Vinte anos de MOTELx pedem, à partida, uma tradução imediata em números: mais sessões, mais convidados, mais dias, como se a longevidade de um festival tivesse obrigatoriamente de se medir pela sua dimensão. Durante algum tempo, o festival de terror de Lisboa resistiu à tentação. Depois cedeu, mas à sua maneira, como quem sabe que até o excesso pode ser uma forma de género.
A 20.ª edição, de 3 a 13 de Setembro, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, é a maior de sempre: 11 dias contra os habituais cinco ou seis, mais de 140 sessões, uma espécie de criatura que se estendeu para lá da sua própria duração habitual. Só que Pedro Souto e João Monteiro, os dois homens que carregam este MOTELx há duas décadas, são os primeiros a confessar que não fazem propriamente ideia de como esta criatura se irá comportar. “Em 20 anos, é a primeira vez que faço um festival com 11 dias”, dizem, e talvez seja precisamente aí, nesse desconhecido, que começa o verdadeiro filme desta edição.
“Em 20 anos, é a primeira vez que faço um festival com 11 dias. Geralmente é tão intenso logo nos primeiros dias, com tudo cheio de coisas, que agora a questão é: como chegamos a meio do festival sem estar muito aborrecidos?” A resposta, acompanhada por um riso, passou por uma lógica dupla: filmes recentes em quantidade suficiente para sustentar a identidade do MOTELx enquanto janela para o terror contemporâneo, e cinema do passado em volume superior ao tradicional, aproveitando a parceria com a Cinemateca como espaço complementar ao São Jorge. O resultado, com cerca de 70 longas-metragens recentes espalhadas pelas várias secções, mantém uma proporção semelhante à de edições anteriores. A diferença é que, desta vez, há espaço para respirar entre um bloco e o seguinte.
A decisão dos 11 dias foi, ao mesmo tempo, a solução para a pressão dos 20 anos e o nascimento de uma nova inquietação. “A pressão foi resolvida com os 11 dias. A partir daí, deixou de haver pressão do lado dos destaques e passou a haver a pressão de aguentar os 11 dias”, explicam. Demorou a oficializar-se a criatura: conversas com o Cinema São Jorge, datas por reservar, avanços e recuos, a dúvida sobre se estaríamos perante uma experiência para ficar ou apenas uma efeméride. No fim, ficou, e ficando, deixou também espaço para outra coisa. Esta edição olha mais demoradamente para trás, com mais curiosidades e relembranças de outras eras, mais ciclos, mais fantasmas de um festival que entretanto chegou às duas décadas.
Sendo assim, o que passou, passou, e os 11 dias marcam, não só uma dimensão inédita, mas também uma nova etapa na história da mostra de cinema de género. Há “Falar Sobre a Morte (Nunca Matou Ninguém)”, num ciclo promovido pelo Goethe-Institut, a trilogia de José Sá Caetano para ser redescoberta, tesouros do cinema europeu para explorar na Cinemateca, uma sessão olfactiva com “Polyester” de John Waters, além de outras novidades e certezas que os programadores, perante o desafio do Cinematograficamente Falando …, decidem esclarecer em cinco “facadas”, bem ao estilo do slasher killer.
A pressão dos anos 20?

Não sei se pensámos inicialmente que poderia ser um grande desafio, mas ao longo do processo de construção desta programação, começamos a sentir com mais clareza uma pressão externa. A verdade é que o sucesso do cinema de terror nas plataformas de streaming tem encurtado o nosso acesso a certos títulos. Filmes que há dez anos chegariam a Lisboa através do circuito de festivais independentes são agora comprados por distribuidores logo após as estreias ou disponibilizados directamente em serviços como a Netflix ou a Amazon, enquanto que produções como “Backrooms” e “Obsession”, filmes que, noutra altura, poderiam ter passado por aqui, e devido ao fenómeno que tem sido nas bilheteiras, agora, os distribuidores estreiam logo nas salas.
A consequência prática é uma orientação cada vez maior para o cinema independente, aquele que não entra nos radares dos grandes distribuidores e chega sem o contexto de uma estreia mediática. Isso tem vantagens: é precisamente nesse território onde encontramos as descobertas, filmes que chegam sem etiqueta e nos obrigam a um trabalho curatorial mais apurado. Mas também existe uma desvantagem: chegam sem contexto e o público nem sempre sabe ao que vai. Às vezes é difícil perceber se um filme se enquadra no MOTELx ou não, e isso acaba por ser complicado tanto para nós como para o espectador. Tivemos, por exemplo, o caso de um realizador português cujo filme chegou ao festival sem sabermos exactamente como o apresentar. Acabou por resultar muito bem, precisamente por essa estranheza inicial.
Há também uma questão de renovação interna. A nossa equipa de programação é composta por dez a quinze pessoas, entre programadores de curtas e longas-metragens. Os consensos são difíceis e, por vezes, há empates. Quatro contra quatro. O critério final passa sempre pela lógica do espectador: não exibimos apenas aquilo de que gostamos, mas também aquilo que sabemos poder resultar para quem está a ver pela primeira vez. Isso implica trazer vozes novas para a equipa, jovens programadores familiarizados com a linguagem do terror contemporâneo de uma forma que nós, fundadores, admitimos já não dominar por completo. Quando alguém chega e diz “já vimos isto mil vezes, o Carpenter já fazia isto”, temos de parar e pensar: se calhar nem toda a gente viu Carpenter. Isso pode ser uma novidade para alguém.
Sergio Martino, o convidado que ninguém esperava estar vivo

