarias não tinham os livros dela, mas que iriam ter, segundos os responsáveis. Ora, os livros da Carson já cá estavam há muito tempo … sim, nas editoras e livrarias independentes, e foi a Tatiana Faia, entre outros, que os traduziu. É esse o trabalho que importa.
E sobre esta parceria com a Rita Palma, que co-escreve o filme com a Susana Moreiras Marques? Ela está contigo desde o início, desde “A Donzela Guerreira”, passando por “Rosinha e Outros Bichos do Mato”, e que tem sido até então uma espécie de aliada nestas aventuras. Aliás, foi também uma das fundadoras dos Três Vinténs, a produtora, juntamente com João Pinto Nogueira. Queria que me falasses um pouco desta parceria e do trabalho dela, que sei que nem sempre está tão visível, mas que tem um papel fundamental nos filmes.
Sim. Aliás, ela não está aqui, mas, na realidade, somos as duas que fazemos os filmes. Ela é que prefere que seja assim, e, neste caso, foi muito importante. É sempre fundamental discutirmos tudo em conjunto. “Rosinha” foi um filme muito difícil de escrever, também pelo tema, tal como “A Donzela” … enfim, são filmes que passam por muitas discussões, sobretudo em torno da estrutura, e exigem muito trabalho prévio, mesmo quando são documentários que podem parecer mais observacionais, como “Um Nome Para o Que Sou”, sobre Maria Lamas, do qual exigiu ainda mais preparação, porque tínhamos também a Susana e o livro como base de trabalho.

Neste caso, partimos da inspiração dos artigos da Susana e, depois, a Rita e eu lemos os livros das escritoras (o da Alice Sampaio, “Penélope”, é muito difícil de ler, mas também muito gratificante). Fomos lendo e construindo o filme. Não sei bem como explicar o nosso método. É muita conversa, muitos papéis, post-its na parede, muitas leituras. Às vezes, há algumas amarguras; outras vezes, gritamos, noutras rimos imenso. Acho que é o normal [risos]. E é assim que trabalhamos. Quando sentimos que o processo está mais ou menos encaminhado, avançamos para a rodagem, embora muita coisa acabe por mudar nessa fase.
Neste filme, mudou mesmo muito durante a rodagem. Íamos falar com pessoas e, apesar de termos perguntas preparadas, havia sempre um grande peso de responsabilidade, fosse por estarmos a falar com familiares, fosse pela necessidade de encontrarem um equilíbrio entre a dimensão literária e a emocional. Curiosamente, o momento mais emotivo foi o do editor de Maria Amélia Neto, que é, no fundo, um editor apaixonado pelos livros e pela leitura. É uma história com a qual qualquer um de nós se pode identificar: um dia, entramos numa livraria, descobrimos um livro, apaixonamo-nos por ele, tentamos fazer alguma coisa para lhe dar visibilidade e, depois, ninguém nos liga.
E chegando aos projectos futuros? Este percurso pelas escritoras vai continuar, ou sente que chegou ao fim desse ciclo?
Diria que não há uma decisão. Se aparecer alguém que me aponte, no meio de ver este filme, a existência de uma escritora fantástica, provavelmente não consigo dizer que não. Há nomes que não estão nos artigos da Susana e que me continuam a bater à porta. Dou um exemplo: a Judith Navarro, que escrevia também no neo-realismo, que falava da pobreza, das zonas periféricas da cidade de Lisboa, não só dos camponeses ou dos operários, mas do nascimento de uma nova condição urbana, do campo para a cidade naquela transição dos anos 50, que se vê muito nos filmes italianos neo-realistas. Ela estava a falar de algo novo, e não é conhecida.
Mas a minha tendência agora vai mais para projectos que chamaria mais explicitamente políticos não que estes filmes não sejam políticos, claro que são. A Alice Sampaio foi expulsa de Angola por fazer campanha pelo Humberto Delgado. Estas mulheres lutavam de uma maneira discreta, e também gosto dessa ideia de gritar baixinho mas gritar sempre. O que quero dizer é que os próximos projectos vão buscar momentos políticos mais marcantes na nossa história, figuras que foram actores políticos directos. Há muito por fazer aí, e é o que estou a sentir realmente em falta.

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