“Pois mira, Gaia! Mira Gaia, que esses olhos não terão mais que mirar!”, terá dito o rei antes de desferir o golpe derradeiro sobre a sua rainha. Corpo dilacerado pela fúria da espada, Gaia cai no rio, nas águas que banhavam o castelo e onde encontraria a sua derradeira morada, depois de confessar ao marido, segundos antes do fim abrupto, ter sido verdadeiramente feliz naquele pedaço de terra a ser destruído frente aos seus olhos. Mas, antes deste desfecho trágico, recuamos ao início da narração, à lenda de Miragaia.
Estamos no século X. D. Ramiro II, rei de Leão e das Astúrias, parte de Viseu, onde residia, acompanhado pela esposa, Gaia, e com o propósito secreto de raptar Zahara, irmã do xeque Alboazar. Em vingança, o mouro rapta a mulher do soberano cristão e leva-a para o seu castelo, nas encostas do Douro. Ambos acabam por se apaixonar. Desconhecendo esse amor, Ramiro reúne as suas tropas, esconde-as e, disfarçado de peregrino, procura infiltrar-se na cidadela. Ao deparar-se com uma criada da rainha, deposita o seu anel na bilha de água transportada por esta. Reconhecendo o objecto, Gaia manda chamar o tal errante, que revela a sua identidade, acabando posteriormente por se embriagar e ficar prisioneiro do xeque.
Confrontado por Alboazar, Ramiro descreve a execução que reservaria a um inimigo capturado: comer um capão, beber vinho e tocar trompa no alto de uma torre até ficar sem fôlego. Divertido, o mouro aceita a sugestão, sem suspeitar de que o toque servirá de sinal para as tropas cristãs invadirem a fortaleza. Alboazar morre e Ramiro recupera a mulher, levando-a consigo pelo Douro. Ao vê-la chorar perante as ruínas do castelo, pergunta-lhe a razão do pranto … chegando assim ao derradeiro «Mira Gaia». A lenda perpetua-se na própria geografia: em Miragaia, na margem portuense do Douro, a tradição localiza o lugar da execução da rainha, enquanto o brasão de Vila Nova de Gaia, com a sua torre e o cavaleiro a tocar trompa, conserva a memória do estratagema responsável pela queda de Alboazar.

A lenda terá servido também de pretexto para uma experiência cinematográfica invulgar no panorama português. Inspirado pelo encanto de “Die Abenteuer des Prinzen Achmed” (“As Aventuras do Príncipe Achmed”, 1926), da República de Weimar [Alemanha], escrito e realizado por Lotte Reiniger, um dos primeiros filmes de longa-metragem de animação, “A Lenda de Miragaia” procurou explorar o potencial das silhuetas recortadas, do jogo de luz e contraluz e da ilusão do movimento, fotograma a fotograma.
Assinado por Raúl Faria da Fonseca (crítico, editor e realizador de documentários, também argumentista de “Três Dias Sem Deus”, de Bárbara Virgínia), e António Cunhal (pintor e ilustrador, além de irmão de Álvaro Cunhal), o filme nasceu do desejo de importar uma técnica então pouco explorada. O processo revelou-se tão meticuloso quanto artesanal: recorrendo a uma “câmara escura” e à captação fotográfica individual de cada fotograma, foram produzidas, segundo Faria da Fonseca, 28.400 fotografias isoladas. Dar forma a uma lenda de traição, morte e memória transformava-se, assim, num exercício de sombras em movimento, como se a própria história estivesse condenada a existir entre a luz e a escuridão.
Com 20 minutos de duração, esta produção da Ulyssea Filme transpõe para o ecrã os arabescos visuais de “O Príncipe Achmed”, que mais do que uma simples reprodução técnica, é claramente de tentar replicar a estética, adaptando-os, porém, aos recursos disponíveis na época. O filme detém uma qualidade de execução notável, na qual as limitações dos meios e o carácter artesanal do processo conferem à obra uma certa rusticidade, próxima das raízes da oralidade tradicional de que a lenda beneficiou séculos e séculos de existência no saber milenar. Ainda assim, pouco se sabe sobre o seu percurso inicial: terá sido exibido durante apenas três dias, num cinema lisboeta, em 1931, antes de desaparecer do mapa. Até agora. “A Lenda de Miragaia“ era, até então, um produto das próprias lendas que a rodeavam, um “filme perdido”, sem paradeiro conhecido, cuja condição apenas reforçava a sua aura de fábula.

Mas a “rábula” de perdido chegou ao fim quando um cinéfilo e frequentador assíduo da Cinemateca, Duarte Veloso, ainda em 2026, se deparou com duas latas de película cinematográfica na Feira da Ladra. Adquiriu-as e, apercebendo-se do que poderiam conter, encaminhou-as para o ANIM (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento), onde as suspeitas se confirmaram: tratava-se de “A Lenda da Miragaia”! A lenda era real!
E não se tratava de uma cópia quase imaculada, com meia dúzia de fotogramas desaparecidos, sem grande perturbação para a narrativa. Eram os negativos originais, um achado importante, ainda para o restauro e digitalização da metragem, também capaz de levantar mais questões do que respostas. O que terá acontecido ao filme depois da sua exibição, aparentemente pouco concorrida, segundo os relatos da época? De onde vieram aqueles negativos? Que trajecto terão percorrido antes de chegarem a uma feira de antiguidades?
Texto escrito no âmbito da sessão especial de comemoração do Dia Mundial do Património na Cinemateca Portuguesa, onde será exibido, pela primeira vez, “A Lenda de Miragaia” [aqui]

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