O grande convidado desta edição é o realizador italiano Sergio Martino, pai de alguns dos mais elegantes giallos dos anos 70 como “All the Colors of the Dark” (1972) um dos três títulos programados na Suite 13, a secção com curadoria de Carlos Alberto Carrilho, subtitulada “Sergio Martino e Acid Giallo”. Um festival amigo comentou estar a mostrar filmes do realizador, ao qual respondemos com espanto: “Sergio Martino? Já tínhamos desistido do convidado, pensava que ele estava muito mal.” A confirmação de estar não só vivo [risos], mas também entusiasmado, foi rápida.
Já a presença de Julie Corman, ex-companheira de Roger Corman (como também co-produtora), outra convidada de peso desta edição, está relacionada com o Centenário de Corman, que já tivemos cá. É uma espécie de tournée pelos outros festivais da federação, da qual fazemos parte. Começou em Cannes, vai a Veneza, depois vem aqui, segue para Estrasburgo e Trieste. Portanto, sabemos juntar-nos e partilhar estas coisas [risos].
Solveig Nordlund e o Prémio Noémia Delgado, um resgate que estava em atraso

O Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror foi criado na edição anterior, tendo um nome de peso na sua primeira atribuição, a produtora norte-americana Gale Anne Hurd. A ideia nasceu da vontade de criar um prémio com uma identidade clara, não de carreira nem de notabilidade genérica, mas de contribuição notável de mulheres para o cinema de terror. Ao mesmo tempo, queríamos manter liberdade suficiente para distinguir tanto uma veterana com décadas de obra como alguém com apenas dois filmes, mas com um Festival de Cannes ou um Óscar no currículo.
Portanto decidimos que a segundo condecorada seria uma portuguesa, e ninguém melhor para esse cargo que Solveig Nordlund, cujo universo está profundamente contaminado por H. P. Lovecraft e J. G. Ballard. Para a ocasião, para além da distinção, apresentamos um ciclo com cinco filmes seus: “Aparelho Voador a Baixa Altitude” (2002), “Nem Pássaro Nem Peixe” (1977), a primeira vez que se adapta Lovecraft em Portugal, “Uma Voz na Noite” (1988), “Espelho Lento” e “Viagem a Orion” (1986), um filme quase desaparecido da história do cinema português (a única cópia sobrevivente encontra-se num estado tão deteriorado, com cenas simplesmente desaparecidas, e conseguimos restaurar cerca de 80% do material).
Para nós, distinguir Solveig era uma escolha óbvia e demasiado adiada. Ela nunca fez parte de um grupo. Construiu uma carreira à parte, sempre fez o que quis, e esse tipo de percurso é mais fácil de esquecer. Há também um argumento de reposicionamento crítico: apesar da sua presença consistente no cinema português, Solveig Nordlund raramente é lida como realizadora de género. Nós reivindicamos essa leitura. Quando tentámos, numa edição anterior, organizar uma retrospectiva com a colaboração de actores que trabalharam com ela, alguns recusaram, alegando não gostar muito dos filmes. Isso diz muito sobre o preconceito ainda existente dentro da indústria portuguesa face a um cinema simultaneamente autoral e fantástico. A Solveig trabalhou com Jorge Silva Melo, João César Monteiro, Manoel de Oliveira e com muitos autores do cinema português, mas nunca foi tratada como par. Estamos a fazer algo que devia ser natural, e ainda bem que o estamos a fazer.
Sala de Culto: Lost in Translation, Kung Fu com legendas de Raúl Solnado

Neste aniversário apresentamos dois filmes ligados por uma relação peculiar com a tradução audiovisual, sob o subtítulo Lost in Translation.
O primeiro é “Kung Fu à Portuguesa” (1974), uma raridade do cinema de artes marciais, estreada em Portugal com legendas criadas por Raúl Solnado e Pedro Bandeira-Freire, sem nenhum dos dois conhecer mandarim. As legendas não têm qualquer relação com aquilo dito no ecrã. São comentário social, piadas sobre a cena, gags autónomos, por vezes capazes de construir e concluir as suas próprias histórias paralelas, há ainda referências à PIDE e ao MFA. É um “quarto perdido da história”, com um humor capaz de parecer surgido agora, embora remonte a 1979.
Como chegámos a este filme? Ouvimos falar dele, mas não o conseguíamos encontrar. A Cinemateca não tinha nada. Consultámos projeccionistas amigos e a pista surgiu finalmente num arquivo online, onde a única referência ao realizador, cuja identidade continua incerta, aparecia associada a outro nome. A cópia encontrada estava num estado tão lastimável, com cenas simplesmente desaparecidas, que só conseguimos recuperar parte do material. Alguém andou com aquilo de um lado para o outro para mostrar a toda a gente. O filme esteve três semanas em exibição em Lisboa aquando do lançamento. Contudo, o material sobrevivente não é suficiente para uma única sessão, portanto decidimos arranjar uma nova cópia, e trabalhamos em reproduzir as legendas desse evento.
O segundo título é a versão em língua inglesa de “A Teia de Gelo” (2012), do actor e realizador Nicolau Breyner. O filme foi rodado em dois takes integrais, uma versão portuguesa e outra inglesa, com o mesmo elenco a falar línguas diferentes. As diferenças de entoação e intenção entre ambas alteram subtilmente o significado de certas cenas: as mesmas personagens, os mesmos actores, mas outra língua e, por vezes, outra lógica emocional. Apresentamos a versão inglesa, nunca exibida comercialmente em Portugal.
Section X, poder institucional, vanguarda e a trilogia que chegou tarde

A Section X é a secção mais experimental e underground do MOTELx, é um espaço para filmes capazes de desafiar o espectador sem se prenderem à convencionalidade. Não procuramos documentários de imagem-sombra com 90 minutos, mas filmes com histórias e personagens capazes de recusar a ideia de tudo ter de ser compreendido imediatamente. Não é justo juntá-los a filmes mainstream sem lhes dar um contexto especial, não só para encontrarem o seu público, mas também para podermos mostrar melhor aquilo que têm para dizer.
Este ano, as três longas-metragens da Section X dialogam em torno de uma ideia comum: o poder institucional e a sua subversão, como é o caso de “Chronovisor”, de Jack Auen e Kevin Walker, um academic noir centrado numa máquina supostamente real, inventada por um monge, capaz, alegadamente, de registar imagens do passado, incluindo uma fotografia de Cristo no momento da crucificação.
A Section X tem crescido nos últimos anos, mas de forma controlada. Resistimos à tentação de a expandir demasiado depressa, ou seja, começou apenas com curtas e fomos acrescentando outros formatos. Um dos marcos recentes foi a trilogia de Bertrand Mandico, as suas curtas já tinham passado pela Section X, mas longas-metragens como “After Blue” e “Roma Elastica”, que vamos passar nesta edição, não chegaram a entrar na secção, embora coubessem perfeitamente. A razão é simples: não queríamos que a Section X crescesse de repente.
Outro marco foi a trilogia de Norbert Pfaffenbichler, o primeiro filme, “2551.01 – The Kid”, apareceu há quatro anos e deixou-nos desorientados. O que fazemos com este filme? Não passou. Chegou o segundo e continuávamos sem ter exibido o primeiro e depois chegou o terceiro, com estreia no Festival de Roterdão, e saí urgiu a oportunidade de mostrar a trilogia completa. Foi uma das apostas mais bem-sucedidas da última edição.
A Section X atrai públicos muito diferentes dentro do mesmo festival: fãs de terror à procura de coisas novas, pessoas com preconceitos em relação ao género que preferem estas aproximações mais oblíquas e espectadores já cansados de ver sempre a mesma coisa. É, nesse sentido, uma das secções com maior capacidade de surpresa e uma das razões pelas quais o MOTELx continua a ser algo mais do que uma montra de novidades do terror internacional.

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